Espaço de atividade literária pública e memória cronista

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terça-feira, 31 de maio de 2022

Crónica sobre a apresentação duma obra de autor felgueirense – reportando a apresentação do livro de José Melo “A Arte e o Sagrado na Escultura de Ilídio Fontes”

 

Na colaboração pessoal ao jornal Semanário de Felgueiras, desta vez aconteceu ser com uma reportagem sobre a apresentação em Felgueiras do livro do felgueirense e amigo Dr. José Melo. Cronicazinha essa, pequena para não abusar do espaço do jornal, na qual foi anotado o essencial, a registar essa ocorrência merecedora de boa nota.

Armando Pinto

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sexta-feira, 5 de abril de 2019

Crónica no Semanário de Felgueiras: Evocação de um destacável felgueirense - "Luís Teixeira da Quinta"



Artigo a evocar um destacável felgueirense do passado, publicado no Semanário de Felgueiras, na edição de 5 de abril. Desta feita sobre mais um ilustre conterrâneo, no espaço habitual de temas felgueirenses:


Luís Teixeira da Quinta

A eternidade pode ser um canto mavioso dum pássaro a encantar na absorção da vida, como na famosa lenda do frade e do passarinho, aos olhos de uma fé superior; mas sobretudo é algo que não cabe bem no entendimento humano. Contudo, pode também parecer eternidade a espera de qualquer aspiração ou presença desejada. Sendo que, de qualquer forma, o facto de alguém poder ser lembrado para além do seu tempo, por se ter salientado em vida, será uma boa forma de fazer eternizar boas causas e vontades, em apreço a quem passou pelo mundo com boas ideias e ações.

Vêm a propósito estas considerações pelo mote desta feita a considerar, em notas de temas felgueirenses. Para evocar mais um personagem saliente, entre pessoas dignas de memorização, podendo passar à eternidade da memória coletiva, enquanto houver lembrança alusiva. Sendo de lembrar um ilustre personagem do meio felgueirense de tempos idos, como foi Luís de Sousa Teixeira, benemérito famoso da Misericórdia do Unhão e pessoa de cidadania ativa noutras feições na freguesia de Rande, onde era abastado proprietário da Casa da Quinta. Personagem marcante de seu tempo, porém não lembrado em livros oficiais de edições municipais, mas que foi de ação marcante para a existência institucional da Misericórdia de Nª Sª do Rosário. Em cuja sede ficou registado seu labor através duma lápide colocada na frontaria do antigo edifício hospitalar e conventual, assim como está patente seu retrato pintado na galeria de quadros dos beneméritos.


Não sendo lembrado na literatura municipal, até agora, nem tendo sido honrado com atribuição de seu nome a alguma rua da freguesia onde viveu… Luís de Sousa Teixeira foi contudo memorizado no livro historiador da sua região, estando registado seu pecúlio de ação social no “Memorial Histórico de Rande e Alfozes de Felgueiras”. Motivo de tornar desnecessário aqui enumerar seu currículo de boas obras e atividade cívica, ele que em Rande fazia parte de quase todas as comissões formadas em seu tempo, quer de âmbito paroquial como ao nível de freguesia civil. Incluindo tomar a seu encargo a organização da festa paroquial, como festeiro da festividade em honra do orago S. Tiago (como está narrado no livro “Memórias do Capitão”, de João Sarmento Pimentel).

Luís de Sousa Teixeira, que no Brasil ganhara fortuna bem aplicada em Portugal, fixando residência na sua Casa da Quinta, foi dono do primeiro automóvel aparecido na região, dizendo-se nessa altura que foi a Casa da Quinta que teve o primeiro carro das freguesias em redor (um mercedes original do princípio do século XX, com rodas de raios de madeira e ignição de “dar à manivela”, como se ilustra com a imagem junta). Isto para se ver de sua proeminência, à época.


Ora, Luís Teixeira, além de Mesário e durante anos saliente Provedor da Misericórdia do Unhão, teve comparticipação na evolução social da sua região, havendo sido por bons ofícios dele, enquanto responsável daquela instituição, que logo nos anos do princípio da República houve ensino noturno escolar no Unhão e em Rande. Tal como foi um dos subscritores que tornaram possível a chegada da luz elétrica, então ainda apenas para “distribuição domiciliária”, às freguesias de Rande, Sernande, Lordelo e Unhão.


À época, depois da pioneira iluminação pública a carboneto surgida em 1910 na Longra, em postes com gasómetros (primeira série formal no concelho); e posterior luz elétrica implantada em Felgueiras em 1917, a corrente elétrica chegaria à Longra e zonas envolventes pouco depois também, em 1919, graças a uma subscrição particular efetuada em 1918. De cujo acréscimo social (a que não era estranho a passagem do comboio da região, circulado com paragens na Longra entre 1914 a 1926, embora os trilhos apenas tenham sido retirados já pelos anos 30), passara a haver luz normal que chegava às casas à noite. Tendo, para o efeito, sido formada uma sociedade por cotas, com participação da distribuidora Companhia “Eletro-Industria do Norte” e alguns subscritores, em cujo grupo esteve Luís Teixeira, com uma «sua cota com que subscreveu para ampliar a montagem da rêde de distribuição de energia eléctrica nas freguesias de Rande, Sernande, Lordelo e Unhão, como consta da escritura efectuada no escritório do notário Dr. José de Castro Leal de Faria, em vinte e três de Dezembro de 1918».

Estava então a chegar o natal e a preparar-se uma boa prenda futura às casas da área sul felgueirense.

ARMANDO PINTO
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sexta-feira, 11 de maio de 2018

Crónica no Semanário de Felgueiras pelo desígnio da Festa do Concelho, suas afinidades e identidade


São Pedro, o apóstolo Simão, que foi primeiro bispo da Igreja, a quem Cristo proclamou: «-Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja», é representado simbolicamente como governante das chaves do edifício da Igreja, por Jesus Cristo lhe ter acrescentado: «-Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus e o que ligares na terra será ligado no Céu e tudo quanto desligares na terra será desligado no Céu». E extensivamente tem também em Felgueiras as chaves da festividade oficializada como festa concelhia, ao findar o mês de junho dos santos populares.

É esse memo santo a quem a fé popular dos nossos antepassados felgueirenses se apegou, desde eras remotas, e lhe entrregou por assim dizer as chaves da edifiicação concelhia, referente ao conjunto edificado em comunidade. Sendo S. Pedro, inicialmente pescador e por fim cabeça da Igreja institucional da Cristandade, o santo honrado com a dedicação da festa do concelho, sobre a qual versa desta vez a crónica usual do autor no Semanário de Felgueiras  de cujo artigo, publicado na edição de 11 de maio do S F, se junta aqui imagem de recorte da respetiva coluna jornalística, mais o texto por extenso.


Chaves para Felgueiras

Dizer que temos Felgueiras no coração não será grande novidade, tal o espírito mais generalizado em boa parte dos naturais e residentes do concelho de Felgueiras. Algo que nem dá especial individualidade, atendendo a que existem terras há muito associadas a corações, quer na arte da filigrana, quer em artefactos de folclore. Mas, atendendo ao sentimento felgueirense, não é já descabido pensar-se que há aura felgueirista na associação à rosca do pão de ló. E, de modo particular, pode ser mesmo compatível haver uma vera sensibilidade felgariana relacionada às chaves de São Pedro, sendo como é a festa do concelho sob invocação do santo guardião das chaves do céu, na associação da sua primazia como pedra angular da Igreja.

No imaginário popular S. Pedro é tido como Padroeiro de Felgueiras, embora sem assim ser considerado oficialmente. Tendo cada paróquia seu padroeiro, como por exemplo Margaride tem Santa Eulália, outras paróquias diferentes patronos; e também desde eras remotas há paróquias com S. Tiago como Orago, na ligação à passagem das peregrinações para Compostela, como em Rande, Sendim e Pinheiro, nas diversas variantes dos Caminhos de Santiago no interior do Douro Litoral. Porém a atribuição de primaz das Festas do Concelho ao santo Príncipe dos Apóstolos deriva da mais antiga ermida de que há notícia na região, conforme é narrado na setecentista Corografia do Padre Carvalho da Costa, ter sido dedicada a S. Pedro, no alto do monte onde foi martirizada Santa Quitéria, cujo nome perdurou no local.

Extensivamente S. Pedro, o santo em apreço como ícone das festas que dão origem ao feriado municipal de Felgueiras, tem imagem iconográfica na igreja do monte de Santa Quitéria, na representação de pescador do mar da Galileia, mas com duas chaves na mão, enquanto na igreja matriz da paróquia de Margaride, em pleno centro da sede do concelho, está com representação de Bispo dos Bispos da Igreja. Ou seja, na imagem provinda da antiga capela de S. Pedro, no monte agora popularmente chamado da Santa, é representado no templo com trajes da época tendo numa mão duas chaves e na outra o livro de suas cartas; ao passo que na igreja paroquial da cidade surge paramentado de Papa, com tiara na cabeça, tendo nas mãos outros seus atributos.

Tais considerações fazem vir à superfície (sendo S. Pedro da devoção de gentes de zonas marítimas que costumam demandar Felgueiras em peregrinações de votos), a falta que existe, ainda, dum monumento reportado ao mesmo santo em local público, de modo a fazer ligação à identidade coletiva. Agora mais ainda, de forma a dar ser à passagem do centro de Felgueiras a local privilegiado da mesma festa. A propósito da interessante iniciativa, bem pensada e concretizada, da colocação durante algum tempo duma chave alusiva à festa de S. Pedro em frente aos Paços do Concelho, numa jornada festiva que trouxe em cortejo a mesma chave feita numa oficina de serralharia da Longra, com desfile dentro da urbe citadina de Felgueiras ao som de muitos bombos. Algo que passa a lembrar a próxima realização, desta feita trazendo para a cidade o centro das festividades, tal como há anos houve anterior tentativa. Alterando-se assim o panorama, que pode até resultar, de vez, desde que haja efetiva ligação entre a tradição e a idealização. Quão louvável é a intenção, podendo assim haver em Felgueiras uma festa do concelho à imagem do que é feito com festas grandes de concelhos vizinhos. Onde os pontos fortes costumam ser, além da parte chamada profana, também a religiosa. Podendo, no caso, a procissão de S. Pedro que costuma ser feita no alto vir até à cidade. Assim como o cortejo das flores, número maior do cartaz, vai desde baixo até lá acima, também poderia a manifestação religiosa vir até ao sopé, o que nem seria difícil porque, como se costuma dizer, ao baixo todos os santos ajudam.


ARMANDO PINTO
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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Padrão de Felgueiras – artigo historiador no S. F.


Numa abordagem historiadora, buscando estudo a reportar às origens de casos identificativos, da memória coletiva felgueirense, mais um artigo daqui do autor foi pousar ao jornal Semanário de Felgueiras, de quanto se voa nestas loas, dentro da colaboração habitual com assuntos respeitantes a Felgueiras. Onde muitas coisas que se vêm todos os dias, do que está à vista de todos e existências com que nos cruzamos, nem sempre são bem do conhecimento público nas suas facetas cronológicas e razões de significado. Como é o caso do cruzeiro do jardim fronteiro ao edifício da Câmara Municipal. Na lógica e diferenciação do seu tempo. Distinto como é de outros, sem confusão possível com o vizinho cruzeiro do adro da igreja paroquial de Margaride, dali bem próximo, mas de cariz sobretudo religioso e de matriz comunitária-paroquial. Havendo assim dois cruzeiros na mesma cidade de Felgueiras, contudo de particularidades distintas, com o municipal a ser icónico padrão concelhio.

Esse, com efeito, é o mote que desta vez veio a propósito. Pois que ainda recentemente, numa conversa através do “chat” do facebook, ou seja nas mensagens privadas dessa rede social, foi feita uma pergunta sobre esse cruzeiro, também conhecido por padrão, como é de facto. Então referi que haveria de escrever sobre isso na minha colaboração ao Semanário de Felgueiras. Entretanto, como outros temas apareceram com mais atualidade e se foram intrometendo, só agora pude escrever reportando a este motivo.

Assim sendo, como o prometido é devido, abeiramo-nos do mesmo padrão, com ideia de tratar do caso em sentido estudioso. Embora num tratamento breve, como é num artigo jornalístico em espaço de opinião. Artigo esse que vem então publicado na edição desta semana do SF. De cuja crónica para aqui transpomos o texto respetivo. Ilustrando ainda a descrição com fotos intercaladas do mesmo padrão de cruz cimeira, com vistas algo diferentes conforme os estados floridos do ambiente.

Cruzeiro-Padrão da Independência em Felgueiras

De tempos a tempos há temporadas assinaláveis, comemorando algo ou classificando motivações. Restando depois, por norma, marcos edificados de alusão perene a tais acontecimentos. Como, sem rebuscar muito no tempo, ainda lembra a edificação de pequenas capelas e nichos, com dedicação a Nossa Senhora do Rosário ou da Conceição, existentes em diversas terras da região, de construção próxima à passagem das comemorações do Ano Mariano, em 1985, e em associação extensiva ainda ao período comemorativo dos 350 anos da Padroeira de Portugal, em 1996. Assim como alguns outros pequenos monumentos respeitantes à proximidade dos denominados Anos Santos, como já ocorreu igualmente no início da década dos anos 2000. Também foi assim bons anos antes, aquando da construção dos chamados Cruzeiros da Independência, que tiveram ereção à época comemorativa do tricentenário da proclamação da Padroeira de Portugal e da Restauração da Nacionalidade.

Pois foi assim que nasceu o cruzeiro-padrão de Felgueiras, ereto no jardim central da sede do concelho de Felgueiras. Tal como outros cruzeiros espalhados pelo concelho e por diversas zonas, normalmente de características religiosas-paroquiais, enquanto o de Felgueiras em moldes mais emblemáticos, puxa a um carácter simbólico de feição monumental.


Ora, os Cruzeiros, nos primórdios da organização territorial das paróquias e derivadas freguesias, foram implantados como sinal de jurisdição paroquial, em substituição dos pelourinhos das antigas freguesias. Com a erosão dos tempos, destruídos ou transformados muitos dos originais, houve então em 1940 essa campanha nacional de implantação de novos, em movimento liderado pelo Padre Moreira das Neves (da diocese do Porto, mas que se radicou em Lisboa, ao serviço da comunicação social de inspiração cristã), sendo a iniciativa baseada numa ideia de cruzeiros da independência com a divisa “Uma Cruz basta para dizer na História quem é Portugal”, em vista à comemoração da proclamação da Padroeira de Portugal. Aproveitando então para tal iniciativa patriótica o espírito de respeito do povo português perante os padrões de fé existentes por todo o país. E apelidando-os de Cruzeiro da Independência na pertinência do triplo centenário da Restauração da Nacionalidade, que passava então, junto com um conjunto de comemorações patrióticas e ações públicas de propaganda por todo o país. Dessa imensa organização de âmbito nacional resultou que fossem criadas localmente as chamadas “Comissões das Comemorações Centenárias” que diligenciaram a construção desses “Cruzeiros da Independência” na centralidade das localidades portuguesas. Muitos novos cruzeiros foram colocados pelo território português. Uns com a colaboração das Câmaras Municipais e outros por iniciativa de comissões organizadas. Em cuja sequência se deu em Felgueiras o movimento atinente a esse desiderato, que decorria ainda em finais de 1940, como se pode ler numa nota noticiosa inserta no jornal Notícias de Felgueiras de nove de Novembro de 1940, referindo existência duma «Comissão encarregada de obter fundos para o Cruzeiro da Independência, a erigir nesta vila…». Que altaneiro, é marco concelhio no coração nobre da atual cidade de Felgueiras.

O Cruzeiro da Independência felgueirense, em formato de padrão, colocado no jardim da Praça da República, «foi feito com pedra do monte de S. Torcato, (sendo) obra de bom desenho e bom gosto, riscado por António de Azevedo. No capitel da coluna oitavada (forma alusiva aos oito séculos da Nação, ao tempo) figuram oito brasões dos dois tipos afonsinos, alternados (um só com as quinas e o outro com cruz branca). Serve-lhe de remate uma cruz ornada com esferas.»

ARMANDO PINTO
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terça-feira, 2 de junho de 2015

Crónica na edição especial comemorativa dos 25 anos do SF


O Semanário de Felgueiras perfaz agora a já bonita conta de 25 anos de publicação. Naturalmente, o autor deste blogue, como colaborador de longa data do aniversariante jornal felgueirense, marcou presença no número especial de aniversário, com um artigo alusivo à comemoração das correspondentes Bodas de Prata.


Eis o que então procuramos transmitir da também já longa vida do mesmo jornal e ficou impresso na edição respetiva, especialmente vinda a público no próprio dia 1 de Junho:


Quarteirão Comemorativo do SF

Ainda há dias se ouviam entoar louvores à Santa de veneração da nossa terra, nas tradicionais novenas de Santa Quitéria lançadas pelo ar monte acima, numa atitude que perdura pelos tempos fora. Tanto como permanece sempre na afeição nutrida por Felgueiras tudo e todos os que beberam e sorvem água da fonte da mesma Santa, conforme se diz. Quão se mantêm outras realidades, tal a duração do Semanário de Felgueiras, presentemente a comemorar um quarteirão de vida.

Numa contagem dum quarto de século, mas englobando tempo de dois séculos, aí está pleno de energia o Semanário de Felgueiras, nascido ao início da última década do século XX, a que soma os anos em que dura o século XXI, contando no total já um quarteirão cronológico, na medida de vinte e cinco anos de existência.

Foi em 1990, no primeiro dia de Junho, que veio a público, para ficar, este periódico depressa tornado referência da essência concelhia. Jornal inicialmente tornado público sob a direção da Profª. Emília Ribeiro, depois com o Dr. Manuel Faria a Administrador e Diretor, estando presentemente como diretora a Drª Susana Faria. Um caso sério, na prática, enquanto elemento de especial importância no registo da história felgueirense dos vinte e cinco anos entretanto decorridos. Desde a primeira hora a pugnar pelo interesse coletivo, transformado com o decurso dos anos na principal tribuna de informação escrita do concelho de Felgueiras.

Logo no início este mesmo jornal teve diversas iniciativas, entre as quais editou um “Suplemento Felmostra-S. Pedro/90”, dedicado à Mostra Concelhia que se realizava e à Festa do Concelho. Como, anos mais tarde, teve uma diligência inédita em substituir o que deveria ser dever da Câmara Municipal (de apoio e incentivo a estudos sobre o concelho, sem olhar a políticas), acontecendo que o Semanário de Felgueiras, através de ação do seu administrador Dr. Manuel Ferreira de Faria, patrocinou a publicação de um livro monográfico da região, o “Memorial Histórico de Rande e Alfozes de Felgueiras”, escrito pelo autor destas linhas também e publicado em Novembro de 1997. Como no ano seguinte, em Dezembro de 1998, o SF editou um suplemento alusivo ao Centenário dos Bombeiros Voluntários de Felgueiras (“100 Anos”). Bem como em 1999 publicou um “Suplemento Especial Felgueiras Cidade”, dedicado às comemorações do 9º aniversário da cidade de Felgueiras e à inauguração da sede da Junta de Freguesia de Margaride. Anos depois, em Junho de 2002 teve um Suplemento (destacável, mas integrante do respetivo número) sobre o 3º Aniversário do Clube de Andebol de Felgueiras. Tal qual, em Junho de 2003, o mesmo jornal editou uma revista (“13 Anos-Semanário de Felgueiras”), a assinalar o respetivo 13º ano de existência, comemorando condignamente esse número mágico com energia positiva. Tanto como no seguinte Julho de 2003 colocou em suas páginas centrais um suplemento sobre a Elevação da Vila da Longra. Em Junho de 2006 teve também um suplemento do 11º Aniversário da Cidade da Lixa. E depois em Março de 2007 fez um destacável caderno especial/SF sobre a subida de Divisão do CAF, na sua primeira participação no campeonato da AFP, intitulado Parabéns Clube Académico de Felgueiras/Académico de Felgueiras: Uma época de honra e glória”. Tal como, depois, teve idênticos destaques nas subidas do continuador F C Felgueiras 1932. Mais lembra ainda tudo o que se seguiu e faz parte da memória coletiva algo recente (que nem enumeramos para não alongar este texto também evocativo).

Numa toada condizente, como que a entoar parabéns devidos, não ficaria mal que uma efeméride destas lembre a existência de medalhas douradas de mérito felgueirense para casos destes. Porque a história de Felgueiras muito deve ao SF, por quanto da memória amarelo-púrpura estas páginas encerram.

ARMANDO PINTO

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sexta-feira, 17 de abril de 2015

Artigo no SF, de título sintomático.


Mais um artigo escrito e publicado, dentro da colaboração jornalística ao jornal Semanário de Felgueiras. Cujo título sintetiza o seu conteúdo, através de  texto a procurar deixar expressa a ideia do valor atribuído ao tema.

Dessa crónica, escrita a seguir à época pascal e publicada no SF desta sexta-feira 17 da quinzena seguinte à Páscoa, colocamos a respetiva coluna, mais o correspondente texto original para mais acessível leitura, aqui.
  
Irmãs Vicentinas do Unhão 

Ainda lembra aos ouvidos o toque da campainha do Compasso Pascal, passada que foi a Páscoa, sem ir muito longe algumas lembranças relacionadas, no que toca ao tema que vem à ideia, desta vez. Sendo que esta região sempre terá umas quantas referências a puxar pela memória coletiva, quer no aspeto ambiental como nas dotações, vindo então ao caso a faceta do património humano.

Ocorreu ainda há pouco, também, a comemoração da outorga do Foral Manuelino aos antigos concelhos de Felgueiras e Unhão. Encerrando-se esse período com a celebração da concessão régia da carta foralenga à velha Honra do Unhão. Cujos festejos tiveram pontos altos nas realizações programadas com lugar no edifício conventual da Misericórdia local. Onde sobressai o labor da Comunidade Vicentina das Irmãs de Caridade da Ordem de S. Vicente de Paulo. Ora, é sobre essa realidade que desta feita apraz registar uma existência de apreço, tal é sentida a sua presença e por quanto representa na região a faina das conhecidas Irmãs em prol do bem comum. Cuja vida conventual, por outro lado, tem ainda outros contactos memoriais à vivência local, de certo modo até com interligação ao tempo pascal ainda de fresca memória, sabendo-se que Felgueiras, como terra do pão de ló, é vasto sítio de implantação da doçaria tradicional – para a qual eram precisos ovos com fartura e nos conventos eram usadas as claras para engomar os véus dos hábitos, restando as gemas para o doce pão leve e outras iguarias adocicadas.

Com efeito, antigamente as Irmãs da Comunidade Vicentina da Misericórdia do Unhão usavam umas espécies de toucas muito salientes e hirtas, de pano endurecido através de aplicação de caldas de claras de ovos e produtos similares caseiros. O autor ainda chegou a ver isso, recordando-nos de ver as Irmãzinhas (como lhes chamávamos popularmente) a circular pela região com esses hábitos distintos. Andavam pelas portas em missão e consequentemente a joeirar algo mais, assim vestidas, metendo respeito e certo temor por isso mesmo, pois usavam tal alto toucado, à espécie de "chapéu" chamado de corneta, quase se assemelhando a uma gaivota de asas abertas. Também sendo associadas à memória popular, desses tempos passados, pela assistência que prestavam com um género de medicina popular, pois eram especialistas  na confeção caseira dum remédio das bichas à maneira antiga, custoso de engolir por seu intenso travo, mas de bom efeito curativo.

Isso tudo num aspeto que assim justifica retenção de mais-valia, perante o caso de estar instalada no concelho a Comunidade das Irmãs Vicentinas, mais propriamente chamadas Filhas de Caridade da Ordem de S. Vicente de Paulo, no Unhão (além de também no monte de Santa Quitéria), onde as mesmas exercem funções de educação dirigindo externatos com infantário, pré-escolar e escolas de ensino básico, além de apoio sócio-caritativo à comunidade da região. Vindo aqui agora ao caso, no facto a realçar, o exemplo das Irmãs do Unhão, como normalmente se diz, pela ligação afetiva ao tema.

Estão as mesmas no seu convento sito no antigo Paço dos Condes, edifício que em 1868 foi comprado pela Misericórdia de Nª Sª do Rosário do Unhão, em aquisição ao Barão do Calvário (Felgueirense que ao regressar do Brasil se radicou em Penafiel), desde quando ali ficou instalada a sede definitiva daquela instituição, fundada anteriormente em 1630 (conforme aludimos no “Memorial Histórico de Rande e Alfozes de Felgueiras”, em 1997). Até que as referidas Irmãs Vicentinas vieram, em 28 de Março de 1933, para o serviço do antigo hospital da Misericórdia de Nª Sª do Rosário, e desde então se fez notar, sobremaneira, a sua presença na própria terra e na região envolvente. Como que a abrir as asas do antigo véu e a pousar no ambiente de mensagem atual. Quais andorinhas a levarem uma Primavera a quem necessitar.

Armando Pinto

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Artigo com a Biblioteca Municipal em estante... no Semanário de Felgueiras


Numa ligação ao artigo anteriormente aqui tratado, continua-se nos contornos da biblioteca municipal de Felgueiras, desta vez com texto publicado na mais recente edição do jornal Semanário de Felgueiras. 

Assim sendo, não só por presentemente não acontecer nada de novo, de enfoque especial, cá pela nossa região, mas também porque o que existe vale mais, voltamos atrás no tempo para mais uma rememoração, na ciência comprovativa que a memória deve fazer justiça. 

Eis então a coluna, do que foi publicado no SF desta sexta-feira 27 de Fevereiro, seguindo-se o texto normal, para facilitar a leitura:

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Hernâni Cidade

Estamos com Fevereiro a dar seus últimos toques, com noites enluaradas, de modo que no dizer popular o luar de Fevereiro quem o dera o ano inteiro. Apesar do frio e tempo instável, como época das “Febreiradas”, na voz popular quanto às Fevereiradas a condizer, em que tanto chove como faz sol. Além de ser o mês mais pequeno, mas mesmo assim dando para as costumeiras andanças de dia e pela noite dentro, com os festejos de Carnaval (época móvel, que calha mais neste mês), tal qual primeiras manifestações populares da Quaresma.

Ora, assim sendo, pode ver-se bem como o que parece de menor abrangência e nem sempre com tempérie estável, também tem seus atrativos. Quanto no caso da cultura de interesse mais local, relacionada à identidade concelhia.

Vem ao caso a lembrança dum personagem que teve alguma influência em Felgueiras, mas por motivos diversos tem sido injustiçado nos contornos históricos felgueirenses, como foi o Prof. Dr. Hernâni Cidade. Pessoa que já nem é de nosso tempo, mas deve merecer consideração.

Houve e há quem se admire por Hernâni Cidade ter escrito, em princípios da década de quarenta, do século XX, que desconhecia a história de Felgueiras, afirmando, no que se entende de suas palavras impressas, que os felgueirenses eram dos povos felizes que não tinham um passado a reter-lhes o futuro. Sabendo-se que esse homem de cultura foi o iniciador duma pioneira biblioteca municipal, sobretudo. Mau grado opiniões contrárias, contudo com alguma verdade a constar duma publicação do antigo jornal Primeiro de Janeiro, em caderno-suplemento de edição especial vindo a público em 1979, contendo informações recolhidas precisamente com dados constantes na antiga biblioteca municipal, quando ainda estava implantada no edifício dos paços do concelho.

A relação com a falta de conhecimentos do passado felgueirense nem é de estranhar, verificando-se que nesses idos anos de quarenta e até de cinquenta praticamente nada havia a historiar Felgueiras. Temos em mãos, por exemplo, um álbum editado em 1953 pelo antigo jornal O Século, com o país de lés a lés, por distritos, incluindo imagens e informações cinquentonas de cidades, vilas e aldeias, com alguma importância. E ali, no distrito do Porto, lá estão as cidades e quase todas as vilas cabeças de concelho, mas de Felgueiras nada, mais parecia nem andar no mapa, nesses tempos…

Ora, com essas e outras, não virá mal algum ao mundo em se recuar nos trilhos da história. Remetendo à evocação do Prof. Hernâni Cidade, personagem oriundo do sul (do Redondo-Évora) mas que viveu temporadas em Felgueiras com familiares, nas férias de professor das Faculdades de Letras do Porto e Lisboa. Acontecendo então que foi ele quem criou a primeira biblioteca municipal da vila de Felgueiras, dedicando-se durante tempos de descanso a juntar livros espalhados e ordenando algum material literário e documental existente na Câmara. Apesar de desconhecer a história de Felgueiras, mas sabendo-se que vinha a Felgueiras visitar amigos e passava temporadas com a família, conforme recordava sua filha, a ativista política Helena Cidade Moura. Entretanto gerou-se uma ideia de certo menosprezo, passado muito tempo, derivado a um escrito em que ele expressou desconhecimento pela história felgueirense (crendo mesmo, como escreveu, que pertencia «à categoria dos povos felizes que a não têm...»), como resultado da falta de informações enfeixadas que à época se fazia sentir localmente. Tendo contudo Hernâni Cidade, escritor e jornalista de renome, transmitido apenas as suas impressões com “Felgueiras e seus arredores”, artigo datado de Lisboa em 1941 e publicado na coleção «Portugal Económico Monumental e Artístico», que serviu para diversos fins em publicações locais, onde teve transcrições ao longo de muitos anos.

Isto da cultura, quanto à vertente histórica, é quase como a lua, que a todos encanta mas não é de ninguém.

Armando Pinto

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

RECORDANDO: Uma inspeção do famoso Fontinha ao Posto Médico da Longra


Dizem-me os meus quase quarenta anos de serviço público que a distância delapida melhor um percurso de vida.  Embora,  tal como quando se constrói uma casa, nossa, ao findá-la é que se devia estar a começar, para melhor aproveitamento; também ao findar uma carreira, no caso profissional, se fica a entender determinadas situações e a conhecer melhor as pessoas.

Ora, passando adiante disso, por ora, fica porém o sabor dileto dos bons momentos. Como de tanta peripécia vivida no decurso do emprego mantido no Centro de Saúde da Longra, desde o inicial Posto Clínico da Casa do Povo, até ao Centro de Saúde, que popularmente sempre foi e será o Posto Médico. Daí que durante muito tempo eu fosse conhecido, primeiro por Pinto da Casa do Povo, e mais tarde por senhor Pinto do Posto Médico…

Pois então, no meio de infindáveis e engraçadas situações (a par com horas lixadas, que mexeram com um tipo, por mais calmo que fosse!), houve uma situação que não mais esquece. Passada com um antigo inspetor da entidade distrital de saúde, dos Serviços Médico-Sociais do Porto, a que estavam ligadas as unidades, quer no tempo em que se incluíam nas Casas do Povo, quer mais tarde na anexação ao serviço nacional. Sim, num tempo que dava para haver funcionários a fiscalizar as funções de outros, vindo então certos fiscais administrativos, por assim dizer, desde o Porto, para ver e passar a pente fino as escritas, como se dizia, dos chamados postos médicos. Sendo à época muito temido (na boca de colegas mais antigos) um senhor conhecido por Fontinha, algo rígido, mais pela sua sisuda postura, além de ser muito exigente e minucioso na examinação das papeladas. José Fontinha, de nome mais completo, como assinava por fim os relatórios (embora nos registos biográficos apareça publicado Fontinhas, porém sempre foi mais conhecido por Fontinha, enquanto ele nunca ripostou a esse tratamento). Mas que, como alguém dissera e passamos a saber, se tratava de um poeta conhecido por um outro nome, Eugénio de Andrade, conforme o pseudónimo que escolhera para a autoria de suas obras literárias.

Daí que se entenda uma passagem dum seu livro:

«...Sou um homem que nunca fez da poesia uma carreira. Passei trinta e cinco anos a fazer inquéritos e processos disciplinares, sem o menor gosto mas com grande sentido de responsabilidade, e escrevi a poesia de que fui capaz nas horas que me deixavam livres a profissão de inspector de uns serviços do Ministério da Saúde, que ainda aí estão, cada vez piores, ao que consta ...» - Eugénio de Andrade (1923-2005), in “Poesia e Prosa”.

Pois sim, mas a quem o aturava, nas vezes em que ele aparecia no local do nosso emprego, não havia poesia nos contactos cara a cara. Não dando muito uma coisa com outra e, a quem conhecesse suas composições poéticas tal não diria que eram dele, muito menos quem estivesse a leste perceberia como podia ele ser um vate na matéria. Apesar disso, pessoalmente eu até simpatizei com ele e nunca tive queixa. Aliás, por das poucas vezes que trocamos algumas palavras, uma ocasião se ter proporcionado para ele se aperceber que eu tinha certa simpatia pela literatura, deu para, passados anos, ele me ter autografado um livro, que mantenho com apreço – apesar de eu nem ser muito apreciador de poesia livre, quase sem rima, mais voltado sempre a melodiosas rimas declamadas.


Enquanto isso, o que via com o Fontinha, nas suas vindas ao Posto Médico da Longra, dava para espairecer o pensamento, por estar sempre a estudar o ambiente derivado e fazer analogia dum quadro situacionista ao outro facto. Mas pude presenciar ocorrências divertidas, quase cómicas, para não dizer mais.

Aconteceu de uma das vezes, quase no início da minha carreira profissional, uma dessas tais. Estando ainda a trabalhar lá, na parte médica dos serviços da Casa do Povo local, o senhor Gomes, da Pedreira, um simpático senhor já idoso, pois acumulava esse emprego com uma reforma (aposentado que era dum emprego que antes tivera em Lisboa e, ao regressar à região natal, conseguira esse extra para aumentar o vencimento mensal). Chefiava o Posto o senhor Cunha (Agostinho Cunha), trabalhando em secretária ao lado o sr. Luís (também Cunha), como se sentava mais à frente a D. Emília Costa (esposa do antigo funcionário sr. Jaime). E, entre nós, contando comigo que era o mais novo no serviço, trabalhava também como novato o Miguel. Então ainda jovem despreocupado, nada parecido com o mesmo Miguel Lemos que passou muitos anos no próprio Posto da Longra, que chegou a chefiar mais tarde. Por isso, numa das fiscalizações que o Fontinha estava a vasculhar, calhou do Miguel ter de dar conta duma das suas funções, ele que nesse tempo tinha a seu cargo a correspondência postal e por conseguinte os respetivos registos, de envios e gastos de selos. E o senhor Luís Gomes, a fazer serviço de retaguarda, como hoje se diz, andava mais ao brejo, em trabalho de terreno, de um lado para outro.

Então o Miguel, para o Fontinha o não apanhar desprevenido, antes de ele ir ver os livros e as pastas, fartou-se de tentar pôr tudo em ordem, tim tim por tim tim, e como pensou que lá estavam selos a mais, não coincidindo nas suas apressadas contas os selos registados com os que restavam, tratou de esconder os que pensou estarem a mais. Só que o tal Fontinha, fuinha como era, escarafunchou por todos os lados das parcelas e não é que descobriu que as contas estavam mal, faltando uns tostões na soma das verbas…?! E, de imediato, diz-lhe de chofre:

- vá, jovem, isto está errado. Ponha já aqui a diferença. Tire lá o dinheiro de sua algibeira, e reponha o que falta, ora vá… (deixando o Miguel de boca aberta, muito admirado e de testa franzida, por nem saber muito bem a que propósito vinha isso da algibeira… enquanto nós, sufocando o riso entre dentes, nos divertíamos com a reação do Miguel ser obrigado a pôr de seu bolso a “massa”, apesar de se tratar duns trocos…)

Entretanto, estavamos nesse pé, quando entra o senhor Gomes na secretaria, esbaforido, a arfar pela caminhada de ter ido ao correio, onde levara cartas à estação do Correio da Longra. Com sua barba por fazer, como era costume dele, vendo-se-lhe a cara com brancos pelos da barba de pelo menos uns dois dias sem ter sido cortada. Estava-se nos primeiros anos após o 25 de Abril, mas ainda havia resquícios de outros tempos, quando os funcionários públicos eram obrigados a apresentar boa aparência. Então, mirando-o de cima a baixo, o senhor Fontinha dispara:

- Ó homem, o ordenado não dá sequer para lâminas? Como pode andar aqui com esse aspeto?

Todos ficamos à espera do que ia sair. Ao passo que o sr. Gomes, desculpando-se, ripostou, a tossir no seu catarro de fumador (como quem diz que nem tinha tempo, por morar longe, o que nem era muito o caso, de permeio com sua linguagem de português arcaico):

- Ó, ohhh, ora, ora, se eu saio de casa de noute e entro de noute…

Todos afilamos os sentidos, à espera de mais uma reprimenda. Mas eis que o Fontinha, poeta como era, e apreciador da linguagem clássica, teve então um remate épico, todo apreciativo e muito sensível…

- Noute... muito bem dito. Sim senhor. É assim mesmo. Esse português até me enche o peito. Noute... muito bem dito! (Foi repetindo com trejeito de apreço. Quão até esqueceu a esquálida aparência do senhor Gomes.)

Num baque, lá ficamos todos a olhar uns para os outros. E mal ele se foi embora, logo que o Fontinha nos deixou em paz, nos fartamos de rir com aquilo. Tanto que ficou para sempre entre engraçados ditotes memoriais, nas nossas recordações do tempo passado na secretaria da Casa do Povo da Longra.

ARMANDO PINTO


(Texto dentre o material a incluir possivelmente num futuro livro, planeado.)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

“Achega” sobre o 150º Aniversário do nascimento do "Senhor Aniceto", renomado Felgueirense, no Semanário de Felgueiras…


Há um ditado popular adiantando que ano de nevão é ano de pão. Ora este ano não houve nenhum nevão por estas bandas, por ora, e o ano está quase a acabar, faltando contudo algo da cultura da memória felgueirense, pelo menos… como será se não houver uma justa lembrança perante a memória de um felgueirense ilustre, como foi o maestro Aniceto Pinto Ferreira. Neste ano em que perfaz 150 anos desde o seu nascimento, numa conta completada já em Abril, até.

Foi então sobre esse tema que por estes dias escrevemos, na colaboração prestada à imprensa local quando solicitado, no Semanário de Felgueiras.

De tal artigo, publicado na página 2 da edição do SF desta sexta-feira, dia 12 de Dezembro, transpomos para aqui a respetiva coluna, em imagem digitalizada da edição impressa, e de seguida o texto correspondente, do original escrito.


150 Anos do Maestro Aniceto Ferreira

Costuma-se dizer que uma terra vale muito pelas pessoas que teve e tem, no conceito da semente gerada em bom solo, qual Mátria que se honra por seus bons filhos. Tal qual se distinguem as regiões pelas inerentes potencialidades, graças aos méritos produzidos.

Noutro conceito, vêm de longe, dos confins dos tempos, as notícias transmissoras que dão conhecimento de acontecimentos passados, tornando possível a existência de informações de antigas realidades, e conhecimento de pessoas, usos e costumes de antanho. Desde os tempos bíblicos da criação do mundo, embora a primeira nota não fosse exemplar, em determinados aspetos, segundo se constata pela tentação provocada por Eva perante Adão. Havendo depois a transmissão noticiosa passado sucessivamente, mais tarde e comedidamente, através das gravuras rupestres, que venceram a erosão do tempo e chegaram à atualidade. Até que surgiram os papiros e por fim o papel, em cuja maleabilidade chegaram tantas notícias impressas, que movem o mundo global.

Ora, no meio de toda essa transmissão noticiosa, é possível saber-se da boa matéria-prima que enobrece Felgueiras, havendo conhecimento das potencialidades felgueirenses e de bons filhos de Felgueiras criados nestas terras também com mel, segundo a simbologia do brasão municipal, atendendo à velha existência do gado de vento que ficou registado num dos forais que honraram um dos antigos Alfozes de Felgueiras…

Contudo, como é infeliz máxima desta terra, nem sempre Felgueiras tem sabido honrar seus melhores nomes, naquela sequência costumeira de mãe... e boa madrasta, que teima em ser a maneira Felgueirista. Tradição que urge erradicar e alterar, sendo já tempo de afagar a memória dos felgueirenses ilustres, por exemplo, como deve ser à mão de boa memória.

Vem ao caso que passa este ano, neste ano já a caminhar para o fim, a conta de 150 anos do nascimento do famoso maestro felgueirense Aniceto Pinto Ferreira. Um senhor cujo nome tem passado através das sucessivas gerações como um dos bons felgueirenses de sempre. Sendo personagem que teve de ser saliente para, passado século e meio, ainda ser lembrado, por quanto é constantemente referenciado – agora e há muito que já nem há ninguém de seu tempo, obviamente, mas ele continua como constante recordação.

Pois em devido tempo lembramos aqui, neste espaço publicista, e com muita antecedência, esta efeméride merecedora de apreço felgueirense. Através de crónica coeva à então passagem de 147 anos sobre a mesma data, em ocasião que desfiamos uma descrição de seu percurso curricular. E, enfim, chegou-se entretanto ao ano da comemoração correspondente, há já alguns meses, tendo sido a 8 de Abril que, em 1864, nasceu em Margaride-Felgueiras esse Aniceto Pinto Ferreira que, na sua passagem na terra, foi o primeiro regente da Banda dos Bombeiros Voluntários de Felgueiras, juiz de paz, professor de música, relojoeiro, garagista, etc, e maestro das bandas que tiveram continuidade na atual Banda de Música de Felgueiras, cujos sons dos instrumentos podem ainda chamar atenção à memória de tão ilustre antepassado.

Felgueiras não teve mais Anicetos desses, tal qual só houve um Dr. Costa Guimarães e uns Magalhães Lemos, Agostinho Ribeiro, Fonseca Moreira, Leonardo Coimbra, Francisco Sarmento Pimentel, Padre Luís Rodrigues e outros assim, do precioso legado deixado através dos tempos. Homens de boa memória, de conhecida naturalidade, nascidos de boa semente felgariana. Honre-se pois tal dignidade, sendo tempo de Felgueiras saber exaltar como deve ser o que teve e tem de melhor, dando honra ao mérito, ao que é genuinamente felgueirense.

Armando Pinto

(((Clicar sobre as imagens e digitalizações, para ampliar)))


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Uma senhora cegonha... In memoriam de D. Maria Parteira (1920-2014) – em mais uma crónica no Semanário de Felgueiras


Há marcas do passado que nos estão sempre presentes. Como, entre algumas das vezes em que tal sucede, se nos deparou por estes dias, ao saber do desaparecimento duma pessoa que conhecemos desde criança, na Longra; e, com quem, mais tarde, até chegamos a partilhar o local de trabalho, no Centro de Saúde da Longra – ela sempre como enfermeira-parteira e aqui o autor já como funcionário administrativo, na secretaria do Posto Médico originário da Casa do Povo da Longra.


Sobre ela, a D. Maria, a propósito da notícia do seu falecimento, há uma semana, fizemos um artigo para publicação no jornal felgueirense em que colaboramos, de modo a dedicar-lhe uma mensagem de apreço e admiração, como sentimos, na verdade.

Então, desse artigo, publicado na edição desta sexta-feira, dia 14, colocamos aqui o extrato do mesmo, através de recorte digitalizado da publicação in Semanário de Felgueiras:

(CLICAR sobre o recorte, para ampliar)

Para possibilidade de melhor acesso à leitura, seguidamente colocamos o texto original:

Uma senhora cegonha... In memoriam de D. Maria Parteira (1920-2014)

Estava alinhavado já um artigo, dos que aqui vamos colocando a dar espaço evocativo sobre motivos da identidade local e memória coletiva, quando recebemos notícia do falecimento duma pessoa ainda lembrada do ambiente felgueirense de outras eras - uma senhora que em tempos idos ajudou a trazer ao mundo muitas vidas felgueirenses, enquanto os nascimentos eram em casa das jovens mães. Logo mentalmente voltamos atenções para fazer memória dessa antiga figura pública da sociedade de épocas remotas. Tal o que sempre recordamos da muito conhecida "D. Maria Parteira", como era normalmente reconhecida essa senhora enfermeira-parteira que, oriunda da parte norte da Beira Litoral, veio muito jovem para Felgueiras e por estas bandas se arreigou e fixou residência, durante muitos anos, até sua aposentação. Merecendo, por fim, como ficou, ser referenciada no livro da história da região, estando seu nome também, ao correr da narrativa historiadora, nas páginas do nosso "Memorial Histórico de Rande e Alfozes de Felgueiras".

Foi casada com o sr. Luís Lopes Martins Teixeira, que trabalhou, também durante muitos anos, na Ferfor da Serrinha; e teve quatro filhos: José Carlos, Maria Emília, Alexandre Luís e Delfim Manuel, legando apego telúrico a todos, como mulher especial na sua geração e uma pessoa fortemente marcante.


"A sua memória ficará nos nossos corações" - foi com este epitáfio que a família se despediu de sua Matriarca, natural de Souto, Vila da Feira, onde nasceu a 5 de Abril de 1920. Com efeito, D. Maria Martins de Andrade, como era o nome completo dessa senhora sempre estimada por todos que a conheceram, faleceu na passada sexta-feira, dia 7 deste Fevereiro tristonho, com quase 94 anos, na sua casa em Miramar, junto ao mar da costa territorial de Gaia, para onde se remetera em merecido descanso da labuta, depois que terminou sua carreira profissional. Havendo sido enfermeira-parteira com ação relevante em grande parte do território felgueirense, onde prestou assistência a beneficiárias de diversas áreas do concelho, quando era ainda novidade o mister de auxílio nos partos segundo normas clínicas. Chegada que foi a esta zona do interior nortenho em temporada ainda de cuidados prestados por senhoras habilidosas, de mezinhas caseiras e modos tradicionais. 

Demandara então Felgueiras nos alvores dos marcantes anos 60, vinculada à Casa do Povo da Longra, e entremeando serviço público também como professora regente na escola primária da Longra; e, mais tarde, ainda pertenceu aos quadros do Posto Médico da mesma Casa do Povo e sucessor Centro de Saúde da Longra, até aos anos 80, num longo percurso laboral e ligação local. Viveu sucessivamente em Cimalhas na Longra, depois na Casa de Minhoure em Varziela e posteriormente na sua casa da Sé, no Unhão. Tendo, de permeio, integrado algumas atividades extensivas, como foi o caso de ter andado no Grupo Cénico da Casa do Povo da Longra, representando papéis como atriz no palco de teatro da mesma instituição longrina. Tornando-se parte integrante do modus vivendi da mesma zona em que tão bem se soube inserir, apreciadora do bucolismo regional e particularidades dos sítios que se lhe passaram a ser familiares. Conforme ditava sua convivência, senhora que era de fina sensibilidade e vasta cultura, a pontos de saber apreciar nas famílias amigas e conhecidas, bem como nas casas das parturientes surgidas, quer qualquer particularidade, como por exemplo a reza diária do terço, assim como as preocupações com os ente queridos que em massa seguiam para a guerra no ultramar, mais doenças e outras maleitas da prole, tal qual usos e costumes que poderiam ter seu interesse, bem como se inteirava de tudo o que a rodeava no meio ambiente. Percorrendo toda a região no seu Citroen, um típico salta-pocinhas coevo ao tempo. Sem andar no mundo por ver os outros, mas vincando sua chancela, ao jeito de querer seguir e acompanhar tudo o que viu nascer e desenvolver-se. Acabando por representar, para as gerações que sempre a conheceram, como que uma idealização perdurável, qual, figurativamente, uma boa senhora cegonha, à imagem do que as crianças seguiam nos livros de historinhas infantis... levando no bico grandes sonhos e sensações de tempos imemoriais, dum mundo a perdurar ternamente nos arcanos da memória.

Armando Pinto

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Crónica de “SEASON” no SF…


Numa abordagem relacionada com a atualidade, escrevemos desta vez, em nossa regular colaboração no jornal Semanário de Felgueiras, um artigo de temática sazonal, quanto à estação festivaleira do ambiente local. Estando no texto o que realmente é, como se sabe, a pontos de já haver conhecimento de ter merecido leituras de análise – tal o facto de se ter até notado, entretanto, algumas feições de amuos por algumas verdades… 

Eis a referida crónica, na respetiva coluna da página 12 da edição impressa do SF de 19 de Julho:

(Clicar sobre o recorte digitalizado, para ampliar) 

… E de seguida, para devidos efeitos, aqui está o texto datilografado, também para leitura mais acessível:

Festivais Folclóricos 

Quando chega o tempo de sol radioso e ambiente alegre, das férias e de festas, o que acontece mais no Verão, por toda a região de Felgueiras e não só, a época quente é também aproveitada para realizações de festivais de folclore. 

Esses saraus, quais encontros de grupos de dança e cantares regionais, resultam num corolário festivo no auge da temporada, ao jeito de mostras do trabalho levado a cabo ao longo do ano por esses agrupamentos de reposição etnográfica, os Ranchos Folclóricos. Manifestações que, como acontecimentos relativamente recentes, servem porém mais de espetáculo e convívio, não tendo a pretensão de caracterizar em demasia antigas folganças, pois que surgiram apenas em meados do século XX, por volta dos anos cinquenta tenuemente e mais vincadamente na década de sessenta, sensivelmente. Sendo antes produto da evolução dos tempos, porque o próprio folclore revivalista também pouco tem a ver, quer se queira ou não, com o que antigamente acontecia. Sendo que a essência do que os Ranchos representam é uma recriação dos usos e costumes populares que chegaram pela transmissão provinda de tempos arquiavós, em épocas que o mundo das pessoas girava quase só em torno de sua visão local. Enquanto os próprios mancebos, que nunca haviam saído da própria terra, ao terem de ir para a tropa se lhes metia na cabeça todo um mundo desconhecido - a pontos, por exemplo, de nesses tempos, em que até havia um quartel não muito longe assim, em Penafiel, os rapazes se despediam a dizer: “Adeus Portugal, que vou pra Penafiel”… 

Ora, embora o folclore popularizado seja genericamente recuperação de características da música e danças populares de antanho, tem que se ter em conta que hoje em dia integra sobretudo o cariz de apresentação pública, através de números coreográficos, longe do espírito do passatempo simples de ajunto de pessoas de tempos passados, em que servia de folia, por meio de danças nas eiras, nas encruzilhadas ou largos comunitários e adros. Agora é em palco que acontece, e nem pode ser de outro modo para todos verem, tratando-se de espetáculo para assistências... 

De permeio há também natural sensibilidade, sabendo que tem de haver uma ligação realista, de caráter logístico. Para que haja memória e tudo seja contemplado. Não se entendendo que um Festival que já teve diversas edições com Ranchos estrangeiros, como agrupamentos espanhóis, por exemplo também, seja considerado depois, num ano mais presente, considerado 1º Internacional… A não ser que ainda haja por aí quem não saiba que Portugal vai para Norte só até à fronteira com a Galiza e depois é já solo estrangeiro, senão é como antes: Adeus Portugal, que vamos pra Penafiel… 

De qualquer forma, os elementos representados, na generalidade, refletem trabalho aplicado sobre a recuperação do estudo da cultura da alma do povo, numa prática etnológica aproximada de reprodução de antigos padrões tradicionais, das gentes dos aglomerados locais, afins à população comum, tendo subjacente quanto possível recolha dessa manifestação remota compartilhada pela gente de territórios definidos, nas suas ligações por laços pessoais de herança cultural. Querendo tudo isto, qual rapsódia, imprimir e exprimir preservação antropológica da rusticidade da terra, numa forma cultural mediática de expressão popular, englobando significado de povo e sua cultura como a própria palavra quer dizer - sendo o termo folclore o aportuguesamento dos vocábulos saxónicos folk (povo) e lore (tradição), aliás composição aproveitada já no século XIX pelo arqueólogo inglês Thoms, em substituição da expressão “antiguidades populares” usada anteriormente em monografias da especialidade. 

Graças ao trabalho de reconstituição empreendido pelos Ranchos, tem sobrevivido a memória coletiva das raízes etno-populares, em todo este vasto campo de características genuínas da personalidade, no sentido identificativo, de usos e costumes ancestrais dos nossos antepassados. 

Armando Pinto

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Artigo agregado ao 23º aniversário do Semanário de Felgueiras

 

Na época da chegada das andorinhas, qual andorinha trazendo a Primavera, começou a chegar às mãos e olhos dos Felgueirenses um jornal Semanário, faz agora vinte e três anos, a 1 de Junho – o Semanário de Felgueiras, jornal também conhecido simplesmente por Felgueiras ou Felgueiras Semanário. 

Associando-nos com uma simples lembrança, procuramos assinalar a data com uma articulada agregação de ideias transmitidas, em mais uma das nossas semanais crónicas, desta feita como homenagem ao simbolismo coletivo, ao Felgueirense Anónimo e Comum, na generalidade. Cujo texto se pode ver e ler, aqui também (porque desta vez a disposição paginada assim permite), tal como foi publicado na página 10 da edição impressa desta sexta-feira, 31 de Maio. 

Basta, para o efeito, clicar sobre a imagem do respetivo recorte digitalizado, para ampliar e ler.

   

 Armando Pinto