Ao correr do teclado da memória, mais um artigo escrito do autor destas linhas preencheu algum espaço do jornal Semanário de Felgueiras, publicado esta sexta-feira dia 26. Procurando narrar algo mais da história coletiva felgueirense. De cuja crónica para aqui tarnspomos imagem da respetiva coluna e extensivamente, a faciliar leitura, também o texto em modo datilografado (acrescido de algumas imagens para ilustração).
Mansões de “Brasileiros” em Felgueiras
Donde trinava o pássaro sabiá, ao som gemido da popular
música sertaneja, pelo sertão brasileiro e vizinhas paisagens baianas ou outras
distanciadas, mais o assobio do lendário passarinho uirapuru, regressaram à
pátria portuguesa, pelos idos de oitocentos e princípios de novecentos, muitos
dos chamados brasileiros de torna viagem. Que mais não eram que portugueses com
fortuna feita em sítios de ligação caipira e que, em vez de ficarem ao lado
duma bela cabocla por ali a crestar, entre belezas das cores de terras prenhes
de palmeiras e envoltas em mitologias índias, retornaram à terra de origem para
ficarem de bem com a própria vida, dando largas à constituição do futuro que os
fizera ir ao outro lado do mar. Tendo então construído vivendas à medida do
sonho consumado, onde podiam finalmente se estender à sombra de frondosa cerca
da mansão edificada no torrão pátrio.
Era e foi assim na volta dos portugueses abrasileirados pela
diáspora migratória oitocentista, cuja torna à terra amada constituiu impacto
na história local, à imagem do que sucedeu em diversas regiões do país. Sendo
homens que regressaram do Brasil com fortuna amealhada, na vinda conhecidos por
aquela denominação, e então já elevados em estatuto social. Porque os que foram
mas não tiveram êxito por lá ficaram, voltando quem podia fazer boa figura.
= Uma panorâmica da antiga vila de Felgueiras em começos do século XX. Com visão a partir do antigo Largo D. Luís (mais tarde Largo da Republica e atualmente Praceta Aniceto Ferreira), em tempo que ainda não existia o Grémio da Lavoura, nem aparecia o Campo da Feira existente depois (porque à época a feira se realizava no Largo da Corredoura, onde hoje é o jardim central, de frente ao edifício da Câmara atual). Vendo-se nessa era ainda diversas casas apalaçadas de brasileiros, entre o casario da época. =
Assim foi no surgimento de casas apalaçadas construídas por
portugueses enriquecidos pelo seu trabalho no filão brasileiro, ao tempo, num
fenómeno de reprodução por muitos sítios e em Felgueiras também. Tendo havido
dessas belas casas em todo o concelho, algumas das quais ainda se vêm
altaneiras por entre a paisagem felgueirense. Enquanto na própria sede
concelhia restam já poucos dos diversos exemplares de seu antigo toque
ambiental, na fisionomia arquitetónica urbana da vila de outrora e atual
cidade. Com destaque para a chamada Casa das Torres, mais a que na frente da
mesma foi edificada depois, além da mais antiga Casa Vila Baía. Detendo estas
as atenções, no caso, como mansões de arquitetura brasileira de antanho na urbe
citadina de Felgueiras.
= Capa e contra-capa do livro da história da Casa das Torres e seu arquiteto, popularmente na região tido por engenheiro - como foi usual tal denominação dos desenhadores de projetos das casas =
Dessas referidas, que mais se salientam, empertiga-se à
vista pública a Casa das Torres, da lavra projetista de Luís Gonçalves,
arquiteto de tal construção brasileira em estilo arte-nova, mandada edificar em
inícios da segunda década do século XX, pelo proprietário José Joaquim de
Oliveira da Fonseca, sendo contemporânea da chegada da rede elétrica à vila de
Felgueiras. Casa cujo passado já foi desenvolvido no livro “Luís Gonçalves:
Amanuense-Engenheiro da Casa das Torres”, escrito e publicado em 2014 pelo
autor destas linhas. Bem como existe a casa do mesmo estilo em frente, do outro
lado do cruzamento das ruas, essa construída depois por Henrique Oliveira da
Fonseca, irmão do dono das Torres e bairrista que em 1912 custeou o coreto da
música que, desde então, dá inspiração romântica na harmonia da cabeça do
concelho. Tal como mais abaixo, dentro do centro urbano, há a Casa Vila Baía,
mais antiga e com trajeto residencial interessante, num passado que albergou
algumas valências culturais de monta. Mandada construir em finais do século XIX
por Domingos Pereira Borges, capitalista endinheirado também por seu labor na
terra brasileira, em São Paulo, onde habitava quando não estava na sua casa de
Felgueiras, que à morte legou a seu amigo Agostinho Ribeiro. Havendo Domingos
Borges deixado à Santa Casa da Misericórdia de Felgueiras alguns bens, e a casa
ao seu amigo. Casa essa a que Agostinho Cândido de Sousa Ribeiro deu o nome de
Vila Baía, em homenagem à região brasileira onde ele mesmo prosperou sua vida,
também. E mansão que o próprio Agostinho Ribeiro depois passou em testamento
igualmente à Misericórdia felgueirense. Tendo entretanto ali funcionado a sede
do Sindicato Agrícola de Felgueiras, como posteriormente serviu para ensino
público do Ciclo Preparatório, tal qual mais tarde acolheu temporariamente
função de Biblioteca Municipal.
= Aspeto atual da Casa Vila Baía =
Sob olhar do tempo, tais casas permitem assim observar algo
da história e relacionam pecúlio de personagens felgueirenses memoráveis.
ARMANDO PINTO
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