sexta-feira, 23 de março de 2018

Centenário de Lucas Teixeira: célebre iluminurista honrado na Toponímia da cidade de Felgueiras


Lucas Teixeira – Iluminado Artista e Poeta

Chegada a Primavera em Portugal, com o equinócio respetivo a incidir na parte do globo em que está Portugal perante o sistema solar, neste tempo do calendário perfaz cem anos que, em 1918, nasceu no concelho de Felgueiras, no Norte de Portugal, o cidadão Armando Teixeira, mais tarde celebrizado como Frei Lucas Teixeira e por fim admirado como artista iluminurista e poeta radicado no Brasil.

Sobre o mesmo, esse senhor das artes e pessoa de carácter, foi pelo autor destas linhas publicado nos inícios já deste século XXI algo sobre ele, através de alguns artigos evocativos no jornal Semanário de Felgueiras; enquanto estava destinado um trabalho biográfico para incluir num livro que esteve em vista, mas por falta de apoios, para a necessária viabilidade publicista, tem estado guardado à espera de melhor sorte. Do qual, enquanto isso, por agora se completar a soma do seu centenário de nascimento, para aqui se transpõe o texto alusivo e algumas imagens, em sua homenagem.

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Armando (Lucas) Teixeira
(23 / 3 / 1918 - 28 / 4 / 2013)

Numa espécie de pesquisa de preservação divulgativa, a escabichar sobre temas que jazem algo esquecidos ou mesmo desconhecidos da generalidade conterrânea, qual roteiro por factos e personagens dignos de nota do interesse Felgueirense, damos ensejo a um nome que bem merece admiração por seu valor, pelo prestígio alcançado aquém e além fronteiras, como pelos seus dotes artísticos e engenho de conseguir transmitir sentimentos, em suma por quanto honrou e glorifica a terra Felgariana – o antigo monge beneditino, depois unicamente cidadão e sempre artista e poeta, Lucas Teixeira.

Natural de Varziela, onde viu a luz do dia a 23 de Março de 1918, recebeu o nome de Armando no batismo. Tendo ficado apenas com um sobrenome, atendendo à coincidência de ambos os progenitores serem do mesmo único apelido, sendo filho de Américo Teixeira e de Margarida Teixeira, casal honrado que soube legar bons princípios ao filho.

Muito pequeno ficou sozinho com a mãe e uma irmã também pequena, pois seu pai rumou ao Brasil quando o filho ainda tinha apenas 3 anos. O pai era então “chofer” do antigo senhor da Casa do Sindicato, de Varziela (agora conhecida por Bom Repouso), o qual levou consigo o empregado, como seu motorista, para o Rio de Janeiro. Nos primeiros anos ele ainda escrevia regularmente à mãe de seus filhos, enviando-lhe um dinheirito para o sustento dela e do casal de filhinhos que muito amava. Mas, como diz o ditado “longe da vista…”, acabou por se deixar seduzir por uma criada do patrão, a qual, julgando-o viúvo, se casou com ele e lhe deu uma outra filha… perdendo-se os laços físicos e familiares com a prole em Portugal. Enquanto a legítima esposa, mãe de Armando, se desdobrava em canseiras, dando horas em casas ricas de Rande (onde antes fora criada de servir, em solteira), como também fazia em sua casa lavores domésticos e ainda vendia ovos caseiros de galinhas que criava, fazendo pela vida para manter os filhos…

Assim, Armando Teixeira, de sangue Felgueirense fecundo, oriundo de uma família de parentela numerosa (visto uma sua avó, nascida na Pedreira, ter sido mãe de 18 filhos), teve apenas de pai e mãe uma sua irmã, Elvira, que faleceu na flor da idade, aos 20 anos, ficando sepultada no cemitério de Pedra Maria (a Virinha, a quem o irmão depõe uma açucena em verso, aquela flor de pureza, “cecém” colocada num soneto que merece honras, de apoteose, mais adiante desta junção apreciativa).

Para melhoria de vida e poder estudar, como era costume no tempo, Armando Teixeira entrou num seminário conventual, onde acabou por se adaptar e seduzir pela vida religiosa. Professou na Ordem Beneditina em Singeverga, tendo ingressado em 1929 nesse convento, onde depois concluiu o curso de Humanidades e mais tarde, em 1934, ao receber o hábito preto de S. Bento adotou o nome Lucas, tal como em 1937 fez votos solenes e em 1941 foi ordenado presbítero, ficando então a chamar-se Frei D. Lucas Teixeira.

Dedicou-se ao estudo e execução de iluminuras, tendo sido bolseiro em 1946 pelo Instituto da Cultura. De suas mãos saíram excelentes trabalhos da arte iluminista para arquivos, museus e bibliotecas, merecendo realce uma ilustração em livro de Polifonia realizada para oferta ao Marquês de Rio Maior, bem como um outro trabalho que, servindo de prova do aproveitamento da referida bolsa de estudo, ofereceu ao antigo diretor do museu de Arte Antiga, Dr. João Couto. Segundo o que ficou registado, nas enciclopédias mais completas, executou diversas obras nesse «difícil género», algumas das quais enriqueceram o arquivo do mosteiro de Singeverga.

Das suas exposições de iluminuras, constam catálogos na Biblioteca Nacional, de Lisboa, referentes a exposições no Porto, em Lisboa e São Paulo-Brasil, de 1950 a 1952 e 1954.

= No tempo de clausura, o artista, então D. Lucas Teixeira, concentrado no seu apaixonado mister, com a cógula de monge bento.

Ilustrativo da sua obra, foi publicado em 1952 um estudo intitulado “A arte da iluminura / Dom Lucas Teixeira”, inserto como separata no Boletim Cultural de Santo Tirso. Como em 1954, no Porto, teve luz outro estudo, intitulado ”Iluminuras de Dom Lucas Teixeira”, com apreciações sobre exposições antes realizadas em 1949 em Lisboa, em Santo Tirso no ano de 1951, em Braga em 1952, no Porto em 1952 também, e servindo de catálogo a Exposição em São Paulo-Brasil, nesse ano de 1954.


Referente à primeira Exposição de 1949, no Palácio Foz em Lisboa, difundiu o jornal Diário de Lisboa: «Em pleno século XX, cheio de descrença artística, confuso de ideais estéticos, num verdadeiro milagre de inspiração, surge em Portugal, um grande iluminador. Tudo à sua volta se congregou para que o seu trabalho de excelsa beleza, ungido da graça religiosa, suave na sua policromia vitralesca, delicado de infinitos e quase microscópicos lavores, florescesse numa plenitude admirável de dons e de virtudes graciosas e puras. Quem é este artista, fora do seu século, que vem renovar a tradição dos nossos pergaminhos, numa pintura delicada e fina, em que o céu fala com a terra, através de uma alma em êxtase?...»

Como que em resposta, em “Vita Plena”-1950-1951/ ”À volta dos Iluministas portugueses”, apareceu escrito: «O amor pelo desenho vem-lhe da infância. Depois, (como escreveu Hipólito Raposo), rezando, começara a pintar, e, pintando continuaria a rezar... Até que, em 1949, é à força que se mostra numa Exposição do Palácio Foz. S.ª Eminência, o sr. Cardeal Patriarca digna-se inaugurá-la. E a cidade de Lisboa acotovelou-se ali durante semanas na ânsia de admirar aquela maravilha. Até o rei de Itália por lá passa e não se desonra de pedir o autógrafo ao monge simples. A imprensa entusiasma-se. Os melhores críticos de arte, os mais exigentes, todos concordam num brado de surpresa... Muito e muito diríamos agora dos triunfos de D. Lucas Teixeira; preferimos, porém, resumi-los, citando um jornal inglês que o considera dos melhores iluministas do nosso tempo... É de ver a perfeição arrojada com que borda as tarjas. Sobre um colorido forte e gostoso, eis que voam os passarinhos e os insetos, caminham os caracóis, as florzitas estão assim ali vindas do canteiro, as joaninhas e as lagartas são coisa viva, e os frutos apetecem. E tudo num tom de côr tão equilibrada, tão de molde, tão escolhida! A circundar, em fios de luz e a salpicar os vazios, deslumbra o ouro brunido de cuja aplicação D. Lucas tem o segredo...» E o Jornal de Notícias, aquando da Exposição de 1952 no Museu Soares dos Reis, referiu: «...Nunca é demasiada a referência laudatória às possibilidades criadoras mais que sobejamente demonstradas... D. Lucas Teixeira, monge beneditino e mestre de iluminuras rejuvenescendo com a sua arte rara, um género de decoração e pintura que tudo fazia crer não mais se levantasse do pó dos arquivos, bem merece, pelo devotado culto ao seu ofício de artista, pelo enriquecimento com que vem dotando o património nacional, toda a sincera admiração dos que sabem colocar bem alto os maiores valores do Espírito.»

De sua vasta obra, enquanto Religioso Beneditino, tiveram relevância trabalhos com que iluminou documentos, tais como a Mensagem das Mulheres Portuguesas ao Santo Padre; Mensagem do Distrito do Porto a Carmona e Salazar; a Regra de S. Bento; Mensagem da Câmara de Sintra a Sª Exª o Presidente da República Portuguesa (1954-Craveiro Lopes); o Diploma de Batismo pertencente à igreja de Fátima de Lisboa; a Mensagem do Congresso Internacional dos Médicos Católicos, reunido em Dublin no ano de 1954, ao Santo Padre Pio XII; assim como o texto da consagração de Portugal a N.ª Sª de Vila Viçosa foi iluminado por si para a Casa de Bragança. Entre outras obras suas, depositadas em mãos de personalidades nacionais, Salazar teve o “Painel dos Pescadores, do Políptico Veneração de S. Vicente, de Nuno Gonçalves”, pergaminho iluminado de 1948, incluindo um soneto do mesmo autor do desenho, Frei Lucas Teixeira. E ainda os seus “Auto da Cidadania” e “Senhor dos Passos”, também de 1948, ficaram pertences do Cardeal Cerejeira.


Entretanto, participou em muitas mais exposições, entre as quais a (referida no catálogo antes registado) do IV Centenário da Cidade de São Paulo, no Brasil, que teve repercussão no seu futuro.

Foi monge sensivelmente até entre os 37 aos 38 anos de idade. Após isso, depois de percurso passado por Singeverga-Santo Tirso, pelo Porto, Coimbra e Lisboa, entre outros pontos de passagem e residência conventual, havendo verificado que sua vocação não estava no encerramento monástico, regressou à condição de cidadão normal. Enveredou então definitivamente pela carreira da arte de iluminuras, em que passou a assinar os seus trabalhos por Lucas Teixeira, nome que mais tarde encerrou também composições poéticas de encher a alma.

Para se afirmar, contudo, precisou rumar ao Brasil, e aí, «recebeu tantas encomendas e convites para dar aulas que acabou ficando».

Por isso, diversos artistas brasileiros se orgulham e vangloriaram de nomearem o facto de terem tido o «português Lucas Teixeira» por professor de iluminuras, como acontece em constar honrosamente, por exemplo, no currículo de Maria Amélia Arruda Botelho, natural de São Paulo e figura cultural do Brasil inteiro, saliente pintora, escultora, memorialista, pesquisadora folclorista e ficcionista.

Entretanto, ficara fixado Armando Teixeira na grande nação irmã a partir de 1954, onde estabilizou sua vida, «bem casado com uma portuguesa transmontana», com a qual constituiu prole bem sucedida, pai de dois filhos brasileiros, que lhe deram quatro netos «e a alegria de os ver bem situados na vida» e onde foi sendo «feliz, muitíssimo feliz».

= Instantâneo visual de seu paciente e minucioso labor iluminarista

Antes, quando chegou ao Brasil, apressara-se Armando a procurar o pai no Rio de Janeiro, sabendo então que ele tinha falecido e o que de permeio acontecera… Como também, soube que ele, já no leito da morte, deu à filha do seu pecado, para ser entregue ao filho, caso ela um dia viesse a encontrar no Brasil seu irmão de Portugal, o relógio que sempre o acompanhara desde a pátria… e inspirou ao filho, depois, um lindo poema da lavra de Lucas Teixeira:

Relógio que se usava no passado,
No bolso do colete masculino.
Agora, está comigo, pendurado
Num preguinho, sem corda, sem destino.

Um “Omega” de lei. Bem regulado,
Só não batia as horas como o sino
Da igreja onde eu fora batizado,
Porém no acerto delas era fino.

Agora está parado. Eu vou indo,
Vendo as horas do tempo feio ou lindo
Passar na minha vida que se esvai.

Ainda que pareça, não é de ouro,
Mas no meu coração vale um tesouro,
Por ter sido o relógio do meu Pai.

Conseguiu, depois, ter também junto de si a sua mãe, que puxou ao seu encontro à terra acolhedora, onde ela veio a falecer mais tarde e ele lhe dedicou um lindo livro de poemas ilustrados.


Sem jamais se reencontrarem os progenitores, falecidos e sepultados no Brasil, tendo o pai ficado tumulado no Rio de Janeiro e sua mãe em São Paulo («onde espero juntar os meus restos mortais aos de minha Mãe», como transmitiu numa missiva ao autor destas notas).

Residiu Armando Teixeira primeiro na grande cidade cosmopolita de São Paulo e depois na mais calma e acolhedora cidade de Piracicaba, do mesmo Estado de São Paulo, em situação estável e boa posição social. Havendo-se dedicado a traduzir do Latim importantes autores clássicos, enquanto continuou a produzir «suas belíssimas iluminuras» que, inclusive, muitas vezes foram expostas em salas Paulistas. Tendo, entre muitas distinções, uma sua iluminura, com aquele soneto de Camões do «Amor é fogo que arde sem se ver...», exposta no 45º Salão Paulista de Belas Artes, obtido medalha de ouro.


De uma das suas Exposições, no caso realizada em Piracicaba, na Casa do Médico, à Avenida Centenário, o Caderno Cultural do Jornal de Piracicaba de 18 de Junho de 1999 referiu-se-lhe como «Um pouco da arte milenar que ajudou a preservar manuscritos e ensinamentos antigos, pode ser vista... (em) exposição, que reúne 20 trabalhos, de iluminuras de Lucas Teixeira. Iluminuras são ilustrações de um texto ou poema feitas em pergaminho, com letras góticas ou desenhadas, em cores e ouro, arte que remonta os tempos anteriores à imprensa, quando os livros precisavam ser feitos à mão... Arte minuciosa, que exige paciência beneditina e até meses para concluir um único trabalho. Entre as muitas obras feitas por encomenda figuram iluminuras para o ex-presidente Juscelino Kubitscheck e para presentear o Papa João Paulo II em sua primeira visita ao Brasil.»

= In “Jornal de Piracicaba” de 18 - 6 – 1999

Entre as experiências que pôde experimentar no Brasil, conta-se um saudoso encontro com o seu amigo e historiador Matoso, em reencontro acontecido com aquele antigo confrade, o distinto historiador nacional José Mattoso. Esse professor catedrático, fora anteriormente também monge beneditino, na abadia de Singeverga, tendo depois regressado à vida laica, após que passou a desenvolver ações académicas e, além de aturado e valioso trabalho no âmbito das ciências históricas, também ficou a exercer funções na direção do Instituto dos Arquivos Nacionais, em Lisboa. Conforme recordou o sr. Armando Teixeira: «Eu conheci o José Matoso em Singeverga. Já então deixava antever o futuro brilhante que o esperava. Quando ele veio a São Paulo, em missão cultural, tivemos a oportunidade de nos ver e abraçar».

Entretanto, sob temperatura escaldante do país do samba, Armando (Lucas) Teixeira obteve alta saliência nas artes e nas letras, sobressaindo também como poeta nas horas livres de tradutor e da arte iluminurista. Esse nome, Lucas Teixeira, tirando o título de sua profissão religiosa, de que abdicara, acabou por ficar como nome artístico deste Português de Felgueiras, proeminente quer como autor de iluminuras ou como poeta, capaz de ilustrar obras literárias através de «milagres de pergaminho, ouro e tintas da sua arte paciente e piedosa» quais «verdadeiros poemas as suas iluminuras» eram; tal qual em dom poético foram considerados «verdadeiras iluminuras os seus poemas»! De sua lavra saíram lindos versos enfeixados em livros, cujas capas foram ilustradas por si na veia do artista de mãos e pensamento que foi Lucas Teixeira, tendo escrito em verso obras intituladas “Na Mão de Deus”, cuja publicação ocorreu no Brasil em 1958 («onde deixo transparecer o sofrimento moral durante a minha vida de monge, para a qual não tinha vocação», como confessou em missiva pessoal ao autor destas anotações, num contacto de 2006, já em veneranda caminhada com 88 anos...), como também “O Teu Retrato, Mãe”, edição de 1960 (contendo igualmente ilustração própria das páginas), “Portugal Que Não Se Esquece”, com duas edições em 1965, e “Portugal Pecado e Graça”, saído em São Paulo no ano de 1984.


Com genuíno cunho artístico, de complemento do que tanto fez na ilustração como em verso, nos seus livros foi cantando e ilustrando o que lhe ia na alma, em soneto «desenhando o todo e vero Portugal: a preclara língua, a vindima, a procissão, os santos, as cidades, os monumentos...». Ao mesmo tempo em que deixava laivos de saudade quando relembrava, sob mote dos rios de sua afinidade telúrica,
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«O outeiro do meu sol tinha na falda
O Sousa com peixinhos franciscanos.
O Vizela aspergiu-me os negros panos
Da cogula de monge... e, curva a espalda...».

Tanto quanto o próprio torrão natal, como que sempre presente:

«Ouço o tocar dos sinos na capela,
Onde, a sorrir, na festa tão singela,
Eu fazia a Primeira Comunhão.
– Pedra Maria, meu jardim de infância,
Envolta nas neblinas da distância,
Tu me inundas de Sonho o coração!».

Enquanto ia remetendo missivas como

«Ó minhas cartas, asas de alma, ide
Levar minhas saudades céus além.
Fique a primeira ao pé de Margaride,
Em Varziela, minha terra. Amém.»

Este insigne Felgueirense, constante das melhores enciclopédias e da base nacional de dados bibliográficos, está honrado na toponímia da sede concelhia, havendo na cidade de Felgueiras, desde 1993, muito depois de ele ter abandonado a vida religiosa, portanto, uma artéria denominada Rua Frei Lucas Teixeira – facto que ele desconhecia ao tempo da sua última visita presencial à “terrinha”, que teve oportunidade de satisfazer em 1995.

(Foi o autor destas linhas que lhe deu conhecimento do facto, em contacto obtido, muito depois. Tendo, através de conhecimento surgido de crónica que se lhe dedicou em 2002, no Semanário de Felgueiras, havido possibilidade de enriquecer mais a admiração por tão fascinante personagem.)

*
Passados anos, pujante de encanto artístico e sentimento português, já passada conta de mais que dois carros (na linguagem antiga das terras de Felgueiras, no termo popular, quanto à idade), em princípios de 2007 o sr. Armando (Lucas) Teixeira ofertou ao autor uma composição em pergaminho, cujos versos falam por si. Algo que, apesar do desenho não ter ficado iluminado a ouro e cores, como se entende por já estar então na casa dos 89 anos (mas, para ele, apenas, «porque a minha vista não está em condições de o fazer, devido a uma recente operação de catarata»), é coisa que só vista e sentida... Afinal, de que melhor que quaisquer palavras, fala a reprodução que se junta. E de cuja caligrafia gótica se respiga o lindo e tocante conteúdo:

«Ao meu ilustre patrício
Armando Pinto ofereço
amostras do belo ofício
que Deus me deu. Agradeço
as referências honrosas
a este iluminurista,
como pétalas de rosas
no meu caminho de artista.
Há uma rua com meu nome,
na cidade de Felgueiras?!
Essa honra não me tome
as alturas verdadeiras
da monacal humildade
com que faço iluminuras,
por vocação e vontade,
com flores, ouro e figuras.
Entre centenas que fiz,
no mosteiro, como frei,
uma me fez infeliz,
por isso, triste, a rasguei...
Livre dos votos de monge,
– obediência, pobreza
e castidade – fui longe
com Deus por minha defesa.
Do Brasil, onde estou bem,
saudoso, irei à «Terrinha»
colocar uma cecém
sobre a campa da Virinha.
Na de minha Mãe que veio
p’ra São Paulo, no meu trilho,
margaridas são o enleio
do meu coração de filho.
Oh! que lembranças saudosas
da Longra, de Varziela,
da Lixa, Unhão e Barrosas,
numa paisagem tão bela!
A pombinha da saudade,
quando a solto, vai e pousa
num choupo da minha idade,
na margem do rio Sousa.
Casas fidalgas de Rande
e da Torre! Delas são
as senhoras de alma grande,
que me davam mel e pão.
Minha Mãe, quando solteira,
teve-as por suas patroas,
caridosas, de mão cheia
para os pobres. Almas boas!
Na cidade de Felgueiras,
onde fica a tal artéria
com meu nome? Nas ladeiras
do monte de Santa Quitéria?
Faz setenta e poucos anos
que lá soltei um balão
que dois meninos ciganos
trocaram por meu pião.
Terras da minha saudade,
será que vos torno a ver?
Com tão avançada idade,
só me resta bem morrer.
Enquanto for vivo, espero
continuar, como artista,
distante da nota “zero”.
Deus fez-me iluminurista.»

Lucas Teixeira
                               Piracicaba SP – Brasil
                               Janeiro de 2007

= Postais dentre a correspondência trocada ao longo dos seus últimos anos, além do que ia sendo transmitido em cartas. Servindo de ilustração algumas iluminuras de sua autoria nos rostos dos postais (editados pelas Edições ORA & LABORA, do Mosteiro de S. Bento de Singeverga, Portugal). Repare-se na referência feita a ter oferecido os seus livros de poemas à Biblioteca Municipal de Felgueiras.

= Algumas imagens das suas obras, cujas gravuras ainda fazem parte de postais natalícios vendidos no mosteiro de Singeverga =

Na felicidade do contacto possível, com grande honra o autor teve dedicatória ainda de dois sonetos, em género de missivas poéticas (ambas datadas de Piracicaba SP Brasil – Fevereiro de 2007):

               Felgueiras
I
Vila, no meu bom tempo de criança,
És agora cidade. Eu te saúdo.
Em mim e em ti, Felgueiras, que mudança!
Nos anos do vintém e do escudo,

Em tua vida simples, quieta e mansa,
Havia procissões e, pelo Entrudo,
Música no coreto e muita dança;
No Natal, rabanadas, “porto”, tudo.

No Brasil, saboreio a doce história
Do pão de ló de Margaride, glória
Dos velhos tempos e sabor dos novos.

Sendo eu menino, à Casa que o fazia,
A minha Mãe, p’ra termos pão, vendia
O que juntava das galinhas: - ovos!

II
A Vila progrediu em cada artéria,
No comércio das ruas e das feiras.
Não entrou nela a bruxa da miséria
Escorraçada pelas bordadeiras.

A paz do Monte de Santa Quitéria
Alto pendão do povo de Felgueiras,
Conduz a sua gente, gente séria,
Ao cume das alturas verdadeiras.

Hoje é Cidade. Para ser mais bela,
Juntou-se, num abraço, a Varziela
Onde eu nasci, saudável, sem parteira.

Uma das ruas, (não sei qual)
Por eu ser de Felgueiras – Portugal,
Tem o meu nome que é: Lucas Teixeira.


Depois disso, Felgueiras continuou, ainda, a honrar este eminente Felgueirense, como aconteceu com o nome dado a um estabelecimento de educação infantil, ao que sucedeu com a criação, em 2007, na cidade de Felgueiras, dum “jardim infantil” (pré-escolar) que, por ficar situado na rua com seu nome, ficou denominado “Jardim de Infância Frei Lucas”, de Margaride, onde funciona também o Centro Escolar da zona estudantil da cidade, ao lado da Escola Preparatória Manuel de Faria e Sousa (e aí também rua com o mesmo nome, do patrono desse estabeleciemnto do antigo Ciclo Preparatório, como ainda é conhecido).


Armando “Lucas Teixeira” faleceu no dia 28 de Abril de 2013, pelas 22 e 30 horas da noite, aos 95 anos… «sem sofrimento, levado pelos anos» – como nos referiu sua filha, depois. Já com uma bonita idade e vida preenchida, diremos nós. Deixemos então seguir a descrição da mesma, sua filha (Drª Maria Margarida), pela minúcia e ternura que demonstra e se revela interessante:

«…Minha mãe, meu irmão Augusto e eu estivemos ao lado dele durante todo o seu último sono. Nos últimos tempos era assim que passava, dormindo. Meu pai deve ter tido um pequeno derrame que lhe tirou o movimento de andar e o deixou desgostoso com a vida, mas estava lúcido.

Logo pela manhã desse domingo de abril se passou algo muito curioso, principalmente pela adoração que meu pai tinha pelos pássaros e os animais pela casa dele. Sempre apareciam, de uma forma ou de outra. No lado de fora da porta de entrada há pregado um São Francisco em madeira com os braços abertos a recebê-los, se assim posso dizer.

O enfermeiro após ter feito os cuidados da manhã trouxe meu pai para a sala da casa e o colocou na cadeira em que sempre ficava desde que não pode mais andar. A porta da rua estava aberta e por ela entrou um passarinho que sobrevoou sua cabeça, pousou ao lado dele e logo em seguida foi pousar em uma das iluminuras feitas por meu querido pai e que estava pendurada na parede do lado oposto da janela da sala. O enfermeiro preocupado com o passarinho foi abrir a janela para ele sair e, então, a ave saiu pela mesma porta por onde entrou. Quando minha mãe chegou e soube do acontecido ficou certa que devia chamar os filhos para a despedida.

Não sou historiadora como o amigo, mas penso que valorizar a história é reconhecer a nossa própria existência. Dessa forma, meus sinceros agradecimentos pelo reconhecimento ao meu pai. Parafraseando o autor israelense Amós Oz onde em um trecho de seu livro diz: “a gente vive até o dia em que morre a última pessoa que se lembra de nós".»

Que melhor final, que aquela narrativa e, por fim, esta citação sintomática?! Pela nossa parte fazemos o possível e nisto, aqui também, fizemos o que a inspiração investigadora nos proclama.

Obs (conf, Internet).: «Nota de falecimento em abril de 2013, no Obituário, d’ A Província, de Piracicaba - ARMANDO TEIXEIRA, faleceu anteontem  (dia 28) na cidade de Piracicaba aos 95 anos de idade e era casado com a Sra. Maria Amélia Teixeira. Filho do Sr. Américo Teixeira e da Sra. Margarida Teixeira, ambos falecidos. Deixa os filhos: Augusto Teixeira casado com Nilza Akemi Tsutiya e Maria Margarida Teixeira Moreira Lima casada com Jofelo Moreira Lima. Deixa ainda netos. O seu corpo foi transladado em auto fúnebre para a cidade de São Paulo e o seu sepultamento deu-se ontem as 15:00 hs no Cemitério Gethsemani naquela localidade, onde foi inumado em jazigo da família.»


ARMANDO PINTO
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Doce e leve tradição... em mais um artigo no Semanário de Felgueiras


Artigo publicado no jornal "Semanário de Felgueiras"  no final da semana de entrada da Primavera, tempo que há pouco mais de dois séculos testemunhou a passagem das Invasões Francesas por terras felgueirenses, entremeando parcelas do interior do Douro Litoral; e na atualidade do anual certame felgueirense do pão de ló, cujas atenções centradas no festival gastronómico abancado nos espaços do mosteiro de Pombeiro levam ao país e mesmo a algum mundo mais o nome de Felgueiras, por entre motivos remetentes à importância das tradições....  Cujo texto inserto, desta vez, no SF de 23 de março, se reproduz para aqui:



Força da tradição

Ouvia-se antigamente contar histórias em família, à roda da lareira, ou à mesa da ceia, com encantamento transbordante do que se ia sabendo, enquanto corpo e entendimento aqueciam nos contos que embalavam a memória. Galgando assim, como fumo saído do borralho ou de malga fumegante, um tremelicar de sensações, como a luz da candeia de companhia ao convívio familiar, nesses tempos em que chegavam narrativas andadas ao longo de gerações. Quão boa parte da literatura historiadora de eras remotas seguiu a transmissão popular e mesmo livros sagrados transmitiram algo que vinha da oralidade. Tanto que já S. João Crisóstomo dizia que "onde houver tradição não se busque outras provas". 

É pois de contar a lembrança provinda de outros tempos, antes que lendas e narrativas de valores maiores possam ir para o maneta, como se diz na gíria. Sabendo-se que isso de mandar para o maneta tem a ver com réstia popular do tempo das Invasões Francesas, quando na primeira, das três incursões gaulesas em território português, um general sem uma mão, conhecido prosaicamente por maneta, era temido pela crueldade com que dava fim a tudo. Vindo até a propósito, para que não desapareçam, algumas das lendas provindas dessa sucessão de pilhagens francas, entre ocorrências memorandas passadas na região felgueirense e guardadas popularmente nos arcanos de memórias antepassadas.

Ora, na segunda das invasões dessa Guerra Peninsular, a caminhada das tropas francesas incidiu por terras do norte do país, nos idos de 1809. Então, os invasores avançaram até ao Douro Litoral e, a ferro e fogo, levaram tudo a eito por onde passaram, destruindo e pilhando, fazendo mal sem olhar a nada nem a quem. Tendo Felgueiras ficado a arder também, ao ter sido ateado fogo ao Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro, conforme melhor se sabe por narração romanceada de Camilo Castelo Branco. Havendo ainda sido salvo um livro do Município porque foi enterrado, tendo assim ficado salvaguardados alguns informes de outros tempos (através de posterior cópia extraída do original, em 1815, por despacho oficial, devido aos estragos resultantes no que esteve soterrado). Tratando-se de um volume de autos (escrituras), intitulado Tombo dos Bens e Distrito do Concelho de Felgueiras, de 1770. Tal como, segundo se conta, em Airães foram enterrados os sinos da igreja, para os esconder de roubo pelos malfeitores (derivando disso certa lenda de posterior disputa com uma freguesia vizinha, no desenterramento, por ser em zona de partilha fronteiriça).


(Pranchas/excertos do livro de banda desenhada "A Jóia no Vale", com textos e desenhos de José Ruy, editado pela Câmara Municipal de Felgueiras através das Edições Asa, em 1995)

Não admira, por isso, que o povo quando podia não se deixava ficar quedo, e dessas escaramuças também surtiram retaliações. Acabando por ficar em terra alguns despojos, como corpos de soldados mortos. Conforme de modo useiro se conta, numas das tais transmissões populares, que em Várzea, no bosque do Barrôco, em plena quinta de Maderne, ficou enterrado um soldado do exército napoleónico, morto pelos aldeões locais numa perseguição movida aquando da debandada resultante dos acontecimentos do Porto, após a desfeita do atravessamento do rio Douro e tragédia da ponte das barcas, seguindo-se confusa retirada, entremeada à perseguição popular acirrada na defesa da ponte de Amarante e deambulações bélicas pela região, praticadas noutra pugna travada na zona da Lixa. Levando que fossem intercetados pelo povo alguns soldados dispersos, que por certo acabaram sem peças do fardamento e mesmo calçado de defunto, certamente por não precisarem já de nada disso onde ficaram.

Perante isto, preservados factos em lendas tradicionais, reforçada fica a ideia da força da tradição. Como Felgueiras mantém vigor na doce tradição do pão de ló e cavacas de Margaride, mais pujança na exportação de produtos, sendo agora o vinho e o calçado felgueirense a conquistar outras nações.

ARMANDO PINTO


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Assim, pousadas atenções regionais e nacionais nos temas abordados, por entre  tradições do tempo e memórias da afinidade coletiva, teve vez mais uma descrição relacionada na crónica habitual do autor, no espaço de opinião do Semanário de Felgueiras. Desta feita sobre a importância da tradição transmitida, difundida através do que se ouviu ao longo dos tempos, como meio transmissor de testemunhos interessantes do passado.


Entretanto, porque o conteúdo de artigos jornalísticos normalmente se cinge a espaço de crónicas de jornal, convirá acrescentar algo mais, aqui e agora, como explanação, desde o famigerado oficial do exército francês apelidado de Maneta, até alongamento sobre algumas das lendas que perduram na memória popular.

Pois esse tal Maneta, de nome Louis Henri Loison, general francês, tendo participado na primeira invasão francesa sob o comando de Junot, foi então autor de numerosas pilhagens e de inúmeros atos violentos, que lhe valeram a fama de homem cruel. Tendo sido referido como "o Maneta", por causa de um acidente de caça que lhe custou um braço, ficando assim conhecido, conforme deixou marca e memória em Portugal devido à sua brutalidade especialmente na primeira invasão, embora depois haja também participado nas outras duas expedições da mesma campanha da Guerra Peninsular. O medo que a sua figura transmitia, tal era a crueldade e a forma como torturava e executava os inimigos, especialmente os guerrilheiros portugueses, levou à criação da expressão “ir pró maneta”, que se mantém ainda.

A região de Felgueiras ficou então, também, como ponto de passagem da retirada das tropas francesas, após sua expulsão da cidade do Porto. A invasão napoleónica, que sob o comando do marechal Soult fizera o Porto teatro das suas investidas bélicas, teve epílogo na cidade invicta com o exército francês a ser desalojado pelo povo portuense, em ajuda aos soldados lusos comandados pelo general inglês Wellesley, depois da tragedia da ponte. Ocorrência nacional por fim cantada em poemas e narrada em odes após a invasão francesa de 1809.

No que toca mais propriamente à região felgueirense, aportando episódios relacionados à história de lugares e gentes locais, merece registo memorial o sucedido ato de defesa do povo de S. Jorge de Várzea, reportando à ocorrência referida da mata do Barrôco, numa das zonas que hoje integram a Quinta de Maderne, uma propriedade de tradição como até ficou referida no livrinho “S. Jorge de Várzea: História e Devoção” (escrito pelo autor deste blogue, também, e publicado em 2006, em edição da Paróquia de Várzea). Tal qual o facto da feliz salvaguarda do livro de escrituras dos antigos limites territoriais do concelho de Felgueiras,  em sua anterior delimitação, quando ainda existiam outros concelhos depois com terras integradas no Termo de Felgueiras, como os de Unhão e de Riba Tâmega, segundo narra o publicista já falecido sr. Manuel Bragança no livro “Entre Felgueiras e Amarante… um incidente de delimitação” (ed. 1946). Bem como de tais sucessos é de registar, por fim, a lenda do caso aludido no artigo sobre o esconderijo e posterior desenterramento dos sinos de Airães – conforme bem conta o presidente da correspondente Junta de Freguesia, autarca que serve de exemplo no concelho, o amigo Vítor Vasconcelos:


«Diz a lenda que os sinos da igreja de Santa Maria de Airães teriam sido enterrados em terrenos limítrofes com a freguesia vizinha da Pedreira.
Estes factos devem ser contextualizados durante a 2ª Invasão Francesa, em 1809, que espalharam o terror pela região, com pilhagens, violações e mortes!
Perante a ameaça e pânico dos franceses, supostamente a população de Airães teria escondido e enterrado os seus valores mais preciosos, evitando a sua pilhagem e destruição, em especial a Imagem da Padroeira, Santa Maria de Airães (que alguns relatos afirmam ter-se partido o nariz durante o desenterramento) e os sinos da igreja.
Com o regresso da paz e a fuga dos franceses, alguns habitantes da Pedreira teriam tentado desenterrar os sinos, com o intuito de os levar para a sua freguesia. Apesar da valente junta de bois e do valoroso grupo de homens, a verdade é que não conseguiam remover os sinos do local, que teimosamente se mantinham inamovíveis.
É então que uma velha senhora, puxando uma débil vaca, irrompe naquele cenário, perante o escárnio e gozo dos presentes. Indiferente e pacientemente, atou a sua fraca vaca aos sinos. O riso era evidente entre os presentes, mas, perante a ordem de “É para Santa Maria de Airães”, a pobre vaca começou a arrastar os sinos, tomando a direção da igreja de Santa Maria de Airães, diante do espanto e perplexidade de todos, que rapidamente desistiram dos seus intentos, na presença de tão miraculosa manifestação divina!»


A. P.
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