Espaço de atividade literária pública e memória cronista

terça-feira, 2 de abril de 2024

Uma foto com história (de vez em quando)… protótipo de arquitetura antiga na Longra (a casa do meu “tio Zé”)

 

Era uma casa de pedra, caiada de branco e com rodapé pintado em faixa preta, de género rústico simples, composta de cozinha de lar e forno, mais uma sala comum com quarto, e aposento no sótão de valências diversas. A casa do meu “Tio Zé” (irmão da minha mãe), habitada por ele na Longra durante alguns anos. Da qual tenho ainda na retina da memória imagens ternas: O fumo do lar, saído das labaredas da lareira, escoava pelas telhas, não sendo forrada a cozinha. Pendendo também das traves a roda do pão. Enquanto dos lados do lar havia o preguiceiro e um banco comprido, e entre o lar e a parede havia um postigo granítico e um suporte, também de pedra, onde pousavam as malgas e pratos da sopa e do presigo, da comida saída das panelas de ferro. Ali, depois da janta, à roda dessa pedra grande, decorriam os serões de família. Que tantas lembranças deixaram e recordações trazem na memória, por ali eu e minha família também termos convivido com os da casa, que eram o meu tio Zé (José da Costa Moreira) e esposa, a minha tia Mília (Emília de Jesus). Lembrando-me também ainda que nas paredes havia outras coisas, como armários com rede, para não entrar bicharada, e estantes para pratos e outros utensílios. Enquanto tenho nos olhos também como era o quarto e a sala, com tapamento de ripado de madeira, mais janelo entre a grossa parede, mais teto de madeira, enquanto pelas paredes pendiam quadros com retratos de família. Entrando-se na casa mais usualmente pela porta da cozinha, junto à qual havia um cortelho anexo, para arrumos, de lenha e coisas velhas. E do lado da frente se entrava para a sala e quarto, sobre cuja porta havia um janelão de dar luz para o sótão. Bem como no quintal estava a retrete de madeira, à boa maneira de tempos idos (a "casinha", como havia quem lhe chamasse).

A casa era da família da "Se' Marquinhas do Cardoso", como era também conhecida popularmente a "Se' Marquinhas da Ramadinha", de heranças provindas de tempos de seu pai, o senhor Cardoso que foi figura muito popular da Longra de tempos antigos (figuras referidas no meu livro de contos realistas "Sorrisos de Pensamento", e família que mais de trás ainda afloro num conto do livro da "Elevação da Longra a Vila", recordando memórias ouvidas a minha mãe e meus tios, além de pessoas antigas de ligações familiares).  Casa essa que fora arrendadada a meus tios Zé e Mília por essa senhora veneranda, a senhora Marquinhas, como era termo popular de Micas e Miquinhas, ou seja corruptela do nome de Maria. Coisas de tempos idos. Cuja renda continuara depois com sua filha, D. Isaurinha, e seu marido, o sr. Américo Pereira, que era funcionário de obras da Câmara Municipal de Felgueiras.

Esta foto (fotografada a casa já em tempo de estar desabitada e antes de ter sido substituída pela nova que ali foi edificada) consta do livro “Memorial Histórico de Rande e Alfozes de Felgueiras”, publicado em 1997, entre imagens a ilustrar antigos exemplares de casas de arquitetura de outrora, em Rande. Captada do ângulo de entrada para a antiga cozinha. Sendo aqui dedicada à minha prima Maria Conceição (Marie Pacheco), neta dos meus tios, de quem sempre gostei muito e que em França mantém viva a memória familiar e os laços idos com seus pais da Longra para Lurdes – desde Portugal para a grande nação gaulesa, em cujo território francês a família está espalhada por diversas regiões, ainda atualmente.

Armando Pinto

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