Quando Felgueiras ainda vai estando em festa no período entre a Festa do Concelho e a Comemoração da Cidade de Felgueiras, vem a propósito lembrar a ainda não muito antiga tradição do Cortejo Histórico que fez parte do cartaz desse período festivo felgueirense, no tempo dos primeiros anos da comemoração da elevação da sede concelhia a cidade. Havendo sido levados à rua desfiles sobre temas diversos, como por exemplo em anos sucessivos sobre motes de "Felgueiras e a Descoberta do Brasil", “Felgueiras no Mundo”, “Felgueiras terra com futuro”, “Felgueiras Uma terra de Exemplos”, "2001 Aos de História de Figuras de Felgueiras", "Pequena História das Freguesias - Padroeiros, Coutos e Honras de Felgueiras", etc, etc.
Deitando olhos da memória a essa retrospetiva que ficou na retina, tomando entre vários uns dois exemplos dessa realidade já antepassada, recorda-se o caso dos cortejos de 2001 e 2004, da viragem do século.
Então, no primeiro caso, versando 2001 anos de História Felgueirense através da lembrança de figuras históricas da memória coletiva, começa-se por esse histórico cortejo felgueirense uma visão de teor memorando.
Cortejo Histórico de Felgueiras
No ano de 2001, incluído entre algumas iniciativas
integradas no âmbito do programa das comemorações do XI Aniversário de
Felgueiras Cidade, ou seja da elevação de Felgueiras a cidade, realizou-se pela
primeira vez um cortejo histórico dedicado à História de Felgueiras. Intitulado
de “2001 anos de História”, em atenção ao ano então decorrente (pois que não é
tão antigo o concelho de Felgueiras, nem coisa que se pareça), e com propensão
evocativa de “Figuras de Felgueiras”, decorreu esse desfile figurativo perante
assinalável moldura humana, assistente à sua passagem pelas artérias da sede do
concelho, na noite de 15 de Julho do primeiro ano do século XXI.
Anteriormente houvera em anos precedentes, igualmente na
comemoração dessa efeméride, uma outra iniciativa apelidada de cortejo
histórico mas apenas dedicado aos Descobrimentos, cuja organização levou a
efeito algumas realizações anuais, nuns anos com a viagem de Vasco da Gama à
Índia por tema, noutros anos a descoberta do Brasil e ainda noutros juntando as
duas viagens descobridoras, em ambos os casos por a essas viagens marítimas
estar ligado o nome do “Felgueirense” Nicolau Coelho. Contudo foi o cortejo de
2001 que efectiva e primeiramente desenvolveu facetas da história comum.
Por ter sido a primeira vez que houve um cortejo alargado a
motivos abrangentes à totalidade da História Felgueirense, dentro do possível,
merece pois o mesmo que sobre ele fique registado, à espécie de guião, um
memorando descritivo, aproveitando-se para fazer um trajecto contemplativo pela
história local:
A parada pública, provinda pela “avenida nova” acima (ou
seja desfilando ao longo da Avenida Dr. Leonardo Coimbra em direcção ao centro
da cidade, efectuando percurso por várias das suas ruas, a passar em frente ao
edifício da Câmara Municipal, até parar em frente à então ainda denominada Biblioteca Municipal Dr.
Miguel Mota, na Avenida Agostinho Ribeiro), começava por prestar homenagem ao
passado de Felgueiras, colocados que vinham à frente alguns jovens trajados
alegoricamente de arautos (só que, talvez por distracção ou dificuldade
organizativa, em vez de trombetas, como deveria ser, vinham a tocar
concertinas, instrumentos desajustados da época retractada...). Jovens esses
assim prestados em significado ao ambiente mensageiro dos antigos pregões, os
quais aclamariam nas propagandas o tradicional vozeirão apelativo de Arraial!
Arraial! Por Felgueiras!, acompanhados de grupos de tamborileiros a abrir o
desfile, antecedendo primeiro carro. O qual continha pintado na frente o brasão
concelhio e comportava alegoria, composta por outros jovens envergando trajes
medievais com cores heráldicas do concelho de Felgueiras, empunhando bandeiras
do Município de Felgueiras. Seguiam depois alguns carros, poucos em número, e
personagens apeados, na grande maioria, estes quase todos agrupados em alas
paralelas (cujos nomes se indicam a negro no desfile descritivo, conforme a
indicação contida na legenda do dístico acompanhante que ia em mãos de uns
espécies de pajens), e tudo em conjunto representando por diferentes quadros
alguns de diversos momentos, factos e personalidades marcantes da memória
colectiva.

Assim, o I Quadro, dedicado à ocupação romana em Felgueiras,
procurava vincar característica de que os verdejantes vales do Sousa e Vizela
desde tempos imemoriais convidaram à fixação de distintos povos e civilizações,
cuja história se vislumbra parcialmente nalguns vestígios arqueológicos e toponímicos
encontrados e existentes, respectivamente, por todo o concelho. Como tal
seguiam representantes das enigmáticas e valorosas legiões romanas que
atravessaram vias de que existem réstias.
Com efeito desde longas eras que povos e civilizações ocuparam
as terras destes vales entrecortados de planaltos, havendo presentemente restos
arqueológicos descobertos de antiga Villa Romana de Sendim, onde os fragmentos
estudados pelo arqueólogo Marcelo Mendes Pinto comprovam tese de vida
quotidiana na actual área do concelho entre os séculos III e IV da Era Cristã.
O aglomerado era até importante, pois possuía termas, pavimento em mosaico
geométrico, esgotos, canalização de abastecimento de água, etc.
Em parêntese, acrescente-se, a propósito, que o caso em desfile,
porém, traz à ideia que outras idênticas ruínas existem e mais possíveis
vestígios existirão noutros sítios da região Felgueirense, sabendo-se, pela
História, que houve mais villas romanas, antecessoras de fortificações e
sucessoras mansões solarengas. Ou seja, onde há casas antigas importantes,
solares ancestrais com verdadeiros pergaminhos nobres, haverá por perto, embora
não a descoberto, restos das primitivas ou pelo menos antigas construções e
civilizações. Algo de que, aliás, se tem ouvido falar por vezes, pois como a
descoberta de Sendim, aparecida com obras efectuadas numa propriedade, surgiram
já outras com idênticos vestígios aquando de obras ocorridas noutros locais do
concelho, apenas que, devido às consequências, na ocasião foi sendo mantido
sigilo e prosseguido as decorrentes construções, sem que tais casos tenham
chegado ao conhecimento oficial...
Continuando no cortejo revivalista: Em alegoria, a passagem
referente à villa romana de Sendim era então, no desfile, representada por
carro a recordar algo da Romanização, com reprodução da casa de Sendim
ancestral e a ponte velha de Vila Fria (embora tivesse faltado
representatividade dos Godos, povo neocolonizador de cuja origem foram os
nobres fundadores das antigas Villas embrionárias das sucessoras freguesias da
região, de que ficaram como prova os toponímicos de diversas
paróquias/freguesias).
O II Quadro aludia ao Conde D. Gomes Aciegas, fazendo
relembrar que na época da reconquista Cristã, em que valorosos reis cristãos
recuperaram terras aos infiéis em pelejas impiedosas, se destacou um Governador
no Entre Douro e Minho, homem de Felgueiras, o Conde D. Gomes Aciegas,
frequentador da corte de Fernando Magno, rei de Leão e Castela.
O III ilustrava a fundação do Mosteiro de Pombeiro, mediante
imponente carro alegórico representativo desse monumento nacional e de
intervenientes da sua construção, recordando em legenda o ano 1059 da sua
fundação (data que lhe tem sido atribuída, embora possa ser do séc. IX, pois já
se lhe referia um breve papal de Leão IV de 853 – conforme vem em “Tesouros
Artísticos de Portugal”, edição de 1976 das Selecções do Reader’s Digest).
O IV retinha referência à atribuição da Carta de Couto do
Mosteiro de Pombeiro feita por D. Teresa em 1112, tornando subjacente comprovação
da importância que esse cenóbio deteve nas terras Felgarianas e zonas
envolventes, facto ilustrado com figuras de notário, nobres e plebeus,
sugestivos da instituição da documental Carta de definição de direitos e
deveres, da população abrangente do proteccionismo feudalista do mosteiro.
No V vinha enfim ilustração à doação de bens a Pombeiro por
D. Afonso Henriques, fazendo menção ao facto de em 1155 o nosso primeiro rei
haver doado propriedades em Pombeiro ao Conde D. Gonçalo Mendes de Sousa, conhecido
à posteridade por “o Bom” (n.1124-f.1179), o qual, segundo os “Documentos
Medievais Portugueses”, foi também conselheiro do fundador da nacionalidade,
sendo que aquelas terras doadas por D. Afonso I provinham de herança que o
conquistador da Portugalidade recebera do nobre Ordonho Echigues e que foi o
mesmo monarca quem primeiro confirmou o Couto de Pombeiro e honrou as Terras de
Unhão.
O VI Quadro adiantava o passo em corrida no tempo,
referenciando doação de Felgueiras por D. João I a Gonçalo Pires Coelho, em
1385 – pois que o Mestre de Avis depois que assumiu o trono e manteve a
soberania portuguesa concedeu, entre outras terras, o senhorio de terras de
Felgueiras a D. Gonçalo, tornando-se este donatário e capitão-mor do pequeno
concelho existente nesse tempo, título que deteve até à sua morte no ano de
1417.
O VII, alusivo à participação de Nicolau Coelho (séc.XV-XVI)
na rota marítima para a Índia e descoberta do Brasil, sobressaía em carro
alegórico próprio com formas de caravela, recriando as destemidas viagens de
Coelho, o comandante da Bérrio homenageado como descobridor Felgueirense.
O VIII, prosseguindo o desfilar revivalista, dava vez à
concessão do Foral de Felgueiras outorgado por D. Manuel I em 1514,
apresentando séquito de vassalos e damas da corte a anteceder o casal real,
fazendo desfilar o personagem do rei “Venturoso” – o qual nessa mesma distante
era também concedera em 1515 idêntica Carta de Foral ao então existente
Concelho do Unhão, cujas terras mais tarde passaram a completar o concelho de
Felgueiras.
No IX apareceu recriada a fábrica do Pão-de-ló de Margaride,
apresentando essa particular tradição local que detém imagem de marca do
concelho, iguaria típica e exclusiva de reconhecimentos régios.
No X Quadro, através de alongado desfile de figurantes em
passeio, eram apresentados alguns Ilustres Felgueirenses, numa galeria contudo
deveras incompleta. Desse jeito, passaram diante dos assistentes diversos
personagens representados em significativo número de recreações de tais figuras
salientes, qual corolário de um passado distinto em que se destacaram esses
notáveis Filhos de Felgueiras de naturalidade ou afeição.
Como assim, essa parte demonstrativa começava por homenagear
os escritores através de D. Manuel Faria e Sousa (1590-1649), historiador,
poeta, filólogo e moralista crítico promotor de Camões; seguindo-se Francisco
dos Guimarães (1767-1839), sacerdote e professor erudito, autor de Memória
sobre um documento inédito (referente ao Conde D. Henrique), saído no tomo IV
das Memórias da Academia das Ciências; bem como António José da Fonseca Moreira
(1841? ou 1848? -1938), autor de peças teatrais e patrono da casa de teatro
municipal – pecando a mostra por não indicar o seu primeiro nome, para
distinção do seu sobrinho Dr. Luís Gonzaga Fonseca Moreira, figura de proa do
desenvolvimento local do começo do século XX (que, afinal, se verificou que
faltava, não tendo sido lembrado nesta acção). Falta notória esta, por exemplo,
como outras, entre as quais se notou ausência de um Dr. Eduardo Freitas
(1866-1926), médico, antigo Presidente da Câmara e Provedor da Misericórdia de Felgueiras,
que foi autor da primeira monografia historiadora do concelho. Depois
apresentavam-se aristocratas, surgindo Egas Gomes de Sousa (1059-1102), o 1º
dos Sousãos; seguido de Assis Teixeira (1850-1914), 1º Conde de Felgueiras; e
Fernão Teles de Menezes (1589-1651), 1º Conde do Unhão. Aprestavam-se logo
atrás alguns destacáveis vultos da magistratura, como o Conselheiro Dr.
Alexandre Barbosa Mendonça (1860-1936), Juiz do Supremo Tribunal de Justiça –
faltando também distinção relativa com seu irmão, o Conselheiro Dr. António
Barbosa Mendonça (1858-1932), carismático político do antigo Partido
Regenerador concelhio, Presidente da Câmara Municipal no último período da
Monarquia e jornalista eminente, incompreensivelmente olvidado na galeria
apresentada. Sendo lembrado no imediato o Conselheiro Dr. José Joaquim Coimbra
(1882-1950), antigo Presidente do Supremo Tribunal de Justiça; aparecendo
depois lembrança do Dr. José de Barros Carneiro (1894-1988), causídico que
viveu no concelho retirado das lides judiciais e que foi figura conhecida de
tertúlias e acontecimentos afamados na transmissão popular. Em justa
representação de religiosos ilustres, aparecia de seguida D. Frei João de Santa
Gertrudes Amorim (1818-1894), Abade do Mosteiro de Cucujães e superior da
fundação do Mosteiro de Singeverga - notando-se lacunas várias nesse aspecto,
tantos os exemplos possíveis, entre os quais o Padre Luís da Cunha Pereira
Sampaio, a quem se liga os primeiros passos da devoção local a Santa Quitéria,
os antigos reitores mais famosos do Santuário de Santa Quitéria, Padres Álvares
de Moura e Henrique Machado, como o Padre Luís Rodrigues (1906-1979), mestre de
música gregoriana e célebre compositor de cânticos litúrgicos, reconhecido
internacionalmente; mais Frei Lucas Teixeira (1918), mestre de Iluminuras e poeta, ainda vivo ao tempo. Surgia depois representante da política de outros tempos,
mediante figura do Dr. Custódio Rebelo de Carvalho (1805-1883), célebre Par do
Reino, a quem se ficaram a dever algumas intervenções com influência em
melhoramentos públicos e na criação da Comarca de Felgueiras. Nesse prisma logo
ressaltava falha grave, devido a esquecimento para com a memória do Dr. Costa
Guimarães (1807-1866), principal lutador obreiro da referida promoção de
Felgueiras a Comarca, concretizada em 1855. Após isso, na continuação da
marcha, a representatividade de heróicos pioneiros era atribuída ao Coronel
Piloto-Aviador Francisco Sarmento Pimentel (1895-1988), militar intervencionista no
derrube da Monarquia do Norte em 1919, destemido aviador que empreendeu em 1930
a 1ª travessia aérea de Portugal à Índia e opositor do regime de Salazar,
exilado político durante longos anos, condecorado com a Ordem da Liberdade após
a democratização portuguesa – sendo Francisco Sarmento Pimentel tratado por
Comandante na legenda apresentada publicamente, quando esse título honorífico
era atribuído a seu irmão João, então Capitão, por este ter comandado as tropas
dos movimentos militares do vitorioso 13 Fevereiro de 1919 (no derrube da
Monarquia do Norte, junto com o visado Francisco) e do frustrado 3 de Fevereiro
de 1927 (contra a situação política da ditadura saída do 28 de Maio de 1926),
como liderara depois a colónia portuguesa de exilados políticos no Brasil
(também ele, João Sarmento Pimentel, não referenciado, embora neste caso se
aceite porque, apesar de ter vivido muito tempo em Felgueiras, onde muito
justamente está perpetuado na toponímia citadina como General Sarmento
Pimentel, não era natural do concelho como é o irmão). A figura heróica daquele
aviador e militar Felgueirense, Francisco Pimentel, não teve porém condigna apresentação,
pois em vez de sua figuração seguir em carro alegórico, como outros personagens
eventualmente de destaque inferior (podendo ter sido apresentada alegoria que
metesse imponência de um avião, coisa que nem tem faltado em carros de desfiles
de corsos carnavalescos e marchas luminosas, quando se justificava que devesse
mais aparecer numa altura destas)... ia tal representação de Francisco Sarmento
Pimentel a pé, apresentado com uma farda que pretendia ser arremedo de uniforme
militar de carreira... Passada essa reboada, apareciam simulados personagens
representativos de antigos beneméritos, que muito contribuíram para a projecção
da antiga vila, como Ribeiro de Magalhães (1847-1919), fundador da Misericórdia
de Felgueiras, e Agostinho Ribeiro (1848-1916? ou 1920?), patrono do Hospital
concelhio; e ainda o Dr. Magalhães Lemos (1855-1931), brilhante psiquiatra e
cientista de renome. Por último, o Dr. Leonardo Coimbra (1883-1936), filósofo,
orador e político ligado a reformas do ensino superior durante a 1ª República.
Voltou então a notar-se outras faltas, entre as quais para com personagens da
diáspora Felgueirense, ou seja naturais do concelho que se salientaram em
terras onde se radicaram no país e no estrangeiro, de que são exemplos o
Conde-barão Joaquim Pereira Marinho, falecido em 1887 na Baía-Brasil, onde foi
destacado cidadão e empresário de comércio naval; assim como Basílio Leite de
Vasconcelos (1885-1938), primeiro director do Arquivo Distrital do Porto.
Falhas verificadas, no caso, extensíveis a outras áreas sociais, nomeadamente
para com os promotores dos primórdios industriais geradores de progresso e
outros agentes sociais, sendo de reter que bem merecia lugar entre as Figuras
Gradas da terra, por exemplo, um José Xavier (1882-1957), pioneiro da indústria
no concelho e personagem activo em realizações culturais, tal como também
outros “dinossauros” da revolução industrial concelhia, como uns Antero Cunha
(1886-1968), Américo Martins (1893-1967) e Verdial Moura (1915-1969), este,
inclusive, além de se ter salientado na ascensão da indústria panificadora, foi
até o fundador do Futebol Clube de Felgueiras. Outrotanto, nessa falha emergiu
outra falta havida para com a importância do desporto e por extensão uma
transposta ideia de idêntico reconhecimento para com Artur Coelho (1934-1983),
antigo praticante valoroso do panorama ciclista nacional e internacional, vencedor da Clássica 9 de Julho-Volta a São Paulo, no Brasil e por diversas vezes camisola amarela na Volta a Portugal em bicicleta; bem
como José Sampaio Peixoto, atleta que foi recordista nacional em provas de
pista e inclusive detentor do máximo Ibérico na distância de 400 metros, em
atletismo. Tal qual com instituições de carácter especial, como a centenária
Associação Humanitária dos Bombeiros de Felgueiras, sendo aí de notar mais uma
falta de lembrança tida para com o “Comandante” Dr. Eduardo Coelho, personagem
histórico na criação da corporação dos Bombeiros Voluntários de Felgueiras, tal
qual carismáticos continuadores da “Bomba Felgueirense” como foi o patriarca da
família Lickfold; e ainda o Mestre Aniceto Ferreira que foi regente da Banda dos Bombeiros e da Banda de Música de Felgueiras; assim como outros grandes Homens em diferentes valências da
vida local, sendo de lembrar, entre outros, mais uns Dr. António Pinto Sampaio
e Castro, célebre Administrador do Concelho; Eduardo Cabanelas, pioneiro no
ramo dos transportes públicos; Professor Joaquim de Barros Leite, fundador do
Externato Infante D. Henrique, e D. Dulce Moura, sua continuadora; Teófilo Leal de Faria, alma-mater de diversas
empresas que deixaram progressista cunho vincado; e outros mais, entre cujo
leque será de lembrar o autor da música do Hino de Felgueiras, de nome Joaquim
Chicória (1876-1951), músico vizelense da antiga Filarmónica Musical conhecida popularmente
por “Banda do Aniceto” de Felgueiras.
A propósito, deverá acrescentar-se que essa versão do Hino
Municipal foi composta em 1919 e, depois de pela primeira vez tocada em público
no ano de 1942, com dedicatória ao então Presidente da Câmara Dr. Miguel
Bacelar, foi recuperada muito mais tarde, com uma letra encomendada em 1991
pela C. M. F. ao poeta popular Arlindo Pinto (natural de Penafiel e residente
em Felgueiras, conhecido normalmente por “Cabo Pinto” devido a ter vindo para
Felgueiras como Cabo da GNR). Esse canto, com nome oficial de Hino de
Felgueiras Cidade, teve gravação editada em disco de vinil no ano de 1992. A
propósito, convirá focar também que há um outro hino, chamado de Hino do
Concelho de Felgueiras, que aliás foi o primeiro a ter arranjo total de
composição musical e poética, cuja versão foi feita em 1984 com letra de
Fernando Ferreira Machado e música do Padre Carlos Moura (melodia que foi
gravada em cassete através de interpretação do Coro Vicentino de Felgueiras e
era entoada nos sinais de abertura e fecho das emissões iniciais da Rádio
Felgueiras).
Voltando à descrição do desfile em apreço: Encerrava a
artística marcha, por fim, o último carro alegórico, de homenagem ao Poder
Local, ostentando gravura a retractar o Dr. Machado de Matos (1915-1989),
Presidente da Comissão Administrativa formada em 1974 após o 25 de Abril e 1º
Presidente da Câmara eleito, sufragado em 1976 por maioria de votos, apesar de
não ter sido natural mas sim residente de Felgueiras, para sempre representante
do sentir Felgueirista como figura sintomática de democrata e bairrista
Felgueirense.
Esperava-se um final apoteótico, no encerramento do cortejo, o que se não verificou totalmente, quando poderia haver, por exemplo, uma parada final de
símbolos do presente, como que em representatividade de todas as associações,
agrupamentos, clubes, estabelecimentos oficiais e outras instituições, enfim
das colectividades e agremiações espalhadas pelo concelho, bastando as
respectivas bandeiras a marcar presença, empunhadas por porta-estandartes em representação
do que existe dentro desses valores colectivos – alusivo ao trabalho incessante
dos «descendentes briosos do passado que constroem, no presente, o futuro
ilustre de Felgueiras».
*
Em 2002 foi reeditado o mesmo Cortejo Histórico, com poucas
alterações e correcções, então denominado “Felgueiras no Mundo”. E, felizmente,
no ano seguinte começaram a surgir modificações.
Em 2004 houve mudança de tema, tendo o Cortejo Histórico
como lema “Padroeiros, Coutos e Honras de Felgueiras”, procurando demonstrar
uma “Pequena História das Freguesias”.
Assim, a abrir, o primeiro carro apareceu dedicado aos 19
santos Padroeiros das 32 freguesias do concelho de Felgueiras. Depois,
seguiam-se os quadros alusivos, com ilustrações históricas desde os alvores da
expansão, das freguesias com História mais marcante – segundo o que foi
apresentado no desfile:
Quadro I – S. João de Aião, com referência ao Couto do lugar
de Brulhães, de 1257, como o privilégio de isenção de impostos a moradores de
Aião, concedido por D. João I em 1395.
Q. II – Santa Maria de Airães, aludindo o seu Padroado ter
sido da Coroa, da Ordem de Avis e da de Cristo.
III – S. Miguel de Borba de Godim, em cuja representação
constava a confirmação do 1º rei de Portugal sobre Godim.
IV – S. Martinho de Caramos, ilustrando a fundação do seu
mosteiro e a importância dos seus monges Crúzios em tempos remotos.
V – S. Tomé de Friande, com invocação da doação da ermida de
Santo André.
VI – Santa Maria de Idães, referindo a antiga paróquia e
freguesia de Samarim, depois anexa a Idães, e sobre o mosteiro de Barrosas.
VII – S. Pedro de Jugueiros, maila sua Carta de Couto,
outorgada por D. Teresa.
VIII – S. Cristóvão de Lordelo, referindo a erecção da
capela do Espírito Santo.
IX – Santa Leocádia de Macieira da Lixa, fazendo alusão a
pergaminho de 1240, contendo referência a obrigação de seus moradores pagarem
votos a Santiago de Compostela.
X – Santa Eulália de Margaride, aludindo o testamento de
Mumadona de 1059, no qual aparece sua primeira referência; assim como era
representada pelo templo de Santa Quitéria e com revivalismo à Feira de
Margaride.
XI – S. Salvador de Moure, em cuja representação aparecia
idêntica referência à Condessa Mumadona, bem como à Justiça ali praticada
antigamente em Simães.
XII – S. Tiago de Pinheiro, antiga Honra, incluindo os
ancestrais Mogudos de Sendim.
XIII – Santa Maria de Pombeiro, aludindo a fundação do
correspondente mosteiro e seu Couto.
XIV – S. Tiago de Rande, que incluía alusão aos antigos
fidalgos, dos quais as suas antigas quintas de Rande e Sernande, de Randi
Villa, foram doadas no decurso do tempo ao Hospital de Malta, por D. Gomes
Soares; aludindo, ainda, antigos vínculos de Rande, como freguesia, a
posteriores Honra e Concelhos por onde andou na evolução administrativa.
XV – Santa Comba de Regilde, recordando sua Honra e
posterior unificação de S. Veríssimo da Ribeira a Santa Comba de Regilde.
XVI – Santa Maria de Revinhade, com sua antiga Honra e
Padroado, ao qual andou anexa a Comenda de Torrados.
XVII – S. Jorge de Riba Vizela, aludindo ter sido outra
Honra, do nome antigo da freguesia, Cela.
XVIII – S. Tiago de Sendim, como freguesia do solar dos
Coelhos e sede dos Capitães-mores do concelho.
XIX – S. Vicente de Sousa, antiga Honra dos Sousas, onde se
situava seu palácio patriarcal e de onde houve o nome do rio que nasce no concelho.
XX – S. Pedro de Torrados, mostrando haver documento de
testamento de Mem Moniz, irmão de Egas Moniz, aio do rei fundador, como de
Torrados ter sido Comenda da Ordem de Cristo, em parceria com Revinhade.
XXI – S. Salvador de Unhão, que incluía referência à
fundação da sua igreja e a ter sido antiga Honra, Comenda e Concelho, como
terra dos Condes de seu nome.
XXII – S. Salvador de Vila Cova da Lixa, lembrando os seus
primitivos senhores, os Gondufes.
XXIII – S. Mamede de Vila Verde, terra coutada pelo Conde D.
Mendo de Sousa, que teve legado aos frades de Pombeiro.
(Obviamente não estão todas as freguesias integrantes do concelho, mas foram estas as referenciadas no desfile em apreço.)
Encerrava o cortejo, em último carro alegórico, a
representação do santo das Festas do Concelho, S. Pedro, motivo de romaria e
veneração dos Felgueirenses desde longas eras.
Armando Pinto
(Obs.: - Junção de textos entretanto já colocados em partes noutras publicações
e como artigo conjunto para também poder ser publicado noutra eventualidade
editorial).
((( Clicar sobre as imagens )))