Espaço de atividade literária pública e memória cronista

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Cantares tradicionais dos Reis, em período das Janeiras

Passada a quadra de Natal, ao chegar-se aos Reis, pelo dia seis de janeiro, é tempo de alagar o presépio, como se diz popularmente. Com o desfazer daquela construção caseira a servir de final da época do encanto natalício.  Mas o início de ano, no calendário festivo anual, alonga-se pelo primeiro mês adiante, com os tradicionais cantares das Janeiras, canto que a partir do dia seis passa a ser chamado dos Reis. Sendo que depois até sensivelmente ao dia 20 de Janeiro é tempo de Janeiras e Reisadas.


Estamos em tempo do tradicional canto popular das Janeiras, na entoação visitante às casas de gente conhecida e entre amigos, através de grupos formados de diversas maneiras e feitios. Incluindo desde há anos as andanças de agrupamentos organizados, como Ranchos e formações tendentes à angariação de verbas. Com acrescento de recriação folclórica, embora nem sempre condizente à realidade, visto antigamente ser gente do povo que costumava andar a cantar nesse fito das visitas de casa e casa, não se entendendo por isso como aparecem trajes domingueiros  e de pessoas ricas em tal coreografia revivalista, atualmente.

Olhando a toda a envolvência relacionada, na pertinência da época, recordamos aqui um dos textos em tempos já publicados num artigo pessoal no Semanário de Felgueiras e de permeio também vindo a público noutra publicação:


Cantares de Janeiras e Reis

Começando pelo princípio do ano, debruçamo-nos de início, ainda que levemente, sobre os tão antigos cantares de Janeiras e Reis.

Passados os festejos natalícios, comido o bacalhau e as batatas da consoada, com a árvore decorativa a representar como que uma réstia do antigo cepo que ardia nos adros das igrejas em noite de missa do galo, e com a passagem de ano, tempo de beijar comunitariamente ainda os pés do Menino no fim das missas, chega a vez das Janeiras e complementares cantares dos Reis. Costume de influência importante noutras eras, teve formas variadas conforme as terras, por esse país fora, e também no nosso ambiente concelhio. Maneira essa de convívio que mais não é que um velho uso, deveras misturado num apego religioso revestido com sabor popular, vulgo pagão.

Segundo estudiosos eminentes da matéria, do que fomos lendo algures e anotando há longo tempo, essas reuniões de grupos de amigos, familiares e vizinhos, que iam às portas uns dos outros entoar as “boas entradas”, é uma usança derivada das “Saturnais”, festas clássicas celebradas pelo povo romano e romanizado em honra de Saturno, festividade relacionada com os segredos da crença popular comum à agricultura. Folganças aquelas realizadas por alturas das calendas de Janeiro e com a particularidade de que durante tal período desapareciam as distinções sociais.

Na antiguidade, conforme ainda algo que chegou transmitido através de alguns estudos historiadores, reuniam-se ranchos de gente, formando grupos de cada lugar ou famílias, os quais a partir da noite de ano novo percorriam as casas das pessoas mais gradas a desejar-lhes as boas festas, juntando-se por fim todos os da mesma freguesia num local tradicional, normalmente no adro ou proximidade da igreja paroquial, acabando ao calor do que restara do tronco da fogueira de natal a cantarem, ora ao desafio ou todos juntos.

A respetiva campanha, conforme a definição mais conhecida, é efetivamente uma tradicional manifestação de cultura popular de origem pagã, consistindo em reunião de grupos de pessoas que, no início de Janeiro, percorrem uma região, à noite, cantando pelas casas, ao som de instrumentos tradicionais de música, e desejando às pessoas conhecidas e amigas um feliz novo ano, por via de quadras de sabor popular. Tal como as Janeiras são “cantigas de boas-festas por ocasião do Ano Novo”. A propósito de Janeiro ser o primeiro mês do ano, sendo assim chamado em honra do deus Jano (de janua = porta, entrada). Uma outra ideia relacionada, pois Jano era como que um porteiro celestial, e, consequentemente, qual deus das portas, que as abria e fechava, esperando-se a sua proteção na partida e no regresso. Tido assim por um deus dos começos, Jano era invocado para afastar das casas os espíritos funestos. Fundamentando-se, por isso, que esta manifestação tem origem em cultos pagãos, que o cristianismo não conseguiu apagar e se foram transmitindo de geração em geração. Por extensão, a versão religiosa cristianizada das Janeiras é o cantar dos Reis, desde 6 de Janeiro.

Com o decurso dos tempos surgiram transformações desse hábito, das Janeiras e Reis, por via de que resultaram particularidades diversas. Passou a associar-se cambiante de convívio mais restrito, com esse canto noturno de porta em porta, dando vivas às pessoas das casas visitadas, a ser recompensado por meio de qualquer espécie alimentar, sendo depois essa angariação repartida por todos os participantes em folguedo final conjunto.

A partir da noite de Reis, depois da ceia tradicional, que nalgumas freguesias do concelho de Felgueiras, pelo menos, metia arroz de feijão branco acompanhado de rodelas de paio, começavam então as "Reizadas", seguindo o mesmo ritual, apenas com adaptação da letra entoada ao som dos instrumentos musicais mais acotiados.

Sendo estes cantos efetuados por grupos de mulheres e homens adultos, acompanhados por rapazes e raparigas jovens e por vezes também por crianças, em anos não muito distantes passaram a ser levados a efeito mais por jovens e crianças, com o fito de receberem donativos, conhecidos por “esmola”.

Tal tradição tem sido preservada nos tempos mais recentes, sobretudo, pelos Ranchos Folclóricos e outros grupos institucionais, com o propósito de angariação de receitas para a sua sobrevivência, em vista à manutenção anual associativa, ou por comissões e agrupamentos organizados como recolha de fundos para qualquer iniciativa de interesse público.

ARMANDO PINTO

(Texto entretanto publicado parcialmente no jornal Semanário de Felgueiras em anos anteriores e entretanto guardado para publicação em livro que tem estado há anos a aguardar viabilidade de patrocínios para publicação.)

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Ora, à chegada do final da quadra natalícia, qual expirar da época festiva do Natal já passado e entrada no Ano Novo entretanto iniciado, depara-se no calendário anual a terminação dos Reis, na atualidade do dia dedicado ao tema dos Reis Magos – que, como visitantes últimos ao Menino Jesus, no seguimento da estrela de Belém, dão azo à ocasião tradicional do desfazer do presépio.

Assim, em plena época do canto das Janeiras, ancestral costume que a partir deste período dos Reis dão lugar às "Reisadas", estando-se já no fim de semana de guardar as decorações natalícias, passamos à normal vivência anual. Vislumbrando-se no horizonte uma linha de anseios natural. Como tal desejamos que se realizem os mais lindos e justos desejos comuns, entre nós, os que nos revemos nos mesmos anelos íntegros!

A. P.

sábado, 2 de janeiro de 2021

Transcrição do artigo da revista "Evasões" do Natal de 2020 («Armando Pinto: Manter a tradição de construir o presépio»)

 

(Passada a semana correspondente  de 25 a 31 de dezembro  da respetiva edição do número de Natal da revista "Evasões", transcreve-se o que foi publicado nesse número da revista acompanhante às sextas-feiras do Jornal de Notícias. Com a correção de alguns pormenores do que saiu na publicação)

« Armando Pinto: Manter a tradição de construir o presépio

 (Fotografia de Miguel Pereira/GI))

Por Ana Luísa Santos

25/12/2020


Era um Natal simples, mas feliz, aquele que Armando Pinto vivia quando era criança, na Longra. Hoje, aos 66 anos, admite que há mais de tudo e nada lhe traz tanta felicidade como estar rodeado pelos netos.

Fazer o presépio é um ritual importante na família de Armando Pinto, reformado, após 40 anos a trabalhar no atendimento dos Serviços de Saúde. De tal maneira, que entrando-se em dezembro, a filha liga-lhe para que não se esqueça de o fazer. O processo inicia-se com a apanha do musgo, numa mata perto de onde vive, na vila da Longra, em Felgueiras, com a ajuda preciosa dos netos, com três, sete e dez anos. Desta vez, teve que ir sozinho (devido à pandemia), mas espera retomar o passeio para o ano, altura em que o seu quarto neto terá já perto de ano e meio de idade.

Recolhido o musgo, Armando coloca-o a secar junto ao jardim de casa, “debaixo do caramanchão para ficar liso”. Depois arranja-o sobre um estrado de madeira, apoiado em roletos partidos, e acrescenta papel para fazer as vezes das rochas. No estábulo, de cortiça e madeiras, coberta com um telhado em colmo, também obra de Armando, repousam as figuras “de estilo italiano, em massa”, que o acompanham desde que casou, há cerca de 43 anos.

A representação do nascimento de Jesus ocupa perto de dois metros quadrados da sala comum, onde tem lugar a ceia de Natal, à volta de vinte pessoas, com bacalhau cozido, e batatas com molho de azeite. O cabrito assado marca presença no almoço de 25, rematado com os doces caseiros da noite anterior – rabanadas, aletria, formigos, barriga de freira e tronco de Natal. E o bolo regional, comprado na Casa do Pão de Ló de Margaride.

Se hoje há fartura em cima da mesa, antigamente só se colocavam alguns doces tradicionais. “Havia um Natal de rico e um Natal de pobre”, constata. Também os presentes que se ofereciam aos mais novos eram bem diferentes. “Costumávamos receber figuras do presépio em barro, e escrevíamos logo o nome por baixo a lápis”. No ano seguinte, cada um dos seis irmãos ajudava a montar o presépio com as figuras que ainda hoje existem, cuidadosamente juntas e guardadas. Era um Natal modesto, mas feliz, para o qual Armando ansiava chegar, mal começavam as férias do seminário, onde andou até aos 14 anos. Essa alegria sente-a agora nos netos, e partilha-a com eles. Para Armando, “as crianças é o que dá mais sentido ao Natal”.

UMA HISTÓRIA DE NATAL

Um sobressalto à espera dos presentes

Armando teria uns 7 anos quando, depois da ceia, aguardava junto dos irmãos na cozinha a chegada dos presentes trazidos pelo Menino Jesus, dado que “ainda não havia o Pai Natal”. Foi durante esses minutos de ansiedade que se ouviu um barulho de algo a mexer, e um seu irmão mais velho “pôs tudo em alvoroço”, achando que poderia ser o Menino Jesus. Foi-se a ver, e não era mais… do que um gato a entrar pelo buraco do portelo.»


quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Artigo de final de ano ("Felgueiras em modo mediático") - no Semanário de Felgueiras

 

Em final de ano, um artigo alusivo do tempo recentemente passado, na transição ao ano novo. Publicado na edição do último dia do ano 2020.

ARMANDO PINTO

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Lembranças do Primeiro Dia do Ano na Paróquia de S. Tiago de Rande

Algumas lembranças, como meros exemplos, das ofertas de recordação entregues no final da missa da igreja Paroquial de S. Tiago de Rande, a assinalar o Dia Mundial da Paz, como sinal de início de novo ano, nalguns anos.

Armando Pinto

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sábado, 26 de dezembro de 2020

Algo especial na revista Evasões do Natal de 2020

Na Evasões, revista que acompanha as edições das sextas-feiras do Jornal de Notícias, em seu número de sexta-feira 25 de dezembro, no dia de Natal de 2020, foi publicado conteúdo de mensagens sobre recordações e tradições de Natal, dando voz a alguns leitores do JN. No caso aparecendo também um testemunho do autor dos blogues “Longra Histórico-literária” e “Memória Portista”.

Teve essência tal envolvência na ideia expressa nos títulos e subtítulos, mais no Editorial da publicação. 

Disso, passado o dia e a romaria, partilha-se agora a parte pessoal correspondente, como registo personalizado nos espaços próprios aqui do autor. Com "Um Desejo" especial expresso.

Armando Pinto  

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terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Recordando: Épocas natalícias de 1994 e 1995 nas estreias do Rancho Infantil e Juvenil da Casa do Povo da Longra


Fundado a 5 de Maio de 1994, através de proposta apresentada pelo fundador em reunião de Direção dos corpos gerentes da Casa do Povo da Longra (nessa fase de reabertura e revitalização da instituição, conforme ficou lavrado em acta oficial), e após tempos de formação, ensaios e devida organização, o Rancho inicialmente apenas de formação Infantil teve estreia pública a 17 de dezembro do mesmo ano, diante do público local na Festa de Natal realizada em parceria da Associação Casa do Povo da Longra com a Junta de Freguesia de Rande, no salão de espetáculos da casa-mãe.


Volvido um ano, o mesmo Rancho já como Infantil e Juvenil, após diversas participações na própria terra, bem como pelas redondezas e mesmo em localidades do Norte de Portugal, teve estreia internacional a 23 de dezembro de 1995, com primeira saída ao estrangeiro. Havendo então, no sábado da antevéspera do Natal de 1995, ido até à Galiza, a Cangas (Pontevedra-Espanha), onde se exibiu perante o público galego na Festa de Natal do Grupo de Danzas de Cangas.


Dessas estreias recorda-se tais momentos através de fotografias coevas, do grupo original e sua entrada em palco na respetiva estreia na Casa do Povo da Longra, mais da sessão protocolar de troca de galhardetes e recordações em Gangas, no Noroeste Espanhol.

Armando Pinto

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