sexta-feira, 23 de março de 2018

Doce e leve tradição... em mais um artigo no Semanário de Felgueiras


Artigo publicado no jornal "Semanário de Felgueiras"  no final da semana de entrada da Primavera, tempo que há pouco mais de dois séculos testemunhou a passagem das Invasões Francesas por terras felgueirenses, entremeando parcelas do interior do Douro Litoral; e na atualidade do anual certame felgueirense do pão de ló, cujas atenções centradas no festival gastronómico abancado nos espaços do mosteiro de Pombeiro levam ao país e mesmo a algum mundo mais o nome de Felgueiras, por entre motivos remetentes à importância das tradições....  Cujo texto inserto, desta vez, no SF de 23 de março, se reproduz para aqui:



Força da tradição

Ouvia-se antigamente contar histórias em família, à roda da lareira, ou à mesa da ceia, com encantamento transbordante do que se ia sabendo, enquanto corpo e entendimento aqueciam nos contos que embalavam a memória. Galgando assim, como fumo saído do borralho ou de malga fumegante, um tremelicar de sensações, como a luz da candeia de companhia ao convívio familiar, nesses tempos em que chegavam narrativas andadas ao longo de gerações. Quão boa parte da literatura historiadora de eras remotas seguiu a transmissão popular e mesmo livros sagrados transmitiram algo que vinha da oralidade. Tanto que já S. João Crisóstomo dizia que "onde houver tradição não se busque outras provas". 

É pois de contar a lembrança provinda de outros tempos, antes que lendas e narrativas de valores maiores possam ir para o maneta, como se diz na gíria. Sabendo-se que isso de mandar para o maneta tem a ver com réstia popular do tempo das Invasões Francesas, quando na primeira, das três incursões gaulesas em território português, um general sem uma mão, conhecido prosaicamente por maneta, era temido pela crueldade com que dava fim a tudo. Vindo até a propósito, para que não desapareçam, algumas das lendas provindas dessa sucessão de pilhagens francas, entre ocorrências memorandas passadas na região felgueirense e guardadas popularmente nos arcanos de memórias antepassadas.

Ora, na segunda das invasões dessa Guerra Peninsular, a caminhada das tropas francesas incidiu por terras do norte do país, nos idos de 1809. Então, os invasores avançaram até ao Douro Litoral e, a ferro e fogo, levaram tudo a eito por onde passaram, destruindo e pilhando, fazendo mal sem olhar a nada nem a quem. Tendo Felgueiras ficado a arder também, ao ter sido ateado fogo ao Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro, conforme melhor se sabe por narração romanceada de Camilo Castelo Branco. Havendo ainda sido salvo um livro do Município porque foi enterrado, tendo assim ficado salvaguardados alguns informes de outros tempos (através de posterior cópia extraída do original, em 1815, por despacho oficial, devido aos estragos resultantes no que esteve soterrado). Tratando-se de um volume de autos (escrituras), intitulado Tombo dos Bens e Distrito do Concelho de Felgueiras, de 1770. Tal como, segundo se conta, em Airães foram enterrados os sinos da igreja, para os esconder de roubo pelos malfeitores (derivando disso certa lenda de posterior disputa com uma freguesia vizinha, no desenterramento, por ser em zona de partilha fronteiriça).


(Pranchas/excertos do livro de banda desenhada "A Jóia no Vale", com textos e desenhos de José Ruy, editado pela Câmara Municipal de Felgueiras através das Edições Asa, em 1995)

Não admira, por isso, que o povo quando podia não se deixava ficar quedo, e dessas escaramuças também surtiram retaliações. Acabando por ficar em terra alguns despojos, como corpos de soldados mortos. Conforme de modo useiro se conta, numas das tais transmissões populares, que em Várzea, no bosque do Barrôco, em plena quinta de Maderne, ficou enterrado um soldado do exército napoleónico, morto pelos aldeões locais numa perseguição movida aquando da debandada resultante dos acontecimentos do Porto, após a desfeita do atravessamento do rio Douro e tragédia da ponte das barcas, seguindo-se confusa retirada, entremeada à perseguição popular acirrada na defesa da ponte de Amarante e deambulações bélicas pela região, praticadas noutra pugna travada na zona da Lixa. Levando que fossem intercetados pelo povo alguns soldados dispersos, que por certo acabaram sem peças do fardamento e mesmo calçado de defunto, certamente por não precisarem já de nada disso onde ficaram.

Perante isto, preservados factos em lendas tradicionais, reforçada fica a ideia da força da tradição. Como Felgueiras mantém vigor na doce tradição do pão de ló e cavacas de Margaride, mais pujança na exportação de produtos, sendo agora o vinho e o calçado felgueirense a conquistar outras nações.

ARMANDO PINTO


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Assim, pousadas atenções regionais e nacionais nos temas abordados, por entre  tradições do tempo e memórias da afinidade coletiva, teve vez mais uma descrição relacionada na crónica habitual do autor, no espaço de opinião do Semanário de Felgueiras. Desta feita sobre a importância da tradição transmitida, difundida através do que se ouviu ao longo dos tempos, como meio transmissor de testemunhos interessantes do passado.


Entretanto, porque o conteúdo de artigos jornalísticos normalmente se cinge a espaço de crónicas de jornal, convirá acrescentar algo mais, aqui e agora, como explanação, desde o famigerado oficial do exército francês apelidado de Maneta, até alongamento sobre algumas das lendas que perduram na memória popular.

Pois esse tal Maneta, de nome Louis Henri Loison, general francês, tendo participado na primeira invasão francesa sob o comando de Junot, foi então autor de numerosas pilhagens e de inúmeros atos violentos, que lhe valeram a fama de homem cruel. Tendo sido referido como "o Maneta", por causa de um acidente de caça que lhe custou um braço, ficando assim conhecido, conforme deixou marca e memória em Portugal devido à sua brutalidade especialmente na primeira invasão, embora depois haja também participado nas outras duas expedições da mesma campanha da Guerra Peninsular. O medo que a sua figura transmitia, tal era a crueldade e a forma como torturava e executava os inimigos, especialmente os guerrilheiros portugueses, levou à criação da expressão “ir pró maneta”, que se mantém ainda.

A região de Felgueiras ficou então, também, como ponto de passagem da retirada das tropas francesas, após sua expulsão da cidade do Porto. A invasão napoleónica, que sob o comando do marechal Soult fizera o Porto teatro das suas investidas bélicas, teve epílogo na cidade invicta com o exército francês a ser desalojado pelo povo portuense, em ajuda aos soldados lusos comandados pelo general inglês Wellesley, depois da tragedia da ponte. Ocorrência nacional por fim cantada em poemas e narrada em odes após a invasão francesa de 1809.

No que toca mais propriamente à região felgueirense, aportando episódios relacionados à história de lugares e gentes locais, merece registo memorial o sucedido ato de defesa do povo de S. Jorge de Várzea, reportando à ocorrência referida da mata do Barrôco, numa das zonas que hoje integram a Quinta de Maderne, uma propriedade de tradição como até ficou referida no livrinho “S. Jorge de Várzea: História e Devoção” (escrito pelo autor deste blogue, também, e publicado em 2006, em edição da Paróquia de Várzea). Tal qual o facto da feliz salvaguarda do livro de escrituras dos antigos limites territoriais do concelho de Felgueiras,  em sua anterior delimitação, quando ainda existiam outros concelhos depois com terras integradas no Termo de Felgueiras, como os de Unhão e de Riba Tâmega, segundo narra o publicista já falecido sr. Manuel Bragança no livro “Entre Felgueiras e Amarante… um incidente de delimitação” (ed. 1946). Bem como de tais sucessos é de registar, por fim, a lenda do caso aludido no artigo sobre o esconderijo e posterior desenterramento dos sinos de Airães – conforme bem conta o presidente da correspondente Junta de Freguesia, autarca que serve de exemplo no concelho, o amigo Vítor Vasconcelos:


«Diz a lenda que os sinos da igreja de Santa Maria de Airães teriam sido enterrados em terrenos limítrofes com a freguesia vizinha da Pedreira.
Estes factos devem ser contextualizados durante a 2ª Invasão Francesa, em 1809, que espalharam o terror pela região, com pilhagens, violações e mortes!
Perante a ameaça e pânico dos franceses, supostamente a população de Airães teria escondido e enterrado os seus valores mais preciosos, evitando a sua pilhagem e destruição, em especial a Imagem da Padroeira, Santa Maria de Airães (que alguns relatos afirmam ter-se partido o nariz durante o desenterramento) e os sinos da igreja.
Com o regresso da paz e a fuga dos franceses, alguns habitantes da Pedreira teriam tentado desenterrar os sinos, com o intuito de os levar para a sua freguesia. Apesar da valente junta de bois e do valoroso grupo de homens, a verdade é que não conseguiam remover os sinos do local, que teimosamente se mantinham inamovíveis.
É então que uma velha senhora, puxando uma débil vaca, irrompe naquele cenário, perante o escárnio e gozo dos presentes. Indiferente e pacientemente, atou a sua fraca vaca aos sinos. O riso era evidente entre os presentes, mas, perante a ordem de “É para Santa Maria de Airães”, a pobre vaca começou a arrastar os sinos, tomando a direção da igreja de Santa Maria de Airães, diante do espanto e perplexidade de todos, que rapidamente desistiram dos seus intentos, na presença de tão miraculosa manifestação divina!»


A. P.
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