Pois foi! Um homem da Longra esteve mesmo no movimento militar que fez o golpe do 25 de abril. O então jovem militar Carlos Guimarães Moreira, natural e residente da Longra, da freguesia de Rande e concelho de Felgueiras.
Desde
a madrugada desse dia, saindo do quartel de Estremoz, ele que era condutor na
tropa, foi um dos que conduziu os militares em direção a Lisboa, entrando pelo
Cristo-rei e instalando-se em ponto estratégico. Até que por fim ele e seus
camaradas de armas estiveram no Carmo, em frente ao quartel onde se deu a rendição
de Marcelo Caetano, quando caiu oficialmente o antigo regime político com a
saída do até aí Primeiro-ministro do regime deposto.
O Carlos era então um jovem em idade militar, dos que nesse tempo da guerra colonial tinham de ir para a tropa, e ia tudo a eito, como se dizia. E quem não fosse, como acontecia com os que emigravam para fugir à tropa, eram dados como refratários, como se dizia também, e não mais poderiam regressar à Pátria, melhor dizendo à terra mátria. Ora o amigo Carlos, que comigo andou na escola, embora em classes mais adiantadas pois é mais velho coisa duns dois anos, também foi dos meus colegas das brincadeiras pelos caminhos das quatro barrocas e nos ensaios para o Rancho Infantil da Longra, além das idas à catequese, às confissões, até à missa, etc. e tal. Depois, porque lhe faleceu o pai em França, era ele ainda muito novo, e tendo lá o irmão mais velho na nação gaulesa, de onde se mandavam francos que bastavam, ele foi lá para a França e por ali passou bons anos dos inícios de sua juventude. Mas como não queria ficar lá para sempre, quando chegou a respetiva idade veio dar a tropa, ou seja regressou temporariamente para fazer o tempo obrigatório de serviço militar. Tendo inclusive essa vinda entretanto tido até influência em sua vida futura, mas isso é outra história.
Estava então ele no quartel de Estremoz quando se deu o “25 de Abril”…
Ora, o Regimento de Cavalaria n.º 3 (RC3) de Estremoz,
situado no Convento de São Francisco, desempenhou então um papel relevante no 25 de
Abril de 1974. Embora o epicentro fosse Lisboa, o RC3, conhecido como
"Dragões de Olivença", teve militares envolvidos na Revolução. Havendo
sido mesmo o RC3 de Estremoz considerado uma das unidades militares “mais
influentes” no 25 de Abril.
Havia sido estabelecido: «Regimento de Cavalaria 3 (RC3) –
Missão: Marchar sobre Lisboa com uma coluna de auto-metralhadoras e estacionar
na zona da portagem da ponte sobre o Tejo, ficando a constituir reserva às
ordens do Posto de Comando». Depois na prática houve que adaptar tudo às circunstâncias
e os soldados lá saíram do quartel rumo a Lisboa. Inicialmente sem saberem bem
ao que iam e no que se iriam envolver, pois só os oficiais estavam por dentro
da situação, mas depois de lhes terem explicado, todos se entusiasmaram - como
conta o nosso amigo conterrâneo que lá estava e esteve em tudo aquilo, o Carlos
Guimarães Moreira.
Desde que, em plena noite escura, as «Chaimites» começaram a
rolar para fora do quartel, pelo portão das traseiras…
Para uma narrativa ajustada, partilhamos a descrição
constante do blogue “Do Tempo da outra Senhora”, com a devida vénia, de seu
artigo “Abril de 1974 - Estremoz presente na Hora da Libertação” - datado de
2010 - por Hernâni Matos (publicado inicialmente em 25 de Abril de 2010, de texto
inserido em seu livro "Franco-Atirador"):
«…O RC3 de Estremoz tinha à data dos acontecimentos do 25 de
Abril, quadros que haviam regressado da Guiné, nos finais do ano anterior. A
unidade propriamente dita, era uma das mais bem equipadas do sul do país. Era
sem sombra de dúvida, a mais forte em termos de material blindado, pelo que o
comando do Movimento contava decisivamente com ela para o êxito da acção.
É no próprio dia de arrancar com a acção que os capitães
Andrade Moura, Alberto Ferreira, Miquelina Simões, Major Fernandes Tomaz e
outros conseguem conquistar para a sua causa o comandante da unidade, coronel
Caldas Duarte. E quando a rádio passa conforme combinado, a canção “Grândola
Vila Morena" de Zeca Afonso, inicia-se de imediato no quartel do RC3, sob
o comando do capitão Andrade Moura, a formação do esquadrão que vai participar
na acção militar, carregam-se munições nos blindados e prepara-se a saída. Logo
que armado e municiado, o esquadrão fez-se à estrada. Em viatura civil, à
frente dos batedores, ia o capitão Miquelina Simões e outro oficial. Alguns
quilómetros atrás, o esquadrão sob o comando do capitão Andrade Moura e como
adjunto o capitão Alberto Ferreira. No final da coluna seguiam viaturas Berlier
com munições, água, combustível e óleo. Na acção participa o comandante da
unidade, coronel Caldas Duarte.
O esquadrão do RC3, partido de Estremoz tinha a missão de se
dirigir a Caxias a fim de libertar os militares e os presos políticos ali
detidos. Quando está na zona da Ponte Salazar, o comando do MFA decide alterar
a missão, dando ordens para que o esquadrão do RC3 se dirigisse para o Largo do
Carmo, em Lisboa, onde um esquadrão da Escola Prática de Cavalaria sob o
comando do capitão Salgueiro Maia estava a ser pressionado por numerosas forças
da GNR, fiéis ao regime. O esquadrão do RC3 atravessa a ponte a toda a
velocidade e com determinação e jogando com o factor surpresa, apanha
completamente desprevenidas as Forças da G.N.R., que se vêem de repente
cercadas por um anel blindado. Na sequência deste envolvimento, um oficial da
GNR dirige-se ao esquadrão do RC3 para dialogar, a fim de evitar um
derramamento de sangue. O capitão Andrade Moura exige então a retirada em boa
ordem das forças da GNR que não tinham aderido ao movimento, o que aconteceu
cercas das duas horas da tarde de 25, enquanto o RC3 impede qualquer reacção
hostil às forças da GNR. O RC3 isola então completamente a área frente ao
Quartel do Carmo, ocupada pelo esquadrão do capitão Salgueiro Maia. Mais tarde
verifica-se a rendição do Chefe do Governo, Marcelo Caetano, aí refugiado, ao
General António de Spínola.»
E então lá esteve o Carlos Guimarães Moreira!
Assim se mantem viva a memória dessa época, da ocorrência
histórica e de seus intervenientes. Algo que, na passagem de mais um
aniversário dessa data inesquecível, se comemora a preceito, aqui com estas
recordações escritas. Em homenagem a um dos participantes nas operações, e
que, como tal, participou no Esquadrão de Reconhecimento, comandado pelo capitão
Andrade Moura, bem como depois sob o comando do Capitão Salgueiro Maia, nas movimentações
militares de 25 de Abril de 1974 que derrubaram a ditadura.
Armando Pinto
Nota: Imagens do blogue referido. Tendo sido captadas no regresso ao quartel, quando sob efeito do cansaço, alegria do dever cumprido e sentimento da vitória, a coluna militar regressava a casa. Que o jornal de Estremoz publicou.
((( Clicar sobre as imagens )))


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