sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Considerações a propósito do Pão de Ló de Margaride – em mais um artigo no Semanário de Felgueiras


O felgueirense Pão de Ló de Margaride é feito essencialmente com massa levedada duma crescente mistura de farinha e ovos caseiros, sem corantes, mais toque dum segredo vindo de gerações antepassadas, como massa do cunho felgariano. Qual doce tradicional mesmo genuíno desta região, através de roscas fofas, como se nota em manual corte na aveludada secura da própria massa, cuja textura se mantém fresca (em bom estado) durante dias. Algo que finalmente vai ser garantido em autenticidade, através de certificação oficial.

Ora, aqui entre nós, estando na massa do sangue o apreço ao que é verdadeiramente felgueirense, quanto à defesa e salvaguarda da memória coletiva concelhia, sobre o caso tratamos por meio de alguns aspetos desse tema, em mais um artigo das crónicas de quando em vez lavradas por escrito, dentro do possível.

Assim da crónica escrita para o Semanário de Felgueiras dá-se aqui e agora nota, enquanto do mesmo artigo se junta o texto da respetiva coluna publicada na correspondente edição do SF de sexta-feira dia 8.

Está na Massa…

Segundo uma frase feita de contornos publicitários, o segredo está na massa, como se exprime em termos de força, qual lema provindo duma tradição culinária que ganhou impacto. Assim como quem diz da diferença estar na qualidade e maneira de produzir dum produto.

Vem a propósito uma recente notícia chegada por via da comunicação social, aparecendo em títulos difundidos por diversos quadrantes estar em curso um processo de certificação do pão de ló felgueirense, entretanto aprovado, através de iniciativa visando tornar oficial no papel, como se diz também, o Pão de Ló de Margaride como produto regional certificado.


Ora, assim sendo, com tal concretização, o genuíno pão de ló de Margaride, enxuto e leve, conforme o próprio transporta da leveza do nome, vai ser finalmente honrado na sua autenticidade, numa feliz ideia de verdadeiro interesse felgueirense, sem dependências de associações a outras zonas. Sendo que o processo de certificação, no âmbito dum projeto apoiado por fundos comunitários, terá de respeitar várias exigências ao nível do receituário regional, fabrico, embalagem e definição de ingredientes, entre outras características. Esperando-se que seja respeitada oficialmente a mesma propriedade dum concelho como Felgueiras, que tem preservado esta tradição centenária através de antigos saberes e manutenção dos ancestrais sabores. Com objetivo, subjacente no caso, da criação duma denominação de origem enquanto produto tradicional, que reconheça ao pão-de-ló de Margaride o seu caráter tradicional e genuíno, para atribuição pela Associação Empresarial de Felgueiras de um selo que garantirá ao produto a sua pureza. Atendendo ao fabrico artesanal provindo de séculos e à atividade empresarial há mais de um século, incluindo reconhecimento real em tempos recuados e apreciação global no amassar dos tempos até à atualidade.

Havendo no território felgueirense várias empresas do setor, a maioria de dimensão familiar, que se dedicam ao fabrico daquele doce regional e de outros como as cavacas de Margaride, seria ainda de aproveitar a ocasião para vincar também as características das cavacas de Felgueiras, de feição redonda coberta por circulares riscas açucaradas, visto haver noutras áreas alguns doces diferentes com o mesmo nome, ao passo que as cavacas como as conhecemos já eram referidas em narrativas de eras antigas, desde pelo menos tempos de Camilo Castelo Branco, por exemplo, ele que conheceu bem Felgueiras nas suas visitas ao Padre Casimiro Vieira, radicado em Margaride, na encosta do Monte de Santa Quitéria, depois da revolta do movimento popular Maria da Fonte.

Então, vem a talhe extensivo, ainda, como num encher da forma, porque há mais no ADN concelhio, igualmente ser de identificar características com alguma representatividade, sendo já tempo da sede de Felgueiras ter entretanto algo simbólico de alusão à tradicional rosca do pão de ló felgueirense, bem como noutros sítios haver outros relacionamentos, lembrando a metalurgia na Longra, bordados na Lixa e Airães, calçado em Torrados, Lagares e Barrosas, tal como nem ficava nada mal na cidade de Felgueiras qualquer coisa monumental alusiva ao mister de sapateiro, numa das rotundas por exemplo, sem necessidade de seguir linhas de sapato alto duma Joana Vasconcelos, nem sequer qualquer projeto dum Siza, mas descalçando uma bota, ao menos, de afinidade concelhia. Ao jeito como por cá há também quem alinhave umas coisas em parâmetros diversos da criação artística, cultura histórica e mais.

Diz o rifão que o segredo está na massa, quanto no aspeto da diferença conta a qualidade. Importará então assinalar e sobretudo defender a marca do que é de cá, do ser felgueirense. Ou como escreveu Shakespeare, ser ou não ser - eis a questão. 

ARMANDO PINTO
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