sábado, 7 de novembro de 2015

Desfolhadas e Culto dos Mortos nas Tradições de Outono


Passados os dias em que as abóboras foram rainhas da festa, como aconteceu na noite em que tiveram primazia as botefas esburacadas a fazer de caveiras, chega ocasião de se recordar algumas das antigas tradições relacionadas que antigamente eram uso da nossa região felgueirense.

Pois então, no tempo outonal do cair das primeiras folhas, após época das vindimas, assenhoreia-se a era das desfolhadas típicas da região, bem como derivadas curiosidades da memória local.

Em iniciativas que têm subjacente a preservação de antigos costumes, nos tempos que correm vão-se ainda realizando algumas desfolhadas tradicionais, agora normalmente no âmbito de atividades de Ranchos Folclóricos, mediante os quais elas são levadas a efeito em diversos locais. Tais recriações dessa antiga festa doméstica popular, além de servirem de convívio de grupos congéneres, têm o condão de juntar interesse da população, contando quase sempre com o calor da presença de muita gente curiosa e interessada, prestando-se ainda isso como jornada de trabalho das agremiações etnográficas, cujos elementos por norma trajam à maneira antepassada, servindo a preceito para fixação fotográfica de diversas fases dessa faina, em vista a recolha documental para acervo de memória arquivista.

No entanto, embora as desfolhadas tenham ganho estatuto saudosista nas cambiantes mais típicas, ora revivalistas, ainda existem trabalhos desses, contudo, através de serões passados nos beirais das quintas que restam de amanho doméstico, realizando-se assim desfolhadas caseiras ainda no início do século XXI (pelo menos em determinadas zonas), só que em menor escala e sem grande alarido nem demasiadas atenções, no sentido congregador de gente, como noutros tempos. Tal qual a maneira de lidar com o desfolhar das espigas, sem tanto esmero nem precaução de separação das folhas (pois que antigamente o folhelho tinha aplicações no enchimento de colchões, por exemplo), já que nos tempos atuais os restos rifados são apenas tidos como desperdícios.

=Desfolhada particular, no caso numa propriedade da região, em 2002, com gente do Rancho da Casa do Povo da Longra. =

Pois o caso traz a talhe um vislumbre recordatório. Com efeito, nas desfolhadas antigas, finda a labuta diária e amontoadas as espigas às cibanas na eira ou no beiral (conforme o aspeto meteorológico), juntavam-se aos da casa os casais vizinhos mais a filharada e amigos comuns, além da juventude da zona que ia no fito de namoriscar as beldades locais, através das danças preambulares, conversas de distração durante o trabalho, abraços da praxe se fosse ocasião (de quando aparecia uma espiga-rainha de milho-rei avermelhado) e, por fim, nas danças do encerramento, enquanto todos cantavam, sempre com preocupação de não deixar qualquer “pombo”, que era o folhelho em montão preso ao estrepe saído da espiga – devendo as folhas ficarem soltas, para que servissem ainda para encher colchões e travesseiros de camas, como para fabricação de mortalhas de enrolar cigarros, passado tempo, depois de secas e passadas a ferro...

Nesse trabalho de diversão amenizado, ao passo que se desfolhavam as espigas em conjunto, punham-se grupos à porfia a cantar, homens e mulheres, rapazes e raparigas, enquanto os cestos eram cheios quase por brincadeira. E, para além das cantigas, durante a desfolhada comia-se e bebia-se, pois que na “tira” o anfitrião mandava a mulher (esposa) e os filhos procederem à distribuição de pão e aguardente ou vinho, fruta e o que calhasse, após o que toda a gente só pensava na dança habitual. De permeio, na roda de dança, a roubar o par por costume, cantava-se sempre mais e mais. Na ocasião, por sistema, uma tocata costumava animar o ambiente, culminando tudo em danças de roda após preparo do local com habitual varredela da eira com canhos, seguindo-se então momentos agradáveis com danças de viras gerais, à conquista de corações. Paixões que, por vezes, quando acirradas em rivalidades, descambavam em zaragatas, quantas vezes por meio de lutas do jogo de pau.


Mas a quadra em apreço ainda transporta a outras recordações, pois que também, relacionado com estes hábitos populares, ocorriam nos idos tempos de antanho outros curiosos costumes no percurso desses trabalhos comunitários. Assim, na ida para as desfolhadas e no regresso das mesmas, havia a tradição de a brincar se lembrar as almas do outro mundo. Então, esse rito alongava-se à proximidade do inverno, quando as noites eram mais cerradas e frias. Por ocasião dos “Santos” cumpria-se, dessa forma, um ritual associado ao culto dos mortos. Nessas caminhadas, iluminadas por lampiões contra a escuridão da noite, indo as mulheres envoltas em xailes, vulgo malhões, os homens em espessas samarras, e a juventude de quente sangue na guelra, ciosa de que a noite não tinha cancelas, com suas cantigas acordava o ar gélido e dava largas à folia. Então os rapazes, para impressionar as raparigas e espairecerem o ambiente, seguindo os usos, exibiam “botefas” (abóboras) ocas e esburacadas com recortes a imitar olhos, nariz e boca em arremedo de caveiras, as quais eram iluminadas no interior com velas acesas – dando um efeito tétrico, desanuviado no entanto pela algazarra alegre dos conjuntos de ranchos de pessoas que entoavam bem alto cantigas de seu gosto.

= Conjunto de membros do Grupo de Teatro da Casa do Povo da Longra, em representação alusiva, como participantes no Desfile da Noite das Bruxas, pela Longra, na passagem de 31 de Outubro para 1 de Novembro – em 2002.=

Era pois a época dos Finados. Passado Outubro, “que recolhe tudo”, o calendário traz a evocação dos mortos no princípio de Novembro. O culto da saudade dos finados, porém, não tinha apenas afinidade religiosa, mas também relação com a etnografia e o folclore. Aspetos sociais que sempre respeitaram a memória dos antepassados, desde ereção popular de velhos cruzeiros colocados em sítios de antigas ocorrências funestas e painéis votivos de Alminhas em alusão e prece às penas do Purgatório, no sentido de permanente lembrança dos desaparecidos, até à afirmação patente no cuidado com os restos mortais dos ente queridos nos cemitérios, em tudo, enfim, evocando-se e sentindo o silêncio da morte.

Antigamente, em terras do concelho de Felgueiras, essa índole tinha anual comemoração popular, cujo ritual começava na noite dos Santos, como o povo aludia ao Dia de Todos os Santos e Fieis Defuntos (assim celebrados conjuntamente, apesar de distribuídos por dois dias seguidos, em datas dedicadas pela Igreja). Esses hábitos tradicionais reluziam com a colocação de luzes em pontos visíveis no exterior das habitações, por meio de candeias, lamparinas (com pavio a arder em azeite) ou velas, em louvor dos saudosos defuntos.
 
Costumes diferentes dos que agora, de finais do século XX aos princípios do XXI, começaram a ser importados do estrangeiro com a chamada noite das bruxas, alegando andar o diabo à solta – talvez enfurecido, sabe-se lá, com a lembrança dos defuntos santificados, mas não só, derivado a tudo o que anda associado ao espírito nas crenças remotas.

Havendo sobretudo um claro sentido da vida eterna, o facto espairecia contudo nas tradições próprias da época, pois que só tristezas não pagam dívidas, conforme se diz. E, com estas e outras formas, o povo sempre procurou fazer da morte uma razão saliente da própria vida.

Armando Pinto

(Crónica publicada no Semanário de Felgueiras há já alguns anos, com adaptações para trabalho guardado para um futuro livro, à espera de possibilidade de publicação).

A. P.

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