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domingo, 4 de janeiro de 2026

Evocação duma peça cénica «O Nascimento do Menino-Deus» por um antigo Grupo de Teatro da Longra

  

Ainda dentro da quadra natalícia, do Natal até aos Reis, vem a calhar fazer uma rememoração evocativa, recuando a eras remotas, sobre uma peça de teatro levada à cena por um grupo de teatro antigo, dos que em tempos idos existiram na Longra - na pertinência de seu enredo, como história teatral contada em cinco atos sobre a Natividade do Menino Jesus. Dando o tema oportunidade para relembrar como por tempos idos subsistiram na Longra ações culturais, incluindo grupos de teatro que se foram revezando ao longo dos anos. Tal o caso desta vez a lembrar, de um grupo de Teatro que em 1931 subiu ao palco com a peça “O Natal do Menino-Deus”.

Ora, como está historiado no livro grande “Memorial Histórico de Rande e Alfozes de Felgueiras”, publicado em 1997 (como abaixo se exemplifica por duas páginas), entre esses grupos, houve nos inícios da década dos anos 30 um associado à antiga Associação Pró-Longra, dentro de cuja coletividade existiu uma equipa de futebol e também o grupo de teatro, mais conhecido ao tempo por Teatro José Xavier, o seu fundador. Grupo esse que ensaiava nas instalações da fábrica do sr. Américo Martins, a fábrica de Móveis de Ferro do Largo da Longra, porque na época estava ainda em construção a sede da Associação, Tendo o grupo teatral dado continuidade a realizações anteriores de autos populares. Com tal importância que na população esses autos chegavam a ser decorados pelo povo, cujas pessoas conterrâneas repetiam por vezes algumas das falas que ouviam dos atores, mas mais, já aí e também nas peças dos grupos seguintes, os nomes dos intérpretes eram depois associados aos dos próprios atores, chegando a ser conhecidos os mesmos pelos nomes dos figurantes que representaram. A ponto desses apelidos por vezes terem passado aos descendentes, no conhecimento popular.

Desses grupos, extensivamente a outros de alguns locais do concelho, foi também algo referido no pequeno livro “Grupo de Teatro da Casa do Povo da Longra - Sete Anos na Arte de Talma Associativa”, de 2003, então a comemorar a passagem do 7.º aniversário desse que foi o mais recente grupo de teatro local.

Pois o tema, que vem a calhar para mais uma lembrança memoranda, tem ainda curiosidade acrescida dessa mesma peça ter chegado a ir até outras terras no decurso de mais algum tempo. Como por exemplo, nesse mesmo ano, mas já a chegar à Páscoa, foi no Domingo de Ramos mostrada num espetáculo realizado no concelho de Lousada, no lugar do Bairro da freguesia de Casais, em tarde recreativa ali acontecida. Como noticiou um jornal de Lousada (“Heraldo”, de 28/3/1931, p.ª 3), possivelmente por haver ligação com o ensaiador do mesmo grupo. Sendo curioso esse facto do ensaiador ser António Gorgel, referido na notícia, que em Lousada foi pessoa de proa da arte teatral («importante figura do meio sociocultural de Lousada, onde nasceu e residiu, dinamizando muitas iniciativas, entre as quais a dramaturgia e encenação de outras peças»). Que ao tempo era então escriturário-chefe da fábrica do sr. Américo Martins, na Longra. Mas é curioso que das pessoas antigas com quem contactei aquando da pesquisa para o meu livro da história da região (que comecei em 1974, tinha eu cerca de 20 anos... e por isso ouvi pessoas já então com oitenta e noventa anos) ninguém se referiu a esse sr. Gorgel, talvez por o conhecerem com algum outro nome ou algum apelido. Vindo a talhe o caso interessante de na antiga fábrica grande da Longra (desde a primitiva do Largo da Longra até à sua transferência para a reta da Arrancada da Longra já como Metalúrgica) ter havido tradição de colocação de apelidos entre os colegas, com os quais eram conhecidos no local de trabalho, derivado de alguma caracteróstica - cujas alcunhas quantas vezes perduraram no tempo, embora mais a nível local e entre conhecidos.

Eis a  notícia, que se respiga com as curiosas revelações que transmite. 

Armando Pinto

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