Tendo por estes dias passado no 2.º Canal da Radiotelevisão
Portuguesa, atualmente chamado de RTP 2, uma lembrança sobre imagens antigas
relacionadas com Felgueiras, chamou a atenção o facto, tratando-se de fugaz
passagem a ilustrar a inauguração oficial da então Adega Cooperativa de Felgueiras,
acontecida em 1959. Algo que assim passou no programa Preto no Branco, de
reposição de imagens do Arquivo da RTP, como que olhando desde o início da
Radiotelevisão Portuguesa e revisitando o passado, no tempo em que se vía
Portugal a preto e branco.



Ora a Adega Cooperativa de Felgueiras foi fundada em 1957, precisamente
no mesmo ano do surgimento da televisão em Portugal. E começou a laborar em
1959, ano em que foi inaugurada oficialmente, conforme as imagens de arquivo da
RTP. Sendo referido na peça televisiva que “foi pelo Governador Civil do Porto inaugurada
a Adega Cooperativa de Felgueiras”, em 1959. Curiosamente, nas revistas
publicadas aquando das comemorações de anos jubilares da instituição, entre os dados históricos
referentes à mesma Cooperativa apenas é referido o ano da fundação e o do
início da laboração, sem constar a inauguração.
A propósito deste tema, vindo à lembrança com a vista das
imagens passadas na RTP 2, recorda-se um artigo em tempos publicado no jornal Semanário de Felgueiras, com alguns acrescentos posteriores, duma lavra de anos
atrás, já.
Associativismo Cooperativo em Felgueiras:
Sindicato Agrícola - Grémio da Lavoura e Adega/Cooperativa
Sendo Felgueiras um concelho com significativa posição no
sector agrário, inserido em plena zona demarcada do vinho verde, com cabimento
tem entre as suas organizações associativas de peso a Cooperativa Agrícola,
sucessora da antiga Adega, por sua vez herdeira do Grémio da Lavoura e do
pioneiro Sindicato Agrícola, em sequência retroativa.
Tudo começou em finais do século XIX com a criação
de um organismo local congregador dos interesses agrícolas do concelho, numa
iniciativa de associativismo do sector então primordial da região. Estava-se em
tempos de revolução de desenvolvimento industrial, em que Felgueiras ainda
estava algo alheia, confinada a oficinas artesanais, enquanto a agricultura
passava por estagnação acomodada de séculos, pese ser ao tempo a lavoura o
sector dominante no panorama económico regional. Na tentativa de alterar a
situação, visando alcance evolutivo, um grupo de homens de acção resolveu
seguir as linhas em vigor de implementação do associativismo. Entusiasmados com
a ideia, meteram ombros a projecto de fundação de uma colectividade de defesa
dos interesses dos agentes agrícolas. Foram mentores da sua criação o Dr.
Manuel Baltazar Leite de Vasconcelos, da Casa de Cabeça de Porca, e o
Conselheiro Dr. António de Barbosa Mendonça, da Casa de Rande, acompanhados por
João Seara, Inácio Vasconcelos, Dr. António Costa Santos, Dr. António Vasconcelos,
António Brochado, Dr. António Brandão, Dr. Henrique Menezes e outros, que
criaram em finais de 1895 o Sindicato Agrícola de Felgueiras. Desde logo
organizando-se, conforme atestavam as bases estatutárias, cujo regulamento foi
impresso em 1896 – “Estatutos do Syndicato Agricola de Felgueiras”, de 10
páginas, publicado pela Imprensa Nacional-Lisboa, em 1896. Inicialmente teve
instalações divididas em aposentos cedidos por dois associados, na vila de
Felgueiras (a sede social num 2º andar, de Manuel José Antunes, e o depósito
numa dependência de Eduardo Menezes Coelho); depois esteve na Casa de Vila
Baía, em cedência temporária da Misericórdia de Felgueiras, ainda na sede do
concelho. Vivendo as atribuladas condições da época, patente nas diversas instalações
que teve por sede, dependências de depósitos e armazéns, mesmo assim teve este
Sindicato um órgão de informação, o jornal “Semana de Felgueiras”, criado em
1896 sob a direcção do Conselheiro Dr. António Mendonça e de João Seara,
contendo inicialmente no cabeçalho o nome responsável-directivo de Francisco
António de Medeiros Machado. Jornal mais tarde transformado em tribuna
literária e informativa passando a ser propriedade do Dr. António Mendonça. A
instituição também tivera entretanto sede em Varziela, numa casa que por esse
facto era conhecida por casa do Sindicato (depois denominada por Bom Repouso,
com novo nome esculpido na frontaria). Na evolução natural, o mesmo Sindicato
Agrícola juntou-se na década de vinte à Cooperativa de Consumo “A Felgueirense”,
de permeio formulada e em cujas instalações o Sindicato se instalou em 1926,
anexando-lhe depois um armazém. Na década de 30, quando era Presidente Joaquim
Ferreira de Paiva Sampaio e Gerente o Padre António da Fonseca Magalhães, foi na
vila de Felgueiras construído de raiz seu edifício-sede, transformando-se em
organização denominada Cooperativa Agrícola Felgueirense, que passou a funcionar
também com loja de vendas, nesse prédio do antigo Campo da Feira de Gado
(actual Praça Vasco da Gama). Até que em finais dessa década, com a criação dos
grémios, foi alterado o seu pacto estatutário para Grémio da Lavoura de
Felgueiras, criado oficialmente por Decreto de 10 de Dezembro de 1940.

Passados anos, foi em 1957
formada a Adega Cooperativa de Felgueiras, criada por 51 sócios, alguns dos
quais também do Grémio, sendo oficializada por escritura de 24 de Julho e
aprovada por Alvará de 3 de Outubro seguinte. Agremiação essa que passou a
laborar em 1959, ao dispor de boas instalações construídas no lugar das
Idanhas, barreira sul da então vila. Organização esta posteriormente
transformada em Cooperativa Agrícola por outro Alvará de 30 de Setembro de
1977. Embora, no conhecimento popular, sempre mais conhecida por Adega de
Felgueiras.
Devido a alterações de
habilitações, relacionadas com as modificações da vida social do país, houve em
1974 extinção dos grémios, pelo que, decorridas décadas de produtivo labor, foi
o Grémio da Lavoura e seu património integrado na Cooperativa, como instituição
de alcance e representatividade do sector. Desde aí consignada como Cooperativa
Polivalente e englobando as instalações do Campo da Feira e das Idanhas, passou
a ser chamada de Cooperativa Agrícola de Felgueiras, S.C.R.L., código
cooperativo transformado em 1983 para C.R.L., com secções de viticultores,
produtores de leite, de aprovisionamento e escoamento de produtos, e pecuária.
Fruto da gestão empreendida, depressa a Cooperativa Agrícola de Felgueiras deu
passos em frente na sua implantação, apoiando actividades afins como foi, em
1986, a abertura da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Felgueiras, antes
instituída em Maio de 1985; tal como firmou marcas próprias de vinhos, levou a
efeito acções de formação e especialização de empresários do sector, incluindo
jardinagem, produção de plantas, operadores de máquinas, doces regionais, etc.
Bem como se transfiguraria ainda posteriormente, na década de noventa, para
nova denominação de Cooperativa Agrícola de Felgueiras-Caves Felgerias Rubeas,
CRL, cujos estatutos renovados tiveram oficialização escriturada em Outubro de
2000, acrescentando às suas secções mais as de organização de produtores
pecuários para a defesa sanitária, gestão, horto-fluri e fruticultura,
florestal, produtores e engarrafadores de vinhos de quinta, protecção e
produção integrada das culturas de vinha e outras, entre as quais a Actinidea
(vulgarmente conhecida por “Kiwi”) e de produtores de mel.
A referida Caixa de Crédito
Mútuo seria mais tarde alargada aos domínios da região circunvizinha, deixando
de estar vinculada à Cooperativa de Felgueiras, por fusão resultante de
incorporação com congéneres de concelhos vizinhos, passando a chamar-se Caixa
de Crédito Agrícola Mútuo de Terras de Sousa, Ave, Basto e Tâmega, CRL, contudo
mantendo sede administrativa em Felgueiras.

Embora mantendo alguns
serviços no edifício do antigo Grémio, durante anos, a sede da Cooperativa ganhou maior
expressão nas Idanhas, nas suas amplas dependências, onde, para lá de balcão de
venda geral, criou loja adjacente de venda de produtos tradicionais, a juntar à
capacidade de laborar e envasilhar vinho das uvas recebidas dos associados.
Produzindo vinhos de marcas de diversas qualidades, por diversas vezes
premiados em vários certames. Tal qual colaborando com realizações de âmbito
social concelhio, como aconteceu, na década de oitenta, do século XX, com a
localização da Felmostra e, em princípios do século XXI, a Feira de Maio. Evoluindo e transformando-se no decurso do tempo (sendo a situação descrita até à época da escrita destas simples anotações).

Feita em traços largos uma
resumida retrovisão do percurso histórico pela existência antepassada de
associativismo agrícola local e, consequentemente, pela sucedânea Cooperativa
de Felgueiras, releve-se alguns nomes salientes na vida desta instituição que
perdurou no tempo, como foram os fundadores, entre os quais o primeiro
presidente, Dr. Augusto Leite da Costa Faria, mais o Dr. António José Ribeiro,
Joaquim Francisco da Fonseca, Joaquim de Carvalho, Luis Augusto de Vasconcelos,
Albérico Sobral, Dr. Abel Tavares, etc; e os sucessivos presidentes Tenente
Coronel António Moreira Peixoto, Dr. José de Barros Carneiro, Padre João
Ferreira, Dr. Artur Pacheco Mendonça, D. Ana Maria Vasconcelos, Aurélio
Carvalho, Dr. Manuel Faria, Eng.º Casimiro Alves; mais restantes dirigentes, em cujos orgãos sociais há certo realce para o atual presidente do Conselho Fiscal, José Luís Martins, entre muitos empenhados
associados e cooperadores, sem esquecer os dedicados funcionários, ao longo dos
tempos.
Armando Pinto
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