A Câmara Municipal de Felgueiras, através da coordenação de
responsáveis da Biblioteca e Arquivo Municipal, vai proximamente fazer uma exposição
dedicada ao célebre felgueirense piloto-aviador pioneiro Francisco Sarmento Pimentel.
A ter lugar na Biblioteca Municipal de Felgueiras, naturalmente. Numa iniciativa
que se estenderá por outros números complementares, como será no dia de
abertura a visita pública à casa onde nasceu esse ilustre conterrâneo do
passado. No âmbito de se ter completado este mês de maio mais um aniversário
natalício do ilustre Filho de Felgueiras, em apreço, nascido em 1895 e falecido
em 1988.
Um acontecimento que, como obviamente será divulgado em
tempo oportuno pela entidade promotora, não compete ser aqui, por este meio,
mais pormenorizado. Apenas se lhe dedicando por ora esta atenção, pelo apreço
pessoal que a mesma merece, sendo que será uma realização com o cunho da
respetiva curadora da exposição, Dr.ª Manuela Melo, com quem é sempre uma honra
poder colaborar sempre que necessário.
Assim, a talhe desta realização próxima, recordamos o grande
feito desse nosso conterrâneo – a 1ª Travessia Aérea de Portugal à Índia.
Transpondo partilha de texto que, em diversas fases, constou já de artigos da
colaboração pessoal ao jornal Semanário de Felgueiras.
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Agora não é novidade nenhuma andar de avião, alcançando
longas distâncias em escasso tempo. Mas noutros tempos, muito depois da
barcarola do Padre Gusmão, de Da Vinci fazer projetos, Júlio Verne imaginar
como seria e mesmo dos primeiros saltos dos irmãos Wright, até Santos Dumont
ter planado significativos metros no ar, era uma aventura fazer andar aparelhos
a imitar os pássaros, mais para ligações aéreas de um ponto ao outro da terra,
como paulatinamente foi sendo alcançado.
Ora, nesse especto, as primeiras viagens aéreas e
posteriores voos de longas travessias pioneiras ganharam significativo apreço,
como tal, marcando época. Por assim dizer como certos acontecimentos imprimiram
cunho próprio em cada um dos seus momentos, ao que lembram exemplos
referenciais de modernidade evolutiva no automóvel pequeno, o carro mini
surgido em 1959, sem esquecer a mini-saia a partir de 1967 e o micro-chip
informático desde 1973.
Como na epopeia dos Descobrimentos marítimos de Quinhentos em que frágeis caravelas transportaram notícias até então desconhecidas do outro lado dos oceanos, pese as distâncias do tempo e espaço, também o ar foi conquistado heroicamente, muito depois naturalmente. O americano Read salientou-se desde logo, ainda não tinha terminado a segunda década do século XX. Poucos anos volvidos, os Portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral, em 1922, atravessaram pelo ar a distância de Portugal ao Brasil, através de etapas em que empregaram três aparelhos. Seguiram-se algumas outras experiências no decurso de alguns anos mais, com destaque para o “Raid” a Paris do também americano Lindbergh, em 1927, cobrindo rota de 5.800 quilómetros. Alguns portugueses, como Brito Pais, Sarmento de Beires, etc. tiveram também coragem para arriscados rumos, na mesma linha. Até que um Felgueirense, num só avião, realizou uma grande ligação – Francisco Sarmento Pimentel que, em 1930, efetuou a primeira travessia aérea de Portugal à Índia então Portuguesa, distância recordista de mais de 11.800 quilómetros que lhe valeu reconhecimento com trofeu da Liga Internacional dos Aviadores.
= Francisco Sarmento Pimentel =
Passaram todos estes anos desde que isso aconteceu, tendo a mesma travessia aérea sido iniciada a 1 de Novembro e durado dez dias úteis até alcançar espaço aéreo do Estado Português da Índia, com onze de tempo real à última etapa (fora alguns de espera até ter sido possível substituição de peça que se partira), havendo chegado à Índia Portuguesa, fazendo escala em Diu, no dia 18 do mesmo mês; embora a conclusão do itinerário tenha sido, depois, com aterragem em Goa no seguinte dia 19. Escusamos de refazer descrição do roteiro de viagem, com suas curiosidades, aflições como da tempestade surgida quase logo no início, muitas outras peripécias, dos sulcos rasgados no ar pelas asas à força de hélice forrada a tela, contratempo de avaria mecânica surgida, a penosa duração das horas levadas a sobrevoar o deserto da Síria, enfim, até ao campo de aviação de Murmugão onde pousou por fim o “Marão” pilotado pelo então Tenente Sarmento Pimentel, acompanhado na navegação pelo seu amigo Capitão Moreira Cardoso, naquele pequeno avião que Francisco Sarmento Pimentel adquirira a expensas próprias. Acontecimento, que na época mereceu as atenções concelhias, segundo os relatos de imprensa desse tempo, então denominado Raid Aéreo Lisboa-Diu-Goa, mas concretizado mais precisamente desde a Base Aérea Militar da Amadora até ao Indostão Lusitano. Viagem pioneira cuja autoria recebeu efusivas comemorações conterrâneas e inclusive homenagens municipais, incluindo colocação de uma lápide alusiva na casa onde nasceu, além naturalmente do reconhecimento a nível nacional e internacional.
Tudo isso e muito mais, incluindo referências da imprensa
nacional e estrangeira, já registamos inserido entre o material dedicado ao
“Raid” da Amadora a Goa e seu autor no “Memorial Histórico de Rande e Alfozes
de Felgueiras”. Mas, pela importância que tem para o orgulho Felgueirense, não
se pode deixar passar despercebido o evento, nesta oportunidade mais.
São do conhecimento público os motivos políticos que fizeram
com que a façanha daquele Felgueirense fosse menosprezada na época e
propositadamente olvidada anos a fio. Apesar da repercussão havida, ao ponto
de, entre sintomáticas manifestações, o então Ministro português titular da
pasta da guerra ter recebido do seu congénere de França um telegrama de felicitações,
em nome pessoal e no da aviação francesa, pelo bom êxito da viagem aérea até à
Índia... e a Liga Internacional dos Aviadores se ter apressado a distinguir o
autor da travessia com alusivo galardão. Agora, o que não se entende é como,
passados tantos anos e mudada a situação política há muito, reconhecido de
permeio o então Coronel Piloto-Aviador Pimentel (ainda em vida) mesmo com a
Ordem da Liberdade, ainda não haja sido feita a devida reabilitação e,
sobretudo, reconhecida como deve ser, a nível nacional, tal façanha (e até agora pouco tenha sido feito por isso também no
concelho natal do heróico aviador...) cuja autoria, inclusive, naqueles alvores
da década de trinta, apesar de tudo valeu condecorações, entre as quais as
insígnias da Ordem de Avis e da Ordem Militar da Torre e Espada de Valor,
Lealdade e Mérito!
Devido à ideologia política, Francisco Sarmento Pimentel,
viu-se posteriormente forçado a ausentar-se do país por via de exílio político.
Tendo o seu feito ficado quase que ignorado pelo regime do Estado Novo, apesar
das manifestações de apreço recebidas de governos estrangeiros. Em vista da
censura vigente, tal façanha esteve simplesmente riscada durante longo tempo
dos compêndios ditos historiadores e volumes enciclopédicos. Mesmo ao nível de
Felgueiras o facto pairou quase olvidado e manteve em sua aura uma penumbra
ditada por espécie de amnésia oficial de conveniência, cujos efeitos se
prolongaram muito para lá da ausência da democracia.
Felizmente que em tempos recentes começou a ser reparada a
memória desse vulto de audaz patriota, como se nota, por exemplo, em seu nome
já fazer parte de importante colecção como a “História de Portugal-Dicionário
de Personalidades”, volume XVIII, da Quidnovi, ed. 2004. E em Rande-Felgueiras
foi comemorado o seu 1º centenário natalício, em 1995, através de programa
conseguido por uma comissão que o autor destas linhas pôde congregar, iniciado
com uma missa na igreja paroquial, deposição de um ramo de flores junto à
lápide colocada em sua casa, mais um voo simbólico de uma avioneta sobre a
região, mais um cortejo de recreação revivalista dos tempos da mala-posta
(desde o Largo da Longra até à Casa do Povo) e abertura de uma Mostra
Filatélica e Exposição Museológico-postal que, durante uma semana cultural,
decorreu na Casa do Povo da Longra.
Francisco Ferreira Sarmento de Morais Pimentel, que viveu de 1895 a 1988, teve um percurso intensamente marcante, desde o berço natal no concelho de Felgueiras, onde nasceu na Casa da Torre, da freguesia de Rande, passando pelas diversas etapas distribuídas por variados pontos nevrálgicos da História da Grei. Até ter sido obrigado a sair do país e se radicar em São Paulo, no Brasil, onde construiu uma situação respeitável a prestigiar seu currículo. Consta da sua Folha de Serviço à Pátria a sua importante participação no movimento que derrotou a Monarquia do Norte, restaurando a República, em 1919, além da iniciativa e materialização da pioneira Travessia Aérea de 1930 que ligou Portugal à então Índia Portuguesa, o que por junto lhe valeu, entre outras distinções, haver sido agraciado com a Ordem Militar da Torre e Espada do Valor, Lealdade e Mérito, colar do grau de oficial com insígnia; Medalha de Comportamento Exemplar, grau fita-prata; Medalha de Bons Serviços, grau fita-prata com palma; Ordem Militar de Avis, com fita; e a Ordem da Liberdade, com insígnia-grau de grande oficial. De Felgueiras recebeu honra de figurar, ainda em vida, na toponímia da então vila e hoje cidade de Felgueiras, a par com colocação pela Câmara Municipal de uma lápide na casa onde nasceu, tendo muito mais tarde recebido, por solicitação vincada num órgão de imprensa concelhia, a oferta de uma medalha de Felgueiras numa das suas visitas de romagem à terra-mãe, antes de falecer. Para a posteridade, seu espólio memorial integra o acervo do Museu do Ar, em Alverca, na Ala dos Pioneiros.
= Vislumbre alusivo, em visita do Museu do Ar, com o autor deste trabalho junto à vitrine do seu heróico conterrâneo Aviador Francisco Sarmento Pimentel =
Longo voo o seu, a que tem correspondido curto reconhecimento,
estranhamente quase nada celebrado para o destaque atingido, merecedor contudo
do justo alcance. E se de mais não servir esta honra, para Portugal e
Felgueiras, ao menos fica a consolação de que é sempre bom ter-se
recordações...
Em extensão temporal, a justificar a valorização perene,
Felgueiras decidiu-se finalmente a homenagear o seu famoso aviador. Então,
mediante ideia de construção de um aeródromo, houve seguimento de antiga
aspiração do mesmo piloto aviador, embora na época ele tivesse tentado isso
para o alto de Santana (conforme se pode notar na biografia que se dedicou a
Francisco Pimentel no livro “Memorial Histórico de Rande e Alfozes de
Felgueiras). Assim, em 2006, por decisão tomada pela Câmara Municipal em
reunião de 8 de Agosto, foi aprovado por unanimidade o projeto “Visão
Estratégica do Aeródromo”, no âmbito da revisão do Plano Diretor Municipal de
Felgueiras – sendo decidido atribuir o nome do pioneiro Felgueirense da aviação
a essa estrutura a construir futuramente, o Aeródromo Francisco Sarmento
Pimentel, planeado para ser situado no planalto dos Maragoutos, em Revinhade
(num extremo do concelho de Felgueiras, de fronteira com Lousada).
Por ora, isto paira numa intenção ainda no papel… mas que, como
outros projetos, quem sabe se terá alguma viabilidade…
*
A façanha aérea de Francisco Sarmento Pimentel, para se ver
a sua importância social nesse tempo, constou entre as reportagens da
Ilustração Portuguesa, famosa publicação que foi das mais importantes revistas
portuguesas - publicada em Lisboa, semanalmente, e existente desde 1903 (em
título recuperado pelo jornal O Seculo, de antiga publicação de cariz
literário, apresentou fotografias de personalidades de vulto da cultura
portuguesa e crónicas da vida nacional, constitui assim, sem dúvida, um dos
mais relevantes acervos do quotidiano do primeiro quartel do século XX.
Pode comprovar-se o facto através de dois exemplos, extraídos de tão importante edição publicista:
= Ilustração Portuguesa, nº 118, de 16 de Novembro de 1930 =
= Ilustração Portuguesa (“Christmas”), nº 120, 16 de Dezembro
de 1930
Em edição dedicada ao Natal, e com anúncio vitorioso do
sucesso do Raide aéreo à Índia: "Os aviadores Cardoso e Pimentel voam no
'Marão' de Lisboa à Índia portuguesa empregando exclusivamente óleo Golden e
gasolina Shell"… =
ARMANDO PINTO