Espaço de atividade literária pública e memória cronista

Mostrando postagens com marcador Artigo curioso no jornal "Mensageiro de Bragança. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Artigo curioso no jornal "Mensageiro de Bragança. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Um artigo curioso no jornal "Mensageiro de Bragança" relacionado com pessoas historicamente populares de Rande/Felgueiras («Um inédito de A. Feijó dirigido à Guilhermina de João Sarmento Pimentel»)

(Respigo do "Mensageiro de Bragança")

OPINIÃO

A opinião de ...

Ernesto Rodrigues

(Artigo sobre um poema inédito de António Feijó)

« Um inédito de A. Feijó dirigido à Guilhermina de João Sarmento Pimentel

A principal correspondência de António Feijó (Ponte de Lima, 1859), nosso embaixador em Estocolmo, onde morre (1917), em posse do escritor montalegrense José Dias Baptista é dirigida ao conselheiro dr. António de Barbosa Mendonça, Casa de Rande, Longra, Felgueiras. O nome próprio é mais extenso (dedicatário em versos de Feijó, inscreve segunda preposição: António de Barbosa de Mendonça), e assim a sua intervenção cívica, sobrevindo (1938) ao amigo e à filha Maria Guilhermina de Barbosa Mendonça (1889-1912), a qual tem devoção popular nas redondezas.

Um dos autógrafos é “Sobre o rio Tchou – / – Do poeta chinez Thou-Fou –”, no Cancioneiro Chinês (1890, 1903), e, nas Poesias Completas (1939, 1940?, 2004), reduzido ao título “Sobre o rio Thchú”. Datado de «Coimbra, 10-4-83», comporta variantes assinaláveis.

A razão desta prosa, contudo, é uma Carte postale / Postkarte enviada a Maria Guilhermina, a passar férias na Filial do hotel Luso-Brazileiro, Póvoa de Varzim. Se o carimbo sobre o selo é ilegível, a data sob duas quadras e assinatura é de 8/9/910, seguindo-se terceira quadra, ausentes de Poesias Dispersas e Inéditas (2005), como 2004 curadas por J. Cândido Martins para as Edições Caixotim. Transcrevem-se as duas primeiras:

«Ao despontar d’aurora, a luz do dia / Envolve a terra n’um casto e doce enleio, / Brotando encantadora do seu seio / A vida n’um sorriso de alegria. // Mas quando dos seus raios a emergencia / Faz sorrir jovial a natureza / A mim faz-me chorar. É a tristeza / Que só me póde dar a tua ausencia…»

A terceira quadra, menos entrelinhada e de redacção microscópica, reza:

«Desculpae, senhora, o atrevimento / De vos mandar esses versos, que escrevi / Levado por um tão nobre sentimento, / Como nunca em meu peito outro senti.»

Feijó estava casado, desde 1900, com uma sueca (1878-1915) – e de D. Mercedes possui José Dias Baptista cartas escritas em francês –, pelo que, e também dada a relação com o pai de Guilhermina, não devemos interpretar aqueles versos como uma qualquer inclinação amorosa. Tanto mais que (e posta de lado a estranheza da declaração na terceira quadra) Guilhermina queria unir o seu destino a João Sarmento Pimentel (1888-1987)…

Com efeito, em Memórias do Capitão (1962, 1974), há um longo capítulo dedicado a “Guilhermina” (1974: 107-140), fundamental para acompanhar o jovem cadete na Revolução do 5 de Outubro, na Rotunda. Sem A. Feijó e a importância do conselheiro, a jovem passava-nos despercebida: era «uma amizade que vinha desde meninos» (p. 113), até ao «namoro com um republicanão» (p. 110) detestado pela mãe da futura noiva. A tísica, porém, estraga os planos do nascido em Mirandela, cuja evocação comovida de um amor, intervalada por ausências em Coimbra e em Lisboa, prova bem que laços fortíssimos os uniam.»

(Edição 3806)

Aqui partilhado por Armando Pinto