Padre Doutor Artur Leite Amorim: Uma figura do passado local
Tudo tem seu lugar no valor a dar aos alcances coletivos,
pois que (como afirmava o douto arqueólogo Dr. Pedro Vitorino), quem procura
verdadeiro alicerce da história nada deve desaproveitar, para que se não varra
a memória e o significado, do que seja.
Nessa ideia, coincide mais um mote, desta feita: Na evolução
social duma terra ou região, há sempre personagens que ficaram na lembrança
popular, por diferenciados motivos. Um desses casos será o do Dr. Amorim, como
era conhecido o Padre Dr. Artur Amorim, um venerando ancião, todo empertigado,
que se fazia transportar num clássico carro de cavalos, deveras pomposo, quando
já havia automóveis em muitas casas ricas e também até em casas remediadas.
Nome, o seu, que há muitos anos é referência de localização,
associado ao local onde se situa a casa em que viveu, apontado sempre como (o
ou no) “Doutor Amorim” – daí que se justifique que, à posteridade, se saiba quem
foi esse nome, sempre referido na região de limites confinantes da cidade de
Felgueiras e da vila da Longra.
Diziam as vozes populares que ele fora para padre depois que
se formara civilmente, e por ser rico nunca tomou conta de qualquer paróquia,
tendo sempre vivido de rendimentos na própria casa de família, em Varziela.
Sendo uma figura popular, especialmente respeitado no tempo do regime do Estado
Novo, por ter sido durante longos anos o representante em Felgueiras da Legião
Portuguesa.
Para se ter uma melhor ideia desse notável figurante do
quotidiano local, tome-se nota do que escreveu um seu conterrâneo, o advogado
Dr. Joaquim Luís Mendes Gomes (um bom Felgueirense radicado em Aveiro, que, ao
correr de suas memórias, recordando vivências da década de 40 e 50, no séc. XX,
o descreveu assim em suas crónicas, insertas no jornal Semanário de Felgueiras,
sob título “Filhos de Pedra Maria” – de que, com a devida vénia, transcrevemos
parcialmente escassas passagens dum alusivo retracto):
«Havia na aldeia outra figura inesquecível. Era um padre
bastante idoso, muito rico, porque dono de muitas terras na freguesia e que
vivia com duas irmãs, de idade avançada, numa casa grande assobradada, com
caseiro, criadagem, a uns escassos passos da igreja velha, a matriz.
Limitava-se a celebrar missa diária, por volta do meio-dia, e sabia-se que era
o comandante da Legião, naquelas paragens. Tinha-se formado em teologia na
Universidade de Coimbra e toda a gente sabia que era íntimo de Salazar.
Figura extremamente alta, fina, e bem-parecida, cabelo basto
e ondulado. Caminhava sempre de batina preta muito curta, e realçado cabeção
branco. Agarrado a uma bengala esguia e preta, de cabeça prateada. Tinha uma
voz forte e bem timbrada. Não havia ninguém que a ele não acudisse quando era
preciso vencer qualquer dificuldade da vida. Subia-se umas escadas em pedra,
gradeadas de ferro, que davam para a porta principal, no primeiro andar. Ali
ficava o seu escritório. Uma grande secretária de madeira negra trabalhada e
muitas prateleiras e armários carregados de livros, cobriam grande parte das
paredes, de alto tecto sumptuoso. Ali passava grande parte do seu tempo…»
O mesmo autor, Dr. Mendes Gomes, noutro trabalho, publicado
num “blog” informático da internet (destinado a futuro livro sob título “O
Serrador”, também sobre antigas historietas populares de Varziela), acrescenta
sobre o mesmo personagem que o Dr. Amorim «…fora condiscípulo de Salazar em
Coimbra, este em Finanças e aquele na Teologia…… (sendo, nos impedimentos do
pároco da freguesia, quem então substituía o abade local) nas missas e tarefas
habituais dum pároco… (embora não fosse) a mesma coisa. Era um padre todo
intelectual. As suas homilias deixavam toda a gente na mesma, como tinham
entrado. Ninguém as entendia. Demasiado teológicas e com sabor a prelecção de
tese…»
Este lembrado Padre Dr. Amorim, o célebre “Doutor Amorim de Varziela”, onde não exercia paroquialidade, chamava-se Artur Leite de Amorim, vivia na da Casa da Igreja, da referida freguesia. Foi efetivamente Delegado de Felgueiras da Legião Portuguesa (cargo que lhe dava honras de representatividade em estar presente a sessões solenes e atos oficiais, assim como em pronunciar-se na nomeação de pessoas para empregos públicos), como ainda desempenhou funções de Presidente da Assembleia Geral da Associação Pró-Longra, no mandato de 1929 a 33, como depois, em 1939, pertenceu à Comissão Instaladora da Casa do Povo da Longra e de seguida, também, teve idêntico cargo de Presidente da Assembleia em diferentes exercícios de 1940/43 e 1945/47 na mesma Casa do Povo, instituição onde lhe foi honorificamente atribuída a distinção de Sócio Protector nº 1 – conforme cartão que preservamos, há muitos anos, do qual se dá imagem ilustrativa na gravura anexa. Por tal bilhete com facilidade se fica inclusive a saber que esse “Eclesiástico Católico”, que escrevia o próprio nome à maneira de seu tempo (Arthur), nascera a 17 de Agosto de 1883, sendo filho de Joaquim de Amorim e D. Adelaide C. Leite.
O Padre Amorim em atividade pública conhecida esteve ainda
presente, em 1958, na homenagem prestada na Metalúrgica da Longra ao fundador
da MIT, senhor Américo Martins, entre personalidades dos convidados ao grande almoço
festivo, incluindo ter discursado no cerimonial de descerramento do quadro do
grande industrial, então colocado em lugar de destaque, em cerimónia benzida
pelo Padre João Ferreira da Silva, pároco de Rande - como se pode ver pela foto
de ilustração, dessa ocasião.
A este personagem ficaram igualmente ligadas algumas
histórias de menor sabor popular, que não calham muito ao tema, segundo o que
tem sido transmitido pelos tempos fora, entre cenas quotidianas em tal tempo,
qual expansão permanecida na memória popular da vida de aldeia, para mais pela
temeridade com que era visto pela gente comum. Cuja popularidade era tanta e
incisiva que, ainda nos dias que correm, a zona circundante da casa onde viveu,
junto à atual rotunda local, é genuinamente conhecida por (sítio do) “Doutor Amorim” – costumando ouvir-se dizer, por exemplo, “passar ao Dr. Amorim”, “à
beira do Dr. Amorim”, “estrada do Dr. Amorim”, etc.
Armando Pinto
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