Espaço de atividade literária pública e memória cronista

domingo, 4 de março de 2018

Figura de Pároco de Freguesia na Identidade local – Com ilustração de sacerdotes de ligação Felgueirense


É sabido que ao fazer-se um arrolamento procura-se não deixar nada esquecido para trás, como sói dizer-se. Em analogia, numa tentativa de fixação como esta de lembranças antigas do concelho que nos tocou ao nascer, procurando vincar memórias ainda que ténues ou completamente esquecidas, por vezes, do que particularizou os tempos passados desta região Sousã, e consequentemente tendo presente lembrar o mais possível aquilo de que possamos ter algum conhecimento derivado da obtenção de informes recolhidos e estudados, merece igualmente registo o papel desempenhado em eras mais ou menos recuadas pelo pároco de freguesia. Metendo-se assim no rol de afinidades populares de sabor ancestral o apego das gentes de cada território ao Abade da respetiva paróquia, ou seja inventariando-se em processo evocativo esse personagem carismático que foi o denominado pároco da terra na vivência comunitária do povo seu freguês, que o considerava, como se ouve ainda da boca de muita gente, o “nosso Padre” - de todos e de cada um dos paroquianos.

A preponderância desse cargo de unidade na vida local merece pois que se faça relação de enquadramento, de molde a que se percebam os diversos estados por que passou o mister.

Abade, nome antigamente atribuído a clérigo superior, teve inicial significado como responsável de ordem monástica, denominação que nalgumas ordens religiosas ainda se mantém. No decorrer dos tempos passou a designar o pároco de uma igreja que tivesse outros clérigos em funções auxiliares, os quais estavam então sob a sua autoridade, sendo a igreja respetiva chamada abadia - fosse qual fosse o tamanho do templo paroquial. Na atualidade é o pároco de uma paróquia ou de várias freguesias anexas em administração religiosa.

Convém todavia anteceder, em retrospetiva cronológica, um remirar do aspeto da formação paroquial. A circunscrição territorial denominada Paróquia, com igreja própria e uma população a ela adstrita, além de sacerdote incumbido do cuidado das almas, foi uma consequência da maneira como inicialmente se expandiu o Cristianismo nos meios urbanos e rurais, onde penetrou popularmente, a originar construção de templos nos lugares mais indicados, especialmente altos ou medianos locais fortificados (Castella ou Castelo) e perto das Villas (Villae). Em continuação ou substituição dos Castros primitivos e os Paços das Villas de antigamente, com o aparecimento do Cristianismo e dada a sua importância aglutinadora de comunidade, as Villas foram passando a Paróquias, resultando no sistema que melhor contribuiu para a organização da sociedade.

As invasões muçulmanas haviam interferido nas primitivas organizações comunitárias, perturbando o sistema organizativo hispano-godo herdado do regime das Villas romanas e godas romanizadas. A intolerância religiosa e as destruições, contudo, foram banidas com a Reconquista Cristã, sendo definitivamente implantada a organização paroquial, originando a maioria das paróquias atuais, inicialmente por iniciativa das autoridades locais. Esses proprietários em geral confirmavam o clérigo encarregado de gerir o culto e recebiam créditos em troca do Padroado que exerciam, direitos que foram hereditários nos primeiros tempos... Enquanto as fundações religiosas apareceram e cresceram em muitos povoados, com doações que de permeio se sucederam, aumentando o património paroquial. A real origem das freguesias baseou-se assim nesses antigos povoados, considerados os seus residentes como filli eclesi, filhos da igreja, congregados mediante alguma delimitação fronteiriça, em volta de um templo local, de campanário querido aos ouvidos dos naturais habitantes locais.

Nos primórdios da criação das freguesias rurais, como eram quase todas nessas remotas eras, após as lutas da Reconquista, quando estas terras foram repovoadas, desenvolvendo-se a partir de pequenos aglomerados de exploração agrária (as villas dos presores estabelecidos como guardiões), foram os povoadores que como grandes proprietários leigos edificaram construções destinadas ao efeito religioso na própria comunidade assim criada. Pelo que o pároco era nomeado pelo senhor do Padroado – fidalgo que detinha direitos inerentes, consistindo o caso em privilégios concedidos pela hierarquia eclesiástica aos fundadores de uma capela ou igreja. Conforme rezam as crónicas, esse direito inicialmente baseava-se em regalias resultantes da gratidão da Igreja para com o benfeitor, cuja propriedade depois passou aos descendentes, os quais dispunham das rendas de tudo o que existisse nas terras incorporadas nesse presbitério, além de nomearem os clérigos para administrarem o culto local nas comunidades instituídas, e, nalguns casos, mesmo bispos para representatividade da união de diversas paróquias, ditas já então dioceses. Na evolução temporal o clero (como poder religioso) acabou por chamar a si essas nomeações, ficando o senhor feudal (poder temporal ou secular) só com o direito de apresentação, prerrogativa de indicação de candidato a Prior para o lugar no Priorado, quando vagasse.

Mais tarde, em doações e heranças transmitidas por sucessão, algumas regalias do padroado, tais como posse ou usufruto de propriedades incluídas, pois que haviam quintas de posse paroquial, foram legadas a mosteiros, transferidas para a Coroa (em poder do rei, passando como tal a ser prédios reguengos) ou trespassadas a donos particulares, sem contudo se desmembrarem os bens da igreja local em que as suas terras estavam incorporadas eclesiasticamente, ou seja sem se diluírem as fronteiras da paróquia.

Segundo está documentado, aquando da fundação da monarquia portuguesa já o norte de Portugal estava dividido em pequenas paróquias, constituídas em redor de igreja de que os fiéis se sentiam membros, como filhos dessa igreja (filli ecclesiae, expressão latina de que derivou por uma via filigreses, fregueses; e por outra freguesia). Aí as freguesias dos sítios provindos de génese goda, cujos topónimos de raiz germânica revelam a procedência, locais esses que de permeio haviam integrado a Honra do Unhão e posteriores Julgados de Unhão e Felgueiras, estavam então integrados na diocese de Bracara, que fora presidida por célebres Pastores, desde Balcónio, passando por S. Frutuoso até ao bispo Felix (período suévico-visigótico), de permeio com galeria da Mitra temporariamente sediada em Lugo (Galiza), iniciada com Odoário e extinta com Vistrário, seguindo-se, com o avanço expansionista da Reconquista Cristã (de território que estivera ocupado por mouros), antes ainda da independência do reino de Portugal, a restauração da Sé de Braga com o histórico bispo D. Pedro.

A interligação de afinidade galaico-portucalense ficou então patente, entre muitos exemplos, na palavra comum com que à época se denominavam os párocos: “Curas”, os quais, por extensão semântica, curavam as freguesias. Estava implantado o Rito Bracarense, com réstias do Rito Gótico a formar modalidade de liturgia romana implantada por S. Geraldo, passando desde então a área da Corte Eclesiástica de Braga a ter esse uso particular que incluía diferentes breviários e missais, entre diversas diferenças às demais províncias religiosas. O clero superior era já detentor de direitos de receber pagamentos, sobretudo dízimos que, contudo, como eram desviados para outros fins, ficando o clero paroquial sem receber oblatas, passou a existir obrigatoriedade de ofertas dos fregueses para recurso dos prelados locais.

Entretanto, nessas épocas de constantes transformações, a região em apreço passou a pertencer ao património da Condessa Mumadona, fundadora da Colegiada de Nª Sª da Oliveira de Guimarães, período em que essa comunidade deteve primazia sobre o clero paroquial das redondezas que se estendiam ao termo de Felgarias Rubeas. Com as paróquias definitivamente constituídas, entre os séculos XII e XIII, segundo se nota nas Inquirições de D. Afonso III, os párocos eram ao tempo chamados Prelados, tendo companhia de um presbítero-capelão que, detendo missão de administração dos sacramentos, servia de cura (tendo essa denominação nesse tempo o atributo de coadjutor, um sacerdote auxiliar à espera de atribuição de paróquia).

Com o muito lembrado D. Frei Bartolomeu dos Mártires à cabeça, houve profunda remodelação Bracarense, sob cujos domínios estavam dependentes diversas dioceses. Curiosamente, esse Personagem célebre beatificado em 2001, depois de cerca de 400 anos de processo canónico, nascera precisamente no ano da atribuição por D. Manuel I do Foral de Felgueiras, em 1514. E por certo percorreu as freguesias de Felgueiras em visita, sabendo-se que empreendeu périplo por todas as paróquias da diocese de Braga, a que a região Felgueirense pertencia. Desde então a formação sacerdotal, que até ali tinha sido ministrada em mosteiros e até por acompanhamento particular de prelados amigos ou familiares dos aspirantes ao sacerdócio (já que era normal nessas épocas seguir-se a carreira canónica por tradição familiar e outros motivos, mesmo económicos em tempo de morgadios e diversos motivos mais), passou a partir de 1566 a ser dirigido o ensino formativo em casa apropriada para a devida instrução, como centro de Cânones à espécie de viveiro procriador de estudos sacros, denominado seminário. Sendo assim instituído no país o primeiro estabelecimento oficial de ensino formativo clerical, o Seminário Conciliar de S. Pedro de Braga, para cuja sustentação foi lançada uma taxa sobre os rendimentos dos mosteiros e igrejas sob sua alçada, pelo que todas as paróquias contribuíam através de renda anual (por exemplo, pelo Tombo novo de S. Tiago de Rande, sabe-se que nesta paróquia ainda em 1743, quase volvidos dois séculos, era pago tal foro em moedas de réis e colheitas, para esse fim).

Na continuação dos tempos, pertencendo as paróquias desta região à Visita da Segunda Parte de Sousa e Ferreira (zonas atribuídas a visitadores, género de delegados responsáveis por determinadas áreas, neste caso uma das duas partes em que se subdividia a parcela entre terras banhadas pelos rios Sousa e Ferreira), os sacerdotes administrantes das paróquias eram denominados Reitores quando representavam certo número de Abades e Vigários, párocos de abadias e vigararias das redondezas, tendo ainda os abades continuação da ajuda de coadjutores, bem como de clérigos que não exerciam paroquiado, os quais haviam só fixado residência em propriedades próprias dentro do território paroquial, como também existiam sacerdotes aposentados dependentes da representatividade do Abade da mesma paróquia.

O Abade Prior (como antigamente também era conhecido) surgia então aos olhos da História como descrevem Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco e Júlio Dinis nalguns protótipos insertos nas suas narrativas de contos, romances históricos e novelas campesinas.

Foram acontecendo transformações, pelos séculos fora, com toda a amálgama de acontecimentos narrados nos compêndios, misturando-se, distanciando-se e reaproximando-se as relações do clero com a representação secular, estando o povo sempre atento ao que o seu Padre dizia e fazia, ainda que pontualmente surgissem cisões ou choques entre pároco e representantes de Irmandades ou Associações de serviço paroquial, não havendo porém conhecimento de mais nada que não fosse a superior imagem difundida pelas vestes e cabeção do Abade Colado, pároco da Colação (paróquia).

Em 1881 (por Bula do Papa Leão XIII, executada na prática em 1882), sendo Arcebispo de Braga D. João Crisóstomo de Amorim Pessoa, as freguesias então incluídas no concelho de Felgueiras (completo desde 1855) passaram para a diocese do Porto, graças a reforma de limites diocesanos trabalhados pelo Cardeal D. Américo Ferreira dos Santos Silva, bispo do Porto, que fora encarregado da execução, através da referida Bula Gravissimum Christi, definidas que foram as novas circunscrições diocesanas em 4 de Setembro de 1882. Desse modo este Prelado Portuense, ao tempo, foi o primeiro que a região de Sousa conheceu na sua ligação à Cúria da Sé do Porto (em que se lhe seguiram sucessivamente, depois, os bispos D. António Barroso, D. António Barbosa Leão, D. António Castro Meireles, D. Agostinho de Jesus e Sousa, D. António Ferreira Gomes, de permeio com Administração interina de D. Florentino Andrade e Silva, continuando nos tempos seguintes com D. Júlio Tavares Rebimbas, D. Armindo Lopes Coelho, a quem sucedeu interinamente como bispo administrador D. João Miranda Teixeira, até à chegada do seguinte bispo residencial, então D. Manuel Clemente).

Para trás foram ficando eras ainda revistas em memórias pela fisionomia coeva do abade da freguesia, desde o chapéu quadrado de bicos, mais capa sobre a batina, até sucessor chapéu largo e casaco comprido, conhecido por “Agostinho” (por ser do tempo do bispo D. Agostinho), sendo o senhor Abade das sucessivas gerações uma presença assídua entre os paroquianos, em constantes passagens pelos caminhos e atalhos dos cerrados, nas idas às casas fidalgas onde era habitual convidado e “dizia missa” nas capelas próprias de algumas mansões solarengas, mesmo em visitas amiudadas às casas dos fregueses, a pé ou a cavalo, e parando para conversar até no meio dos campos onde os lavradores labutavam; além de ser pessoa com que se podia contar em casa, para qualquer chamamento ou atendimento. Na igreja, perante o hábito com que chegava o latim da missa aos ouvidos, as atenções pendiam sobretudo no altar-mor, em que esse respeitável dignatário ficava mais perto do sacrário e dos cimeiros degraus do trono. Delegado divino que se via a passear no adro ou pelo passal a ler o breviário como a meditar, se visitava no escritório de muitos maços de manuscritos carcomidos e amarelados, a par de estantes com grossos volumes, compartimento aquele da Residência onde estavam os livros de registos e dos assentos, na mesma casa paroquial onde era dado o café às crianças da comunhão, de cujas janelas e escadas apreciava as brincadeiras pueris nos ínterins da catequese, tal como na sacristia ouvia e dava conselhos, se inteirava das problemáticas e ocorrências quotidianas, enquanto respeitava e preservava os usos e costumes locais, presidia a cerimónias religiosas e acontecimentos públicos, criava dotações terrenas atinentes ao progresso da qualidade de vida (já que os Párocos chegaram a ser, até inícios do século XX, os Presidentes das Juntas da Paróquia – criadas por Decreto de 26 de Junho de 1830, em substituição da antiga Irmandade da Confraria Paroquial do Sub-sino, para administração dos rendimentos das igrejas e propriedades paroquiais, competências que posteriormente, a partir de 1910, seriam acrescidas da administração civil). Funções aquelas antepassadas que, mais tarde, evoluíram com incidência no desenvolvimento cultural e fortalecimento religioso da população, ao passo que o pároco conhecia tudo e todos, como acorria ao que fosse quando necessário, de portas abertas até ao toque das Trindades (tal como mesmo depois, conforme texto sobre “Antigos Usos e Costumes Paroquiais”), sem nunca desperdiçar nem poupar palavras e actos previdentes de acompanhamento à comunidade, fazendo-se enfim membro da freguesia.

Muitas transformações se operaram no decurso dos séculos, relativamente aos tempos assim descritos. Sucederam-se outras cambiantes às anteriores épocas das comissões do Sub-sino e às transmissões de abadiar as freguesias quase hereditárias (passando de tios a sobrinhos e por aí adiante, até que começou a haver nomeação dos abades, enviados como representantes do bispo), chegada que foi a partir de 1926 a era da Corporação da Fábrica da Paróquia, composta por representantes dos paroquianos e presidida pelo Pároco, por sua vez nomeado pelo bispo da diocese para exercer a respetiva paroquialidade.


Na chegada dos anos setenta, do século XX, sobretudo, fazendo-se já então notar falta de sacerdotes em número suficiente à renovação necessária, começaram as freguesias desta região a sentir os efeitos da falha de ordenandos e inexistência de sucessores, resultando envelhecimento sacerdotal na zona. Sucedeu aí, com a morte dos mais antigos abades, que se abateu frémito da sua ausência, sem continuidade sucessora. Desaparecidos assim alguns párocos residentes que eram os últimos como tais, deixando então de haver sacerdote da freguesia em que o povo via personalidade-mor e pastor. Substituídos que foram nalgumas freguesias os párocos próprios por administradores, padres estes com diversas paróquias ao seu encargo. Apesar do inicial desânimo, certo afastamento ou pelo menos distanciamento e desorientação, não desapareceu de todo, contudo, a atração suscitada pela personagem do pároco, notando-se como a sua voz e opinião arrastam consigo uma significativa parte das pessoas, sendo assim ainda força motriz de realizações que só a sua imagem de comando e chamariz consegue com respeito ao materializar de aderências tendentes a realizações, quando o povo sente interesse do pároco na terra que administra religiosamente, enfim havendo pontos comuns. Reacendendo-se a chama de fogo que ciclicamente possa estar mortiça, avivada quando é reforçada a velha afinidade de ligação ao culto religioso e fraternal. Acrescido do facto de, nos dias que correm, a nova vaga clerical estar a obter bons resultados na co-responsabilidade solicitada à comunidade, através de grupos de trabalho nomeadamente, para o empenhamento na vida comunitária. Como no caso da Comissão Fabriqueira (como é mais conhecida a Comissão da Fábrica da Paróquia, também chamada de Comissão Económica), responsável pela gestão das propriedades e defesa dos interesses paroquiais, cujo desempenho, nos dias de hoje, tem parceria consultiva no Conselho Paroquial da Pastoral.


Pesados os fastos, fica a ancestral ligação do povo ao seu Abade como simpática característica da identidade paroquial desde longos tempos enraizada, como centro da gravidade destes núcleos populacionais que ainda acorrem ao sentido do sineiro toque da freguesia.

(Junção de textos em tempos publicados no “Semanário de Felgueiras”, de material entretanto ainda guardado em espera, para um possível futuro livro.)

= Como ilustração, apenas, no sentido de puxar pela memória coletiva, juntam-se algumas imagens de fisionomias de sacerdotes de ligação felgueirense, uns mesmo naturais e outros de passagem ou fixação residencial nalgumas das freguesias do concelho, dos quais alguns entretanto desaparecidos e outros ainda bem presentes entre nós. Naturalmente mais ou menos conhecidos. Desde a cimeira imagem de dois antigos párocos, que estão devidamente identificados no livro “Memorial Histórico de Rande e Alfozes de Felgueiras”, até aos que ficam nas ilustrações distribuídas ao longo do artigo.

Armando Pinto
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