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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Vislumbre memorando sobre a Adega Cooperativa de Felgueiras - a propósito de recente passagem de imagens documentais na RTP2...

Tendo por estes dias passado no 2.º Canal da Radiotelevisão Portuguesa, atualmente chamado de RTP 2, uma lembrança sobre imagens antigas relacionadas com Felgueiras, chamou a atenção o facto, tratando-se de fugaz passagem a ilustrar a inauguração oficial da então Adega Cooperativa de Felgueiras, acontecida em 1959. Algo que assim passou no programa Preto no Branco, de reposição de imagens do Arquivo da RTP, como que olhando desde o início da Radiotelevisão Portuguesa e revisitando o passado, no tempo em que se vía Portugal a preto e branco.



Ora a Adega Cooperativa de Felgueiras foi fundada em 1957, precisamente no mesmo ano do surgimento da televisão em Portugal. E começou a laborar em 1959, ano em que foi inaugurada oficialmente, conforme as imagens de arquivo da RTP. Sendo referido na peça televisiva que “foi pelo Governador Civil do Porto inaugurada a Adega Cooperativa de Felgueiras”, em 1959. Curiosamente, nas revistas publicadas aquando das comemorações de anos jubilares da instituição, entre os dados históricos referentes à mesma Cooperativa apenas é referido o ano da fundação e o do início da laboração, sem constar a inauguração.

A propósito deste tema, vindo à lembrança com a vista das imagens passadas na RTP 2, recorda-se um artigo em tempos publicado no jornal Semanário de Felgueiras, com alguns acrescentos posteriores, duma lavra de anos atrás, já.

Associativismo Cooperativo em Felgueiras:

Sindicato Agrícola - Grémio da Lavoura e Adega/Cooperativa

Sendo Felgueiras um concelho com significativa posição no sector agrário, inserido em plena zona demarcada do vinho verde, com cabimento tem entre as suas organizações associativas de peso a Cooperativa Agrícola, sucessora da antiga Adega, por sua vez herdeira do Grémio da Lavoura e do pioneiro Sindicato Agrícola, em sequência retroativa.

Tudo começou em finais do século XIX com a criação de um organismo local congregador dos interesses agrícolas do concelho, numa iniciativa de associativismo do sector então primordial da região. Estava-se em tempos de revolução de desenvolvimento industrial, em que Felgueiras ainda estava algo alheia, confinada a oficinas artesanais, enquanto a agricultura passava por estagnação acomodada de séculos, pese ser ao tempo a lavoura o sector dominante no panorama económico regional. Na tentativa de alterar a situação, visando alcance evolutivo, um grupo de homens de acção resolveu seguir as linhas em vigor de implementação do associativismo. Entusiasmados com a ideia, meteram ombros a projecto de fundação de uma colectividade de defesa dos interesses dos agentes agrícolas. Foram mentores da sua criação o Dr. Manuel Baltazar Leite de Vasconcelos, da Casa de Cabeça de Porca, e o Conselheiro Dr. António de Barbosa Mendonça, da Casa de Rande, acompanhados por João Seara, Inácio Vasconcelos, Dr. António Costa Santos, Dr. António Vasconcelos, António Brochado, Dr. António Brandão, Dr. Henrique Menezes e outros, que criaram em finais de 1895 o Sindicato Agrícola de Felgueiras. Desde logo organizando-se, conforme atestavam as bases estatutárias, cujo regulamento foi impresso em 1896 – “Estatutos do Syndicato Agricola de Felgueiras”, de 10 páginas, publicado pela Imprensa Nacional-Lisboa, em 1896. Inicialmente teve instalações divididas em aposentos cedidos por dois associados, na vila de Felgueiras (a sede social num 2º andar, de Manuel José Antunes, e o depósito numa dependência de Eduardo Menezes Coelho); depois esteve na Casa de Vila Baía, em cedência temporária da Misericórdia de Felgueiras, ainda na sede do concelho. Vivendo as atribuladas condições da época, patente nas diversas instalações que teve por sede, dependências de depósitos e armazéns, mesmo assim teve este Sindicato um órgão de informação, o jornal “Semana de Felgueiras”, criado em 1896 sob a direcção do Conselheiro Dr. António Mendonça e de João Seara, contendo inicialmente no cabeçalho o nome responsável-directivo de Francisco António de Medeiros Machado. Jornal mais tarde transformado em tribuna literária e informativa passando a ser propriedade do Dr. António Mendonça. A instituição também tivera entretanto sede em Varziela, numa casa que por esse facto era conhecida por casa do Sindicato (depois denominada por Bom Repouso, com novo nome esculpido na frontaria). Na evolução natural, o mesmo Sindicato Agrícola juntou-se na década de vinte à Cooperativa de Consumo “A Felgueirense”, de permeio formulada e em cujas instalações o Sindicato se instalou em 1926, anexando-lhe depois um armazém. Na década de 30, quando era Presidente Joaquim Ferreira de Paiva Sampaio e Gerente o Padre António da Fonseca Magalhães, foi na vila de Felgueiras construído de raiz seu edifício-sede, transformando-se em organização denominada Cooperativa Agrícola Felgueirense, que passou a funcionar também com loja de vendas, nesse prédio do antigo Campo da Feira de Gado (actual Praça Vasco da Gama). Até que em finais dessa década, com a criação dos grémios, foi alterado o seu pacto estatutário para Grémio da Lavoura de Felgueiras, criado oficialmente por Decreto de 10 de Dezembro de 1940.

Passados anos, foi em 1957 formada a Adega Cooperativa de Felgueiras, criada por 51 sócios, alguns dos quais também do Grémio, sendo oficializada por escritura de 24 de Julho e aprovada por Alvará de 3 de Outubro seguinte. Agremiação essa que passou a laborar em 1959, ao dispor de boas instalações construídas no lugar das Idanhas, barreira sul da então vila. Organização esta posteriormente transformada em Cooperativa Agrícola por outro Alvará de 30 de Setembro de 1977. Embora, no conhecimento popular, sempre mais conhecida por Adega de Felgueiras.

Devido a alterações de habilitações, relacionadas com as modificações da vida social do país, houve em 1974 extinção dos grémios, pelo que, decorridas décadas de produtivo labor, foi o Grémio da Lavoura e seu património integrado na Cooperativa, como instituição de alcance e representatividade do sector. Desde aí consignada como Cooperativa Polivalente e englobando as instalações do Campo da Feira e das Idanhas, passou a ser chamada de Cooperativa Agrícola de Felgueiras, S.C.R.L., código cooperativo transformado em 1983 para C.R.L., com secções de viticultores, produtores de leite, de aprovisionamento e escoamento de produtos, e pecuária. Fruto da gestão empreendida, depressa a Cooperativa Agrícola de Felgueiras deu passos em frente na sua implantação, apoiando actividades afins como foi, em 1986, a abertura da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Felgueiras, antes instituída em Maio de 1985; tal como firmou marcas próprias de vinhos, levou a efeito acções de formação e especialização de empresários do sector, incluindo jardinagem, produção de plantas, operadores de máquinas, doces regionais, etc. Bem como se transfiguraria ainda posteriormente, na década de noventa, para nova denominação de Cooperativa Agrícola de Felgueiras-Caves Felgerias Rubeas, CRL, cujos estatutos renovados tiveram oficialização escriturada em Outubro de 2000, acrescentando às suas secções mais as de organização de produtores pecuários para a defesa sanitária, gestão, horto-fluri e fruticultura, florestal, produtores e engarrafadores de vinhos de quinta, protecção e produção integrada das culturas de vinha e outras, entre as quais a Actinidea (vulgarmente conhecida por “Kiwi”) e de produtores de mel.

A referida Caixa de Crédito Mútuo seria mais tarde alargada aos domínios da região circunvizinha, deixando de estar vinculada à Cooperativa de Felgueiras, por fusão resultante de incorporação com congéneres de concelhos vizinhos, passando a chamar-se Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Terras de Sousa, Ave, Basto e Tâmega, CRL, contudo mantendo sede administrativa em Felgueiras.

Embora mantendo alguns serviços no edifício do antigo Grémio, durante anos, a sede da Cooperativa ganhou maior expressão nas Idanhas, nas suas amplas dependências, onde, para lá de balcão de venda geral, criou loja adjacente de venda de produtos tradicionais, a juntar à capacidade de laborar e envasilhar vinho das uvas recebidas dos associados. Produzindo vinhos de marcas de diversas qualidades, por diversas vezes premiados em vários certames. Tal qual colaborando com realizações de âmbito social concelhio, como aconteceu, na década de oitenta, do século XX, com a localização da Felmostra e, em princípios do século XXI, a Feira de Maio. Evoluindo e transformando-se no decurso do tempo (sendo a situação descrita até à época da escrita destas simples anotações).

Feita em traços largos uma resumida retrovisão do percurso histórico pela existência antepassada de associativismo agrícola local e, consequentemente, pela sucedânea Cooperativa de Felgueiras, releve-se alguns nomes salientes na vida desta instituição que perdurou no tempo, como foram os fundadores, entre os quais o primeiro presidente, Dr. Augusto Leite da Costa Faria, mais o Dr. António José Ribeiro, Joaquim Francisco da Fonseca, Joaquim de Carvalho, Luis Augusto de Vasconcelos, Albérico Sobral, Dr. Abel Tavares, etc; e os sucessivos presidentes Tenente Coronel António Moreira Peixoto, Dr. José de Barros Carneiro, Padre João Ferreira, Dr. Artur Pacheco Mendonça, D. Ana Maria Vasconcelos, Aurélio Carvalho, Dr. Manuel Faria, Eng.º Casimiro Alves; mais restantes dirigentes, em cujos orgãos sociais há certo realce para o atual presidente do Conselho Fiscal, José Luís Martins, entre muitos empenhados associados e cooperadores, sem esquecer os dedicados funcionários, ao longo dos tempos. 

Armando Pinto

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