À chegada do Outono, quando as folhas das videiras amarelecem e as uvas estão amadurecidas, é tempo de vindimas.
Vem isto a propósito para trazer novamente umas imagens com uma sugestiva fotografia de um instantâneo antigo. Tratando-se duma foto, de há muitos anos, que entretanto publiquei no meu livro maior, “Memorial Histórico de Rande e Alfozes de Felgueiras”, reportando a um almoço de fim de trabalhos sazonais, ainda no tempo do Conselheiro de Rande Dr. António Mendonça, em convívio à mesa colocada ao ar livre. Sendo que nesse tempo a Quinta de Rande era a maior produtora de vinho da região.
Por isso, nesta fase da roda do ano, traz-se aqui um texto em tempos publicado no jormal Semanário de Felgueiras, e que acom algumas adaptações e acrescentos, esteve para incluir um livro sobre o concelho de Felgueiras, mas que por falta de apoios, para a devida publicação, há muito tem estado guardado.
Vindimas e Vinhos de Felgueiras
À medida que as temperaturas
vão baixando, passado o clima de maturação dos produtos naturais resultantes do
solo, o meio ambiente desta região proporciona diferentes atractivos na sua
realidade rica em pitoresco, como se expressa com as colheitas resultantes da
agricultura e nomeadamente se passa com as vindimas.
Passado o Julho, em que pelo
S. Tiago já pinta o bago (por ocasião da sua festa, em finais de Julho),
depois, como também diz o povo, em Agosto toda a fruta tem seu gosto, tal como
Agosto madura e Setembro vindima. Sendo no mês de Setembro a festa de S.
Miguel, protector das colheitas, lá diz o rifão que S. Miguel soalheiro enche o
celeiro. Nas vinhas e nas adegas há aquele corrupio próprio da actividade. Nos
bardos e ramadas os cachos pingando manchas reluzentes estão mesmo a pedir que
sejam colhidos. Procede-se à preparação das envasilhas, vêm-se em muitos lados
pipas a serem revistas e preparadas, de pipo ao ar, como se costumava dizer,
com água nos tampos a fazer apertar as aduelas. Depois são aqueles trabalhos
que detêm ciência de experiência própria, neste caso desde que as uvas são
colhidas para entrarem nos lagares e de seguida o vinho seja envasilhado, até à
seguinte época das desfolhadas do milho. Faina esta que dará razão à
característica local dos alpendres, onde em serãos nocturnos se desenrrolam
esses trabalhos comunitários, nos também chamados beirais em cujas eiras secam
as espigas, depois armazenadas nos espigueiros, todos em madeira de cima abaixo
antigamente e posteriormente montados sobre pilares de granito – onde se
guardam as espigas de milho novo, a arejar entre o ripado de tábuas em que se
afirma afinidade nortenha diferenciada dos espigueiros galegos de cruz na
empena. Até que, agasalhado o povo ao borralho, sendo entrado tempo rigoroso de
Outono/Inverno no quotidiano, por tradição se vai à adega provar o vinho novo,
por alturas da festa de S. Martinho, a meio de Novembro.
Por entre tentativas de
descoberta de amanhos antigos, que urge preservar no conhecimento, debulhando o
grão dos hábitos, se joeiram assim as tradições relativas de velhos costumes.
Sem pesquisa de fósseis, mas apenas reflexões que nos acodem, numa tentativa de
percurso abrangente a pretéritos panoramas, de sabor tradicional e raiz
popular, como que a guiar as águas para a cultura do que nos deve merecer
fidelidade.
Mas o que move estas
considerações, desta feita, é o vinho mais os horizontes relativos.
Desnecessário se torna descrever a labuta das vindimas, cuja faina já
registamos nos seus antigos moldes (conforme texto incluído no livro
“Felgueiras-Tradição com Futuro” e apresentamos com maior desenvolvimento no
“Memorial Histórico de Rande e Alfozes de Felgueiras”). Desperta este arrazoado
assim para diferente perspectiva, relacionada às cepas que sobem nas ramadas,
estendendo varas a formar festões de parras, engavinhadas ao longo dos arames
onde se encostam os cachos louros e roxos.
A área de Felgueiras
inclui-se com toda a propriedade na região dos vinhos verdes,
institucionalizada em 1908 por Carta de Lei de 18 de Setembro, regulamentada
por seguinte Decreto de 1 de Outubro do mesmo ano, como forma de «orientação para
a qualidade e regulamentação da produção e comércio do vinho verde». Cuja área,
mais tarde, teve estatuto reforçado por Decreto de 10 de Dezembro de 1926, a
consagrar o «estatuto da região demarcada, definindo os seus limites
geográficos, caracterizando os seus vinhos, definindo regras para certificados
de produção e origem e para o comércio dos vinhos verdes». Daí tendo sido
criada a Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV),
«organismo com representantes da lavoura e do comércio».
Com efeito, nesta zona da
região dos vinhos verdes, a área da viticultura a nível de Felgueiras tem
granjeado determinado relevo, quer na economia como na promoção do concelho,
através do labor de técnicos, empresários e agricultores ligados ao sector. Por
via disso são alguns os vinhos de qualidade com marca registada de Felgueiras,
que se podem encontrar nas garrafeiras de mercados pelo país fora, causando
orgulho aos Felgueirenses, além do sabor apaladado.
Gravura do rótulo do antigo vinho “Quinta de Rande”
Em tempos longínquos existiram algumas casas de nome
com seu próprio vinho, como por exemplo foi o caso, em princípios do século XX,
dos vinhos “Solar da Torre” e “Quinta de Rande”, das casas brasonadas dos
mesmos apelidos na freguesia de Rande. Tendo o último, do Conselheiro de Rande
Dr. António Mendonça, sido galardoado nas Exposições Nacionais do Palácio de
Cristal do Porto em 1903 e 1904 e na Exposição Distrital de Amarante em 1908.
Tal como existiu na Longra, por volta da primeira à segunda década do século
XX, o vinho “Raposinho” com patente de estabelecimento comercial ao tempo sito
no Largo da Longra (casa A Comercial, de Adelino Pinto Sampaio e Castro),
propriedade do então senhorio da quinta em que o mesmo era produzido, de castas
da Quinta do Raposo, de S. Cristóvão de Lordelo. No decurso dos tempos muitos
rótulos mais apareceram, dos quais algumas marcas entretanto desaparecidas,
como aconteceu com o “Casal de Santiago”, da freguesia de Rande, por sinal
premiado no concurso de vinho branco, na categoria de
produtores/engarrafadores, da Felmostra/Feira do Vinho Verde em 1987.
Antigas marcas engarrafadas,
estas já desaparecidas, como possivelmente terão existido mais na região.
Agora, passe a possível publicidade (contando tão só como simples anotação de registo), existem os vinhos Caves do Casalinho e mais seu famoso Três Marias, de Regilde, coleccionador de muitas distinções, desde eventos de Lisboa a Lubliana, Bristol e Bratislava, através de medalhas de ouro e prata em diversos anos; como também as marcas da Cooperativa de Felgueiras-Caves Felgerias Rubeas, Terras de Felgueiras, em verde e espumante, mais o Azal da Lixa (tendo a marca Cooperativa de Felgueiras sido premiada com o 1º lugar de armazenistas/engarrafadores, de vinho branco, na Felmostra-Feira do Vinho Verde/88; tal como, posteriormente, obteve outros galardões, entre os quais se pode salientar a medalha de prata no concurso internacional de vinhos “Cidade do Porto”, em 2000, entre outras distinções); bem como o Quinta da Lebre, de Margaride; a Sociedade dos Vinhos Borges com o Quinta da Lixa e seus Monsenhor, Anjos de Portugal e Vinha Real, além dos Terras do Minho e suas qualidades Trajadura-Azal-Avesso-Pedernã-Padeiro (com que a empresa da Quinta da Lixa-Sociedade Agrícola foi reconhecida, sendo esses vinhos premiados com uma medalha de ouro e outra de prata na ”Chalenge Internacional du Vin”, duas medalhas de bronze no III Concurso Mundial de vinhos-“Wine Masters Chalenge 2001”, assim como uma de prata no “Concurso de Vinho Verde Engarrafado 2001/C.V.R.V.V. e outra igual no “Concurso da 13ª Festa dos Vinhos Verdes”, continuando nos anos seguintes a colher prémios, a nível nacional e internacional, em sucessivos “Challenges” e outros certames); mais os Quinta dos Lagareiros, Quinta do Lugarinho e Quinta dos Quintais, também da Lixa; o Quinta da Cerca e Quinta da Cela, de S. Jorge de Vizela, o vinho de quinta da Sociedade Agrícola de Maderne, de Várzea, o Sousão e o Conde D. Mendo, da Quinta de S. Mamede, do Unhão, e de Cimo de Vila, de Rande, etc.
Não contando, para o caso, produtores e engarrafadores particulares de sítios de minifúndio, sem timbre registado, entre os quais figuram outros apreciados vinhos de quinta de lavrador; por entre o que temos conhecimento, embora possivelmente ainda haja outras marcas mais. De notar que não são referidas marcas com rótulos que, embora pertencendo a pessoas da região, derivam de vinhos de outras zonas, de fora do concelho de Felgueiras, como acontece nalguns exemplos conhecidos.
Acresce, outrotanto, ligação afim no aparecimento em 1998 da AFAVI-Associação Feminina de Amigas do Vinho, agremiação sediada em Felgueiras, que tem permanecido no seu caracter associativo através de conjunto de senhoras que se esforçam por reabilitar o vinho, como acompanhante predilecto das refeições em moderada bebida, como por tornar conhecida a importância de Felgueiras através deste produto tradicional, no respectivo sector económico nacional. Instituição esta que, inclusive, editou em 2006 um caderno com receitas de culinária produzida com vinho verde (“Gastronomia com Vinho de Felgueiras”). E, depois, houve a instalação da Confraria do Vinho de Felgueiras, honorífica instituição criada em 2006, composta por personalidades entronizadas em representação de entidades do ramo e figuras públicas nomeadas e convidadas, com fins subjacentes.
Em suma todas essas firmas,
existentes ou desaparecidas, constituem valiosa referência, associando-se às
características locais dentro das tradições vinhateiras, formando genericamente
bom naipe de elementos da cultura Felgueirense.
Armando Pinto
Nota explicativa: as marcas referidas inicialmente por serem antigas não precisam de explicaçao de atualização, obviamente. Já as mais recentes referem-se ao que era conhecido em 2006, ao tempo do texto.
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