Era eu ainda jovenzito quando, conforme me lembro, comecei a
ver um senhor muito sorridente que passava na Longra diante de minha casa (claro, a casa
de meus pais e da minha família) e sempre metia conversa com meu pai, já
conhecidos que eram. Depois passei a conhecê-lo já em sua casa, aquando de
algumas vezes em que acompanhei o meu pai nas suas idas à quinta da casa de
Junfe, no Unhão - onde morava ao tempo esse senhor - por via de levar algum
motor de puxar água, mesmo até um televisor ou outro aparelho, por exemplo, que
viera para consertar na oficina de meu pai, ou ainda por algum outro motivo
relacionado com instalações elétricas, por exemplo, efetuadas lá. Mais tarde
soube que esse senhor passou a viver na quinta de Cimo de Vila, em Rande. Indo
lá eu também, uma vez por outra, conforme calhasse por idênticos motivos, a
esse alto da freguesia de Rande, de onde se via um panorama bonito nas vistas
para o vale da Longra, ao fundo, ou pelo outro lado mais distante para o alto
de Santa Quitéria, e ainda mais ao longe, para o planalto da Serrinha, mais
além, entre planos a perder de vista por múltiplas cores vertidas pelo
horizonte. Sítio interessante mas quase sem casas, nesse tempo, a não ser a casa, beiral e outros anexos da quinta onde vivia com sua família, o senhor Sousa de Cimo de Vila. Senhor de quem
depois fiquei também a ser amigo e com o qual dava gosto conversar. Como tantas
vezes ia acontecendo, quer quando nos encontrávamos na Casa do Povo da Longra,
por exemplo, onde ele ia tratar assuntos de previdência rural ou de saúde, como
de temas da freguesia noutros locais e das vezes que nos encontrávamos. Assim como mais tarde, quando tive um meu irmão e sua família a viverem em Cimo de Vila, já depois do lugar se ter desenvolvido, houve ainda maior convivência.
Antes, Cimo de Vila foi simplesmente um local idílico no alto de Rande, perto do penedo alto de Santana, mas um sítio quase despovoado. Até que, após ali se ter tornado proprietário de terrenos dessa quintazinha, o senhor António Sousa foi desbravando terreno, teimando ao longo de alguns anos seguintes, quão foi conseguindo alargar o caminho que beirava seu eido e paulatinamente foi transformando matas, campos, leiras e quintais através de terraplanagens e loteamentos, dando lugar a lotes de construções, onde foram sendo erguidas casas familiares e tornado o lugar um bom sítio de vizinhanças. Até mais ter conseguido que o caminho que ali passava fosse transformado numa estrada, e dali se ramificassem algumas vias. Metendo ao barulho Câmara, Junta e o que mais foi preciso fazer. Coisa que sem suas iniciativas não teria acontecido assim, embora no decurso de uns anos bons, como foi necessário labutar pelo surgimento de tal progresso.
Ora, numa minúcia possível de tanta história, aqui se tenta
vincar isso, ainda que resumidamente, num traço de escrita a procurar contar
esse papel havido no desenvolvimento dum lugar de pormenores sui generis,
contendo histórias várias, guardadas na memória duma terra infinita, assim. Que
foi sítio em festa, por vezes, na ideia conseguida através de iniciativa
acontecida, quão a necessidade aguça o engenho, de modo que foram feitas
melhores cores no panorama do ambiente local, que o povoador do sítio foi
oferecendo ao sentido comunitário.
Sabendo e valorizando o facto, eu (autor deste texto) tentei
em tempos que fosse atribuído o nome do senhor António Sousa, de Cimo de Vila,
a uma das ruas daquela área de Rande. Tendo aproveitado, para isso, o facto de ter sido incluído numa inicial comissão formada pela Junta de Freguesia de
Rande para estudo de nomes a atribuir a ruas e caminhos da freguesia. E assim,
entre os diversos nomes, indiquei o nome do senhor Sousa de Cimo de Vila.
Contudo, depois já não pertenci à comissão que deu os nomes que foram colocados. Pois então, porque depois a Câmara Municipal de Felgueiras (CMF) e a Junta de Freguesia
de Rande, desse tempo, nomearam uma outra comissão definitiva com membros indicados
pela CMF, incluindo representantes da Junta e da Assembleia de Freguesia de Rande,
mais representantes de outras áreas (cujos nomes constam das atas respetivas),
foi quase tudo alterado, tendo sido retirados uns nomes e colocados outros, pouco restando do projeto inicial, como acabou por ficar com algumas situações que se não entendem. De modo que,
infelizmente, o senhor António Sousa não foi honorificamente perpetuado como
merecia. Esperando-se que ainda venha a ser um dia… Tal como outros em casos
diversos.
Em suma, pode dizer-se e proclamar que foi o senhor António
Sousa que deu vida a esse lugar sobranceiro da encosta de Rande, que como tal
respira a jovialidade de agrado que se sente nessa existência.
Armando Pinto
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