Um destes dias soube que faleceu um antigo companheiro das andanças da vida. Que conheci jovem, era eu ainda um miúdo, como se diz de um catraio, um rapazinho. Andava eu nos Capuchinhos em Gondomar, talvez no 2.º ano de curso de seminarista e do antigo ensino liceal da época, e ele era já um estudante do ensino superior, a cursar talvez Teologia, isso não sei, mas sei que vestia hábito, a veste de frade de votos ainda de profissão simples. Andando ele então num Seminário da mesma Ordem mas de ensino mais adiantado. Por isso nem nos conhecíamos e eu fiquei a conhecê-lo com os olhos de criança, ainda, e ele ficou a conhecer um magote de rapazes que ao tempo andavam entre coisa dos 11 aos 13 anos, mais ou menos. Porque um belo dia, mas à noite, após o jantar, houve visita de estudantes mais velhos, da casa do Ameal do Porto, para fazerem um convívio com os mais novos, à base de um género de espetáculo com que eles brindaram o pessoal da casa de Gondomar.
De vez em quando apareciam alguns alunos espigadotes que já andavam nalguma das casas de seminários maiores da mesma Ordem, mas sempre a horas fora das refeições, pois como já tinham andado ali no menor sabiam que a comida não prestava para os seminaristas, estando eles já melhor habituados ao seu novo estatuto. Sendo essas visitas sempre apreciadas, estando a malta do Seminário de Gondomar confinada ao ambiente interior, pois entre as idas a casa nas férias, estava-se sempre dentro dos muros da quinta da casa solarenga do Seminário e pouco se sabia do que se passava fora. Tanto que de Gondomar, fora os dias em que de vez em quando havia umas caminhadas pelas localidades das redondezas, em grupo e de tarde de tempos a tempos, praticamente só conhecíamos de vista o Monte Crasto, por o vermos de baixo.
Dessa vez foi então a seguir ao jantar, num sábado à noite. Aparecendo-nos aí um grupo de jovens vestidos de hábito Capuchinho Franciscano que diante de nós cantaram, declamaram poemas e contaram anedotas, do que me lembro. Fixando eu isso por uma das melodias que nos cantaram.
Coisa que recordei há tempos. Porque aqui há uns anos, tendo-me
passado pelas mãos alguns dos papéis que guardei da minha passagem por
Gondomar, deparei-me com a letra de uma canção que na época me tocou muito. Uma
canção que eu pensava que era da autoria de um, mas depois soube que era de
outros. Tendo-me ficado ideia que era do Sério, como se chamava um desses
jovens candidatos a frades. Mas soube mais tarde que era de dois jovens também
que vi então de hábito, Zé Ramos e Bento Correia. Como havia ouvido outra, anteriormente,
que pensava que era de quem a ouvi, pela boca do Frei Nuno, mas que todos
diziam ter sido feita pelo Sério, a qual (se não era o título, pelo menos era a
frase mais forte) descrevia a singularidade duma “Capelinha do Sertão”.
Ora, antes então de recordar a que gostei muito, recordo
esta última referida. Melodia, esta
(pois da outra falo a seguir) que marcou a viagem duma excursão de visita ao
Minho, que fizemos no meu 1.º ano (1965/66) – em que, para surpresa nossa
(apenas de véspera nos mandaram ter o fato novo em ordem), numa bela manhã,
fomos metidos numa camioneta (autocarro) sem sabermos para onde íamos, pois só
já em andamento nos apercebemos que era uma excursão… e, a nossos olhos, de
petiz, o itinerário se nos deparou quando chegamos diante do castelo de
Guimarães… Tendo-nos maravilhado, do que melhor fixamos, a visita ao Paço dos
Duques e, depois, o almoço, com aquele refogado de batatas com carne que se
comia em dias de festas, por lá em Gondomar, e que nesse dia nos foi servido mais longe, com
todos abancados no parque de S. Bento da Porta Aberta, em pleno Gerês… Ora,
durante essa viagem, o Frei Nuno muito nos encantou a cantar a tal canção da
capelinha, com voz sentida, conforme a enternecedora música pedia e a respetiva
letra puxava…
Ora, voltando ao tema, entretanto os tais companheiros do Sério, que eram já
Freis experimentais, por assim dizer, também, ao que me apercebi depois, por já usarem hábito quando os vi, tinham andado em Gondomar pelo menos até ao antigo 5.º Ano. Mas na época da visita em apreço era diferente. Porque era já em tempo de transição dos Seminários, pois no meu primeiro ano, em
Gondomar ainda frequentaram o Seminário Seráfico os alunos do 1.º ao 5.º ano,
havendo alguma distância entre os mais novos e os mais velhos pelas diferenças
de brincadeiras. Contudo recordo-me, por exemplo, havia alguns mais velhos que, como
eram amigos colegas de ano do meu primo Rosário, me “davam bola”. Lembrando-me, ainda ao acaso, do “decano” que ia sempre à frente do ordenamento em fila, etc. etc.
Depois, em anos seguintes, ficamos só os do 1.º até ao 2.º ano, em Gondomar, embora depois ainda continuasse novamente por anos seguintes a evolução, pelo
que aos mais velhos só os víamos quando, em dias de passeio, alguns dos que
estavam no Porto vinham visitar a antiga casa, ou então em ocasiões especiais,
como aconteceu na ordenação episcopal de D. Francisco da Mata Mourisca, no
Ameal, quando nós, os mais pequenos, fomos incorporar o coral da cerimónia,
para fazermos a primeira voz… ou, mais, tarde, na inauguração da 1.ª pedra para
a Cripta da igreja conventual de Gondomar, quando vieram todos (já que, mais
tarde, na bênção da Cripta nós, os mais novos, ainda estávamos de férias
grandes, no verão)…
Dos tais mais velhos que então não conhecia, naquela noite de fim de sábado fiquei com alguns deles bem familiares, por, mais uma vez sem ninguém nos ter
dito nada, ter aparecido um grupo deles para fazer um serão, deliciando-nos no
refeitório (que então havia sido mudado, tendo passado para o sítio da antiga
capela) com uma atuação inesquecível… E, aí, vi(mos) os autores das cantigas de
mistura religiosa e social. Foi então que ouvi a tal canção, que me fez lembrar
disto tudo, de modo até a ter decorado. Pensava que era intitulada A Montanha. Como
a passei depois ao papel o que fixei, motivo por que não coloquei toda a devida
pontuação, apenas a que mais se salientava.
Ora um destes dias, tendo falecido esse José Ramos, apareceu-me
diante dos olhos um texto do respetivo co-autor da cantiga (sendo um da música
e outro da letra), como homenagem póstuma ao falecido amigo, e assim pude rever
a mesma canção, que afinal teve o título de “Montanha da minha Vida". Podendo eu
rever e recordar essa mesma cantiga, de estilo balada, completa:
MONTANHA DA MINHA VIDA
Música: Bento Correia
Letra: José Augusto Ramos
Refrão
Sobre a montanha da minha vida
Sinto a brisa fresca,
Vejo o céu azul a convidar a convidar,
Eu vou subir lá bem ao cimo,
Quero ver o mundo,
Quero ver a luz com outro olhar.
Estrofes
I
Sei que estes vales vão cantar
Ao ver o dia a despontar,
Tudo sorri ao olhar p’ra mim!
Sei que tu vais também viver
Ao ver o dia amanhecer,
Oh! Como é belo viver assim!
II
Nas brisas frescas a correr,
Nas folhas tenras a crescer
Sinto a presença do Criador.
Na tua vida a caminhar
Nas tuas dores a chorar,
Como não sentes o seu amor?
(Bento)»
E aí está a recordação, nesta memória, que serve também de
homenagem aos autores dessa cantiga. Nenhum dos intervenientes chegou a frade em
anos seguintes, tendo eu saído de lá ainda rapazinho sem barba na cara, sequer,
e sem ter vestido qualquer hábito, entenda-se, enquanto eles mais adultos
também acabaram por seguir outras vidas. Como tantos mais. Lembrando-me eu disso,
e eles nem sei. Mas ficou um Hino à Vida por essas e outras lembranças.
Paz e Bem, à memória desses tempos.
E Descanse em Paz José Augusto Ramos.
Armando Pinto


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