Espaço de atividade literária pública e memória cronista

quinta-feira, 15 de março de 2018

Novo Bispo do Porto – D. Manuel Linda nomeado Bispo Diocesano da Sé Portucalense


«Com data de 15 de março, o Santo Padre nomeou Bispo do Porto Sua Ex. cia Rev. ma o Senhor D. Manuel Silva Rodrigues Linda, até agora Bispo do Ordinariato Castrense» - conforme difusão oficial da Diocese do Porto. Algo de relevo para a região felgariana e comunidade social de Tâmega e Sousa, visto as terras de Felgueiras serem também do território da mesma diocese da Sé Portucalense, integradas que são as correspondentes paróquias na Vigararia de Felgueiras.

Foi assim esta quinta-feira 15 de março, dia litúrgico dedicado a Santa Luísa de Marillac, conhecida a notícia de que passa a haver novo Bispo do Porto, D. Manuel Rodrigues Linda, como sucessor do entusiasmante prelado D. António Francisco dos Santos, falecido no passado 2017. Sendo a nomeação conhecida no dia de Santa Luísa de Marillac, que com São Vicente de Paulo criou as Irmãs dos Pobres, as Filhas da Caridade ou Irmãs Vicentinas, mais tarde proclamada padroeira das obras sociais e de todos os assistentes sociais (pelo Papa João XXIII, em 1960).

Tem o facto certa relação especial, no caso, sendo que para Felgueiras a Ordem Vicentina faz parte do caracter religioso da vivência comunitária felgueirense, através das Irmãs de Caridade sediadas no alto de Santa Quitéria e até há pouco tempo também residentes no antigo convento da Misericórdia do Unhão, além da presença dos Padres Lazaristas que durante muitos anos tiveram casas em Lagares e Pombeiro e atualmente têm residência no monte de Santa Quitéria. Em cujo mítico local desde há muito tem estado a cargo dessa ordem a reitoria do santuário respetivo, onde anteriormente existiu uma ermida dedicada a S. Pedro, cabeça da Igreja católica.

~ Uma recordação dum dos momentos da presença Vicentina na comunidade felgueirense ~

Dom Manuel Linda, nascido em Resende a 15 de abril de 1956 e entretanto Bispo Auxiliar de Braga, como depois e até agora bispo das Forças Armadas e de Segurança, foi com efeito nomeado pelo papa Francisco para dirigir a diocese do Porto. Na Conferência Episcopal Portuguesa, o novo bispo do Porto preside à Comissão Episcopal da Missão e Nova Evangelização e é vogal da comissão para a Pastoral Social e Mobilidade Humana. O lema episcopal de D. Manuel Linda é ‘Sede alegres na esperança’.


No dia da nomeação o próprio D. Manuel Linda logo publicou uma mensagem aos católicos da região portucalense: "Não é sem emoção que regresso ao Porto passadas quase quatro décadas depois da minha formação no seu seminário Maior", sublinha o bispo, que dirige uma saudação a todos os católicos locais, com um "destaque especial para os mais débeis, os pobres, desempregados, doentes, idosos, detidos e quantos perderam os horizontes da esperança".

O anterior titular do cargo agora ocupado por D. Manuel Linda era D. António Francisco dos Santos, que morreu, vítima de ataque cardíaco, a 11 de setembro de 2017. Desde essa altura, a segunda maior diocese portuguesa em número de paróquias (a seguir à arquidiocese de Braga) tinha como administrador apostólico o bispo auxiliar D. António Taipa.

Manuel Linda, de 61 anos (quase a perfazer 62, já no próximo mês de abril), após estudo no  Seminário de Lamego e no seguimento de seu percurso académico, obteve três Licenciaturas: em Disciplinas Humanísticas na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica de Braga; em Teologia na faculdade do Porto; em Teologia Moral na Academia Alfonsiana em Roma. Assim como por fim também obteve Doutoramento em Teologia Moral na Universidade Comillas de Madrid. Entretanto, depois de ter terminado o Curso de Teologia no Seminário Maior da Diocese do Porto, ordenou-se padre em Vila Real, tendo sido ordenado sacerdote em 10 de junho de 1981, com incardência na diocese de Vila Real. Como sacerdote, ocupou os seguintes cargos: Sacerdote Paroquial, Assistente de Ação Católica, Conferencista em Seminário, Membro da Comissão Diocesana "Projeto Vida"; Reitor do Seminário e Diretor do Centro Cultural Católico da diocese; Vigário Episcopal da Cultura. Em 20 de setembro de 2009 foi nomeado Bispo Auxiliar de Braga e em 10 de outubro de 2013 foi nomeado Ordinário Militar para Portugal, como bispo das Forças Armadas e de Segurança. Até passar a ser a partir de 2018 o novo Bispo Diocesano do Porto.


D. Manuel Linda passará assim a integrar o vasto e honroso rol dos Bispos do Porto, sabendo que tal categoria tem um carisma especial, desde o histórico D. Hugo que recebeu de D. Teresa o antigo senhorio da cidade portuense, até na passagem dos tempos ter muito depois havido a definição administrativa do célebre cardeal D. Américo, mais o percurso histórico e pastoral de grandes prelados como foram D. António Barroso, mártir da transição monárquica para o regime republicano, e seus sucessores D. António Barbosa Leão, familiar da linhagem da Casa de Rande (Felgueiras), D. António Castro Meireles, D. António Ferreira Gomes, o mítico Bispo do Porto, mais D. Armindo Lopes Coelho (estes três naturais do Vale do Sousa, sendo o bispo Castro Meireles oriundo de Lousada, como era natural do concelho de Penafiel o célebre D. António da carta pró-memória a Salazar, enquanto D. Armindo foi ilustre felgueirense); além de outros que deixaram marca, como o Administrador Apostólico D. Florentino, e volvidos anos também D. Júlio Tavares Rebimbas, entre todos os que antecederam o tão admirado D. António Francisco dos Santos. 

»» D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto, em visita à igreja portuense de Nossa Senhora da Lapa, confraternizando com o célebre reitor da Lapa, o felgueirense Padre Luís Rodrigues, também compositor de música sacra e musicólogo de renome internacional «« 

Todos esses e restantes bispos completam a gloriosa galeria (a seguir exposta, em forma ordenada por fases históricas) de Bispos do Porto.

Lista de Bispos de Portucale:
Período Suévico-visigótico

- Viator (572-585)
- Constâncio (585-589) (bispo católico)
- Argiovito (585-610) (abjurou o Arianismo, em 589, durante o III Concílio de Toledo)
- Argeberto (?)
- Ansiulfo (633, 638)
- Flávio (656)
- Froárico (675, 683, 688)
- São Félix Torcato ou São Torcato Félix (693) (também Arcebispo de Braga)

Período da Reconquista cristã:

- Justo (873, 881)
- Gomado (908, 912)
- Hermógio (912, 924)
- Froarengo (?)
- Ordonho 931
- Énego, Nónego ou Diogo (1025)
- Sesnando (1049-1070)
- Pedro (1075-1091) (também Arcebispo de Braga)

Lista de Bispos do Porto

Período do Condado Portucalense e seguinte Nacionalidade / independência de Portugal 

- D. Hugo (1114-1136)
- D. João Peculiar (1136-1138) (também arcebispo de Braga)
- D. Pedro Rabaldes (1138-1145)
- D. Pedro Pitões (1145-1152)
- D. Pedro Sénior (1154-1175)
- D. Fernando Martins (1176-1185)
- D. Martinho Pires (1185-1189)
- D. Martinho Rodrigues (1190-1235) (envolvido em controvérsias com D. Sancho II de Portugal)
- D. Pedro Salvadores (1235-1247) (envolvido em controvérsias com D. Sancho II de Portugal)
- D. Julião Fernandes (1247-1260)
- D. Vicente Mendes (1261-1296)
- D. Sancho Pires (1296-1300)
- D. Geraldo Domingues (1300-1308), depois bispo de Évora
- D. Fradulo ou Trédulo (1308-1309)
- D. Frei Estêvão (1310-1312), depois bispo de Lisboa
- D. Fernando Ramires (1313-1322)
- D. João Gomes (1322-1327)
- D. Vasco Martins de Alvelos (1327/1328-1342), depois bispo de Lisboa
- D. Pedro Afonso (1343-1357)
- D. Afonso Pires de Soveral (1359-1372)
- D. João III (1373-1389)
- D. Martinho Gil (ou Martinho Egídio) (1390)
- D. João Afonso Esteves de Azambuja (1391-1398)
- D. Gil Alma (1398-1407)
- D. João Afonso Aranha (1408-1414)
- D. Fernando da Guerra (1416-1417) (antes bispo do Algarve e depois arcebispo de Braga)
- D. Vasco  II (1421-1423)
- D. Antão Martins de Chaves (1424-1447), cardeal
- D. Gonçalo Enes de Óbidos (1449-1453)
- D. Luís Pires (1454-1464)
- D. João de Azevedo (1465-1496)
- D. Diogo de Sousa (1496-1505), depois (arcebispo de Braga)
- D. Diogo Álvares da Costa (1505), sobrinho do cardeal de Alpedrinha, morreu sem tomar posse
- D. António Álvares da Costa (1505-1507), sobrinho do cardeal de Alpedrinha
- D. Pedro Álvares da Costa (1507-1535), sobrinho do cardeal de Alpedrinha, também bispo de Léon e de Osna
- D. Belchior Beliago (1535-1536), mais tarde bispo de Fez
- D. Frei Baltazar Limpo (1536-1550)
- D. Rodrigo Pinheiro (1552-1572)
- D. Aires da Silva (1573-1578) (faleceu em Alcácer Quibir)
- D. Simão de Sá Pereira (1579-1581)
- D. Frei Marcos de Lisboa (1581-1591)
- D. Jerónimo de Menezes (1592-1600)
- D. Frei Gonçalo de Morais (1602-1617)
- D. Rodrigo da Cunha (1618-1627) (futuro arcebispo de Braga)
- D. Frei João de Valadares (1627-1635)
- D. Gaspar do Rego da Fonseca (1635-1639)
- D. Francisco Pereira Pinto (1640) (nomeado por D. Filipe IV de Espanha, nunca chegou a tomar posse; a Sé Episcopal permaneceu oficialmente vaga até 1670, devido ao Papa não ter confirmado os dois bispos nomeados por D. João IV de Portugal)
- D. Sebastião César de Menezes (1641-?), eleito mas não confirmado pelo Papa
- D. Frei Pedro de Menezes (?-1670), eleito mas não confirmado pelo Papa
- D. Nicolau Monteiro (1670-1672)
- D. Fernando Correia de Lacerda (1673-1683)
- D. João de Sousa (1683-1696)
- D. Frei José de Santa Maria de Saldanha, O.F.M. (1697-1708)
- D. Tomás de Almeida (1709 - 1716) (futuro Patriarca de Lisboa; Sé vaga até 1741)
- D. Frei João Maria (1739), eleito mas não confirmado pelo Papa
- D. Frei José Maria da Fonseca de Évora (1741-1752)
- D. Frei António de Távora (1757-1766)
- D. Frei Aleixo de Miranda Henriques, O.P. (1770-1771)
- D. João Rafael de Mendonça (1771-1793)
- D. Lourenço Correia de Sá e Benevides (1796-1798)
- D. Frei António de São José de Castro (1799-1814)
- D. João de Magalhães e Avelar (1816-1833)
- D. Frei Manuel de Santa Inês (1833), eleito mas não confirmado pelo Papa
- D. Jerónimo José da Costa Rebelo (1843-1854)
- D. António Bernardo da Fonseca Moniz (1854-1859)
- D. João de França Castro e Moura (1862-1868)
- D. Américo Ferreira dos Santos Silva (1871-1899), cardeal
- D. António José de Sousa Barroso (1899-1918)
- D. António Barbosa Leão (1919-1929)
- D. António Augusto de Castro Meireles (1929-1942)
- D. Agostinho de Jesus e Sousa (1942-1952)
- D. António Ferreira Gomes (1952-1982), antes bispo de Portalegre e depois como Bispo do Porto ausente do país durante 10 anos (por exigência política do então governante da nação, Salazar)
= D. Florentino Andrade e Silva – Administrador Apostólico - durante o exílio político de D. António (1959-1969)
- D. Júlio Tavares Rebimbas (1982-1997)
- D. Armindo Lopes Coelho (1997-2006)
= D. João Miranda Teixeira - Administrador Apostólico - após o falecimento de D. Armindo e a entrada de novo bispo (2006-2007)
- D. Manuel José Macário do Nascimento Clemente (2007-2013), depois Patriarca de Lisboa e Cardeal
= D. Pio Alves de Sousa – Administrador Apostólico - entre a nomeação de D. Manuel Clemente como Patriarca de Lisboa e a entrada de novo bispo do Porto (2013-2014)
- D. António Francisco dos Santos (2014-2017)
= D. António Maria Bessa Taipa  – Administrador Apostólico - após o falecimento de D. António Francisco e a entrada de novo bispo (2017-2018)
- D. Manuel da Silva Rodrigues Linda (2018-...).

~~ * ~~ 


Perante a honra de Felgueiras ter tido um Bispo Titular da Diocese, D. Armindo (anteriormente também auxiliar e titular da diocese de Viana) e um outro Auxiliar e Administrador Apostólico da Diocese do Porto, D. João, recordam-se os mesmos através de imagens documentais alusivas.


~~ * ~~ 

Na mensagem, D. Manuel Linda nota que foi no Porto que surgiu “para a vida sacerdotal” e que exerceu “o sacerdócio colaborando na formação de novos padres”, regressando agora “como mais um de entre os muitíssimos que apostam tudo na evangelização e na promoção humana desta Diocese”.

De acordo com D. Manuel Linda, a diocese do Porto “sempre se distinguiu pela cultura dos seus membros, zelo missionário, santidade operante e sadia presença na sociedade”. “Trabalharei no Porto como tenho feito até aqui: «com Pedro e sob Pedro». Mas também «à maneira de Pedro». Isto é, pretendo ser um «missionário da misericórdia», um pastor com «o cheiro das ovelhas», um pai dos Padres, um irmão dos mais pobres e um fomentador do espírito ecuménico e de diálogo”, descreve. “Procurarei reconduzir a Igreja a uma tal simplicidade evangélica que a constitua referencial ético para o mundo atual”, acrescenta. O novo bispo do Porto refere-se também a uma Igreja “reformanda” e “sensível aos sinais dos tempos”.

“Se «daqui houve nome Portugal», como nos garante Eugénio de Andrade, também floresça uma Igreja conduzida pelo Espírito, sensível aos sinais dos tempos e sempre "reformanda", como pede o Papa Francisco e exigem os nossos contemporâneos”, afirma.

A Diocese do Porto saudou, entretanto, o seu novo bispo e o seu “regresso” ao local onde terminou o curso teológico, no Seminário Maior de Nossa Senhora da Conceição.

ARMANDO PINTO
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terça-feira, 13 de março de 2018

Vestígios histórico-literários de festividades tradicionais felgueirenses - Do Festival do Pão de Ló ao São Pedro!


A propósito da realização do já tradicional Festival do Pão de Ló, no Mosteiro de Pombeiro, aproximando-se a época da Páscoa em que esse doce leve e fofo faz parte da mesa familiar e da espera ao Compasso… bem como da seguinte Feira de Maio de lugar histórico no centro da antiga vila e atual cidade de Felgueiras… mais a festa religiosa de Margaride, o popular Corpo de Deus... e ainda a campanha em marcha para a continuidade da enraizada festividade do São Pedro, secular festa do concelho desde longos tempos no monte de Santa Quitéria, onde existiu a ermida dedicada ao patriarca da Igreja… damos desta feita uns relances por alguns dos testemunhos histórico-literários atinentes ao caso, em aspeto afetivo que vem de longe.  Entre afinidades enlaçadas ao sabor mítico do pão de ló da receita felgariana. 


Assim sendo,  numa olhadela ao Minho Pitoresco, obra de José Augusto Vieira, coloca-se o olhar da tradição no capítulo sobre Felgueiras, onde, nesse volume publicado em 1886 (quando a região de Felgueiras ainda pertencia à província do Minho) se pode ler algo que ganhou foros na tendência felgueirense.



Também dessa festividade que atraía gente "até de muito distante" ao monte da Santa, a antiga festa do terreiro de Santa Quitéria era noticiada na imprensa concelhia, como, volvidos anos, foi então relatada no Jornal de Felgueiras a 15 de Junho de 1912...


... bem como também n' O Jornal de Felgueiras de  20 de junho de 1914


Passando à festa paroquial de Margaride, o Corpo de Deus (que também tem tradição noutras freguesias, sobretudo na paróquia do Unhão), retemos uma nota noticiosa respeitante à festividade religiosa da sede do concelho, conforme publicação no jornal Semana de Felgueiras de 13 de junho de 1897:


Dando vez nas atenções Felgueirenses à Feira de Maio, iniciada em 1901 por iniciativa do Sindicato Agrícola, com aderência da Câmara Municipal e agentes do comércio local, essa foi norteada como grande festa do centro urbano, perante realização na então vila-sede do concelho. Criada na sequência de atividades associativas do setor agrícola, de que resultara anteriormente a criação de um sindicato e o surgimento do próprio jornal Semana de Felgueiras, como porta-voz informativo dos interesses dessa área extensiva à vida local. Num intuito alastrado a procurar uma maior intensidade dos laços de união histórica. Ou seja para ficar "o São Pedro" no alto de Santa Quitéria e "o Maio" na baixa do centro da então vila de Felgueiras.

Com efeito, foi então criada essa mescla de feira festiva por deliberação camarária de Março de 1901, ao tempo também denominada por feira franca e de periodicidade anual, desde logo ficando assente, como era originalmente, que se devia realizar todos os anos no primeiro dia do mês de Maio. Sendo sugerida oficialmente por representantes do sindicato agrícola, teve apoio de comerciantes do concelho, os quais propuseram que a então feira anual de gado cavalar, com lugar a 28 de Junho dentro do programa das festas do concelho, passasse a ser uma realização independente, no centro da vila sede do concelho, e com fins de mais vasto alcance: pois, além das trocas e vendas de todas as espécies de gado, passou a incluir a generalidade das ofertas constantes do mercado normal de produtos, com laivos de festa e arraial por meio de concursos para o gado em exposição, mais atribuição de prémios para os melhores cavalos, melhor junta de bois e melhor touro. Ao que em anos seguintes foram acrescidas outras valências, como em 1902 foi inserido no cartaz um aliciante popular através dum despique de cantigas ao desafio, sendo instituído um prémio para o melhor par de cantores repentistas da feira. Enquanto, desde esses primeiros tempos, era presença tradicional a Banda do Aniceto a dar toque filarmónico, tão apreciada pelo povo que era a música de banda. E em caso como esse, já que a Feira de Maio depressa ganhou contornos de acontecimento anual; de tal forma que extravasou fama para lá do horizonte regional, chegando a fazer com que acorressem a Felgueiras nessa ocasião muitos feirantes de Trás-os-Montes e das Beiras, como deu conta uma reportagem inserta na revista Ilustração Portuguesa, publicação de grande impacto à época.


Passados esses tempos, manteve-se no decurso de longas décadas, na sede concelhia, essa assim ultra centenária e anual Feira de Maio, em Felgueiras. Com lugar no primeiro domingo e seguinte segunda-feira desse mês. «Importante feira» essa que, segundo registava a referida histórica revista “Ilustração Portugueza”, em sua edição de 2 de Junho de 1919, se realizava «no largo fronteiro» (ao antigo edifício da Câmara Municipal, depois casa do Tribunal). Transformada em certame de enraizado cunho expositor de gado, através de concursos pecuários de criadores agrícolas e competição alargada a corridas de cavalos, além de outros números de lazer. Sabendo-se, conforme referia o jornal Notícias de Felgueiras, anos mais tarde, que constava no rol um desfile etnográfico chamado Cortejo das Lavradeiras; tal como, em diversos anos, incluiu mesmo provas populares de ciclismo.

Desse certame concelhio registamos uma noticia de 1944 inserta no jornal Notícias de Felgueiras, em sua edição de 11 de Maio desse ano.


Por fim, como no fim o evangelho coloca primazia, eleva-se doce recordação duma ocorrência respeitante ao afamado pão de ló, segundo notícia difundidada ao tempo no Semana de Felgueiras de 24 de dezembro de 1904   em época natalícia, quando o doce felgueirense sempre dividiu toalhas, também, com a tradicional doçaria da época:


Armando Pinto
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segunda-feira, 12 de março de 2018

Apontamento de fragmentos…


Sem ser só, mas também, por estar em voga certos factos de plágios e outros que tais “copianços” (não contando ao caso se intencionais ou não), calha aqui e agora recuperar algo de memória dum caso menos importante, obviamente. Apenas relembrado como mera curiosidade, contudo também de reposição real. De foro particular, realmente verídico.

Ora, aqui há uns anos num livro sobre o concelho de Felgueiras (“Felgueiras Tradição com futuro…”), publicado em 1996 por uma editora da região do Vale do Sousa, com apoio patrocinador de firmas de comércio e indústria felgueirenses e até do Município de Felgueiras, ao tempo, foi transcrito um excerto dum trabalho escrito pelo autor deste blogue, entre material cedido graciosamente para o efeito, do original então ainda datilografado que no ano seguinte também teve edição pública. Anos depois, algumas passagens desse original apareceram numa publicação sem indicação da autoria. E mais tarde, idem aspas, noutro sítio público.

Visto isso, coloca-se aqui um desses apontamentos, em fragmentos, conforme teve publicação devidamente creditada no referido livro, apenas por “mor das coisas” – antes que ainda apareça alguém a querer dizer que houve plágio de quem escreveu isso antes, de tudo o resto surgido a público depois…


Armando Pinto
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sexta-feira, 9 de março de 2018

Flores diferentes no jardim das afinidades felgueirenses - Exercício de palavras e memórias de mais um artigo no Semanário de Felgueiras



(Artigo escrito no primeiro fim de semana de março e publicado no Semanário de Felgueiras de sexta-feira seguinte, edição de 09 - 3 - 2018:)


Curiosidades… e afinidades!

Viana tem Santa Luzia, Felgueiras Santa Quitéria – salvo distâncias e diferenças – de panoramas a tocar na imensidão dos afetos; como também a Penha está para Guimarães, o Bom Jesus em Braga, e aos olhos de Lousada o planalto do Senhor dos Aflitos, mailo Monte Crasto para Gondomar, quão a vista do alto da Assunção encima Santo Tirso e por aí adiante. Na diferenciação de tratamentos e aproveitamentos. Tal como na memória da gente felgueirense resiste o carisma do antigo Externato Infante D. Henrique, nas letras de Lousada perdura o idealismo do antigo e também desaparecido Eça de Queirós, como o Externato de Vila Meã faz lembrar ser essa a terra de Agustina.

Numa associação assim de afinidades, Felgueiras tem também relações e memórias ligadas ao desenvolvimento industrial através de firmas antigas de grande impacto na vida concelhia, com papel relevante e natural à primazia do Pão de Ló de Margaride, no sentido emblemático da rosca desse doce tradicional fofo. Mas também, por extensão ao labor das gentes locais, a empreendimentos industriais, por meio de fábricas geradoras de progresso e rentabilidade social, como foi a Metalúrgica da Longra, do grande industrial Américo Martins, a pontos de ter incluído filme promocional do desenvolvimento do país na década de cinquenta, num dos documentários que passavam nas salas de cinema a anteceder filmes de matinés e soirés de antanho; bem como a SIC, cuja firma teve nome expansivo em atos e obras da lavra original do grande felgueirense Teófilo Leal Faria; mais outras das primeiras fábricas grandes de calçado; e especialmente a Marfel, das primeiras camisas de popelina feitas em série, mais lenços de estilo, que levavam o nome de Felgueiras bem longe, incluindo a sua marca duma rosa negra. Tendo a MIT/Metalúrgica da Longra sido um caso especial, de forma que até proporcionava sessões de filmes e espetáculos para as famílias dos operários e teve um boletim próprio, como ainda ensino pós-laboral para o seu pessoal; enquanto a Triple Marfel criou seu Rancho Folclórico institucionalizado, cuja existência proporcionou a realização do 1º Festival de que houve memória em Felgueiras. Entre exemplos diversos de pioneiras organizações tocantes ao surgimento dessas e outras empresas coevas.


Ora, nesses tempos de eras passadas foi pois essa tal rosa negra, bordada a meio dum lado das camisas, que deu mais visual a esse produto que quase não precisava de reclame, e como tal se pode referir, por assim dizer, passados já os tempos das sucessoras camisas de nylon e tudo o resto, mais cortes cintados, pois que atualmente está tudo diferente e modernizado. Havendo ideias que ficaram, do que houve e perdura, mesmo sem nada ter a ver.

Vem a talhe, assim, que por estes dias surgiram em Felgueiras, pela sede do concelho, quase discretamente, umas pequenas flores pintadas nalguns pontos da cidade, a cores. Sem que alguém saiba o significado desses pequenos ramos estampados, a não ser obviamente no conhecimento de quem teve a autoria dessa ideia tipo espalha flores, de feição estranha e contudo com seu quê interessante, para lá dum elã enigmático. Aparecendo diante dos olhos, para quem direcionar o olhar rente aos passeios, umas florzitas em sítios diversos, parecendo ao calha, mas a dar ideia de como a vida pode ser colorida com coisas simples, desde que não estrague nada. O que logo deu para lembrar flores noutros tempos existentes em suportes suspensos, mas entretanto desativados… e as tais flores, da camisaria que outrora promoveu o nome Felgueiras, então mais conhecido pelo vinho verde e outras condicionantes associadas. Negras as rosas antigas, mas parecidas com as coloridas de agora. E como tudo o que é público nos traz memórias e associamos sempre a alguma coisa comum, qual jardim (daquelas coisas estranhas que se podem entranhar), diremos, serão essas umas flores de lugar de lembranças, regadas então na memória do que a cidade reflete. 


ARMANDO PINTO
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quinta-feira, 8 de março de 2018

Em Dia da Mulher: Vislumbre histórico por mulheres felgueirenses memoráveis!


Passando neste dia 8 de março o anual dia dedicado às mulheres, calha a preceito uma dedicatória também ao sentido feminino felgueirense, aqui como espaço afeto à valorização do que honra as terras e gentes felgarianas. Postando-se, como exemplos que se prestam ao tema, o caso das mulheres de antanho que estiveram junto com seus homens na fundação da Corporação dos Bombeiros Voluntários de Felgueiras. Através das quais surgiu o primeiro estandarte e, com seu toque feminino, foi dada forma aos símbolos da instituição. 


Algo que até vem a talhe nesta fase em que tal coletividade passa por momento histórico de expansão, com a atual ampliação do quartel, em ampliação, calhando bem recordar personalidades antigas com ação marcante na respetiva existência – como a imagem faz recordar por meio dum grupo de senhoras de tempos idos.

ARMANDO PINTO

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terça-feira, 6 de março de 2018

Antiga carta geo-topográfica do Distrito do Porto, com Felgueiras… ainda também salientada por Margaride!


Veja-se… Carta do Distrito do Porto com a indicação das (então) novas estradas até 1885. Sendo aí indicados devidamente todos os concelhos do distrito, com Felgueiras ainda salientada pela anterior topografia conhecida de… Margaride, além naturalmente do termo do próprio concelho.  Da anterior importância do nome agora circunscrito à freguesia central; e mesmo assim já a diluir-se na atual união de freguesias, se vingar essa farsa, das diversas aberrações… quanto ao atual estado administrativo no território concelhio felgueirense.


Uma curiosidade, patente no referido mapa de testemunho histórico, hoje em dia perdurável desse conhecimento no famoso pão de ló que manteve anterior nome matricial.

Armando Pinto
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domingo, 4 de março de 2018

Figura de Pároco de Freguesia na Identidade local – Com ilustração de sacerdotes de ligação Felgueirense


É sabido que ao fazer-se um arrolamento procura-se não deixar nada esquecido para trás, como sói dizer-se. Em analogia, numa tentativa de fixação como esta de lembranças antigas do concelho que nos tocou ao nascer, procurando vincar memórias ainda que ténues ou completamente esquecidas, por vezes, do que particularizou os tempos passados desta região Sousã, e consequentemente tendo presente lembrar o mais possível aquilo de que possamos ter algum conhecimento derivado da obtenção de informes recolhidos e estudados, merece igualmente registo o papel desempenhado em eras mais ou menos recuadas pelo pároco de freguesia. Metendo-se assim no rol de afinidades populares de sabor ancestral o apego das gentes de cada território ao Abade da respetiva paróquia, ou seja inventariando-se em processo evocativo esse personagem carismático que foi o denominado pároco da terra na vivência comunitária do povo seu freguês, que o considerava, como se ouve ainda da boca de muita gente, o “nosso Padre” - de todos e de cada um dos paroquianos.

A preponderância desse cargo de unidade na vida local merece pois que se faça relação de enquadramento, de molde a que se percebam os diversos estados por que passou o mister.

Abade, nome antigamente atribuído a clérigo superior, teve inicial significado como responsável de ordem monástica, denominação que nalgumas ordens religiosas ainda se mantém. No decorrer dos tempos passou a designar o pároco de uma igreja que tivesse outros clérigos em funções auxiliares, os quais estavam então sob a sua autoridade, sendo a igreja respetiva chamada abadia - fosse qual fosse o tamanho do templo paroquial. Na atualidade é o pároco de uma paróquia ou de várias freguesias anexas em administração religiosa.

Convém todavia anteceder, em retrospetiva cronológica, um remirar do aspeto da formação paroquial. A circunscrição territorial denominada Paróquia, com igreja própria e uma população a ela adstrita, além de sacerdote incumbido do cuidado das almas, foi uma consequência da maneira como inicialmente se expandiu o Cristianismo nos meios urbanos e rurais, onde penetrou popularmente, a originar construção de templos nos lugares mais indicados, especialmente altos ou medianos locais fortificados (Castella ou Castelo) e perto das Villas (Villae). Em continuação ou substituição dos Castros primitivos e os Paços das Villas de antigamente, com o aparecimento do Cristianismo e dada a sua importância aglutinadora de comunidade, as Villas foram passando a Paróquias, resultando no sistema que melhor contribuiu para a organização da sociedade.

As invasões muçulmanas haviam interferido nas primitivas organizações comunitárias, perturbando o sistema organizativo hispano-godo herdado do regime das Villas romanas e godas romanizadas. A intolerância religiosa e as destruições, contudo, foram banidas com a Reconquista Cristã, sendo definitivamente implantada a organização paroquial, originando a maioria das paróquias atuais, inicialmente por iniciativa das autoridades locais. Esses proprietários em geral confirmavam o clérigo encarregado de gerir o culto e recebiam créditos em troca do Padroado que exerciam, direitos que foram hereditários nos primeiros tempos... Enquanto as fundações religiosas apareceram e cresceram em muitos povoados, com doações que de permeio se sucederam, aumentando o património paroquial. A real origem das freguesias baseou-se assim nesses antigos povoados, considerados os seus residentes como filli eclesi, filhos da igreja, congregados mediante alguma delimitação fronteiriça, em volta de um templo local, de campanário querido aos ouvidos dos naturais habitantes locais.

Nos primórdios da criação das freguesias rurais, como eram quase todas nessas remotas eras, após as lutas da Reconquista, quando estas terras foram repovoadas, desenvolvendo-se a partir de pequenos aglomerados de exploração agrária (as villas dos presores estabelecidos como guardiões), foram os povoadores que como grandes proprietários leigos edificaram construções destinadas ao efeito religioso na própria comunidade assim criada. Pelo que o pároco era nomeado pelo senhor do Padroado – fidalgo que detinha direitos inerentes, consistindo o caso em privilégios concedidos pela hierarquia eclesiástica aos fundadores de uma capela ou igreja. Conforme rezam as crónicas, esse direito inicialmente baseava-se em regalias resultantes da gratidão da Igreja para com o benfeitor, cuja propriedade depois passou aos descendentes, os quais dispunham das rendas de tudo o que existisse nas terras incorporadas nesse presbitério, além de nomearem os clérigos para administrarem o culto local nas comunidades instituídas, e, nalguns casos, mesmo bispos para representatividade da união de diversas paróquias, ditas já então dioceses. Na evolução temporal o clero (como poder religioso) acabou por chamar a si essas nomeações, ficando o senhor feudal (poder temporal ou secular) só com o direito de apresentação, prerrogativa de indicação de candidato a Prior para o lugar no Priorado, quando vagasse.

Mais tarde, em doações e heranças transmitidas por sucessão, algumas regalias do padroado, tais como posse ou usufruto de propriedades incluídas, pois que haviam quintas de posse paroquial, foram legadas a mosteiros, transferidas para a Coroa (em poder do rei, passando como tal a ser prédios reguengos) ou trespassadas a donos particulares, sem contudo se desmembrarem os bens da igreja local em que as suas terras estavam incorporadas eclesiasticamente, ou seja sem se diluírem as fronteiras da paróquia.

Segundo está documentado, aquando da fundação da monarquia portuguesa já o norte de Portugal estava dividido em pequenas paróquias, constituídas em redor de igreja de que os fiéis se sentiam membros, como filhos dessa igreja (filli ecclesiae, expressão latina de que derivou por uma via filigreses, fregueses; e por outra freguesia). Aí as freguesias dos sítios provindos de génese goda, cujos topónimos de raiz germânica revelam a procedência, locais esses que de permeio haviam integrado a Honra do Unhão e posteriores Julgados de Unhão e Felgueiras, estavam então integrados na diocese de Bracara, que fora presidida por célebres Pastores, desde Balcónio, passando por S. Frutuoso até ao bispo Felix (período suévico-visigótico), de permeio com galeria da Mitra temporariamente sediada em Lugo (Galiza), iniciada com Odoário e extinta com Vistrário, seguindo-se, com o avanço expansionista da Reconquista Cristã (de território que estivera ocupado por mouros), antes ainda da independência do reino de Portugal, a restauração da Sé de Braga com o histórico bispo D. Pedro.

A interligação de afinidade galaico-portucalense ficou então patente, entre muitos exemplos, na palavra comum com que à época se denominavam os párocos: “Curas”, os quais, por extensão semântica, curavam as freguesias. Estava implantado o Rito Bracarense, com réstias do Rito Gótico a formar modalidade de liturgia romana implantada por S. Geraldo, passando desde então a área da Corte Eclesiástica de Braga a ter esse uso particular que incluía diferentes breviários e missais, entre diversas diferenças às demais províncias religiosas. O clero superior era já detentor de direitos de receber pagamentos, sobretudo dízimos que, contudo, como eram desviados para outros fins, ficando o clero paroquial sem receber oblatas, passou a existir obrigatoriedade de ofertas dos fregueses para recurso dos prelados locais.

Entretanto, nessas épocas de constantes transformações, a região em apreço passou a pertencer ao património da Condessa Mumadona, fundadora da Colegiada de Nª Sª da Oliveira de Guimarães, período em que essa comunidade deteve primazia sobre o clero paroquial das redondezas que se estendiam ao termo de Felgarias Rubeas. Com as paróquias definitivamente constituídas, entre os séculos XII e XIII, segundo se nota nas Inquirições de D. Afonso III, os párocos eram ao tempo chamados Prelados, tendo companhia de um presbítero-capelão que, detendo missão de administração dos sacramentos, servia de cura (tendo essa denominação nesse tempo o atributo de coadjutor, um sacerdote auxiliar à espera de atribuição de paróquia).

Com o muito lembrado D. Frei Bartolomeu dos Mártires à cabeça, houve profunda remodelação Bracarense, sob cujos domínios estavam dependentes diversas dioceses. Curiosamente, esse Personagem célebre beatificado em 2001, depois de cerca de 400 anos de processo canónico, nascera precisamente no ano da atribuição por D. Manuel I do Foral de Felgueiras, em 1514. E por certo percorreu as freguesias de Felgueiras em visita, sabendo-se que empreendeu périplo por todas as paróquias da diocese de Braga, a que a região Felgueirense pertencia. Desde então a formação sacerdotal, que até ali tinha sido ministrada em mosteiros e até por acompanhamento particular de prelados amigos ou familiares dos aspirantes ao sacerdócio (já que era normal nessas épocas seguir-se a carreira canónica por tradição familiar e outros motivos, mesmo económicos em tempo de morgadios e diversos motivos mais), passou a partir de 1566 a ser dirigido o ensino formativo em casa apropriada para a devida instrução, como centro de Cânones à espécie de viveiro procriador de estudos sacros, denominado seminário. Sendo assim instituído no país o primeiro estabelecimento oficial de ensino formativo clerical, o Seminário Conciliar de S. Pedro de Braga, para cuja sustentação foi lançada uma taxa sobre os rendimentos dos mosteiros e igrejas sob sua alçada, pelo que todas as paróquias contribuíam através de renda anual (por exemplo, pelo Tombo novo de S. Tiago de Rande, sabe-se que nesta paróquia ainda em 1743, quase volvidos dois séculos, era pago tal foro em moedas de réis e colheitas, para esse fim).

Na continuação dos tempos, pertencendo as paróquias desta região à Visita da Segunda Parte de Sousa e Ferreira (zonas atribuídas a visitadores, género de delegados responsáveis por determinadas áreas, neste caso uma das duas partes em que se subdividia a parcela entre terras banhadas pelos rios Sousa e Ferreira), os sacerdotes administrantes das paróquias eram denominados Reitores quando representavam certo número de Abades e Vigários, párocos de abadias e vigararias das redondezas, tendo ainda os abades continuação da ajuda de coadjutores, bem como de clérigos que não exerciam paroquiado, os quais haviam só fixado residência em propriedades próprias dentro do território paroquial, como também existiam sacerdotes aposentados dependentes da representatividade do Abade da mesma paróquia.

O Abade Prior (como antigamente também era conhecido) surgia então aos olhos da História como descrevem Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco e Júlio Dinis nalguns protótipos insertos nas suas narrativas de contos, romances históricos e novelas campesinas.

Foram acontecendo transformações, pelos séculos fora, com toda a amálgama de acontecimentos narrados nos compêndios, misturando-se, distanciando-se e reaproximando-se as relações do clero com a representação secular, estando o povo sempre atento ao que o seu Padre dizia e fazia, ainda que pontualmente surgissem cisões ou choques entre pároco e representantes de Irmandades ou Associações de serviço paroquial, não havendo porém conhecimento de mais nada que não fosse a superior imagem difundida pelas vestes e cabeção do Abade Colado, pároco da Colação (paróquia).

Em 1881 (por Bula do Papa Leão XIII, executada na prática em 1882), sendo Arcebispo de Braga D. João Crisóstomo de Amorim Pessoa, as freguesias então incluídas no concelho de Felgueiras (completo desde 1855) passaram para a diocese do Porto, graças a reforma de limites diocesanos trabalhados pelo Cardeal D. Américo Ferreira dos Santos Silva, bispo do Porto, que fora encarregado da execução, através da referida Bula Gravissimum Christi, definidas que foram as novas circunscrições diocesanas em 4 de Setembro de 1882. Desse modo este Prelado Portuense, ao tempo, foi o primeiro que a região de Sousa conheceu na sua ligação à Cúria da Sé do Porto (em que se lhe seguiram sucessivamente, depois, os bispos D. António Barroso, D. António Barbosa Leão, D. António Castro Meireles, D. Agostinho de Jesus e Sousa, D. António Ferreira Gomes, de permeio com Administração interina de D. Florentino Andrade e Silva, continuando nos tempos seguintes com D. Júlio Tavares Rebimbas, D. Armindo Lopes Coelho, a quem sucedeu interinamente como bispo administrador D. João Miranda Teixeira, até à chegada do seguinte bispo residencial, então D. Manuel Clemente).

Para trás foram ficando eras ainda revistas em memórias pela fisionomia coeva do abade da freguesia, desde o chapéu quadrado de bicos, mais capa sobre a batina, até sucessor chapéu largo e casaco comprido, conhecido por “Agostinho” (por ser do tempo do bispo D. Agostinho), sendo o senhor Abade das sucessivas gerações uma presença assídua entre os paroquianos, em constantes passagens pelos caminhos e atalhos dos cerrados, nas idas às casas fidalgas onde era habitual convidado e “dizia missa” nas capelas próprias de algumas mansões solarengas, mesmo em visitas amiudadas às casas dos fregueses, a pé ou a cavalo, e parando para conversar até no meio dos campos onde os lavradores labutavam; além de ser pessoa com que se podia contar em casa, para qualquer chamamento ou atendimento. Na igreja, perante o hábito com que chegava o latim da missa aos ouvidos, as atenções pendiam sobretudo no altar-mor, em que esse respeitável dignatário ficava mais perto do sacrário e dos cimeiros degraus do trono. Delegado divino que se via a passear no adro ou pelo passal a ler o breviário como a meditar, se visitava no escritório de muitos maços de manuscritos carcomidos e amarelados, a par de estantes com grossos volumes, compartimento aquele da Residência onde estavam os livros de registos e dos assentos, na mesma casa paroquial onde era dado o café às crianças da comunhão, de cujas janelas e escadas apreciava as brincadeiras pueris nos ínterins da catequese, tal como na sacristia ouvia e dava conselhos, se inteirava das problemáticas e ocorrências quotidianas, enquanto respeitava e preservava os usos e costumes locais, presidia a cerimónias religiosas e acontecimentos públicos, criava dotações terrenas atinentes ao progresso da qualidade de vida (já que os Párocos chegaram a ser, até inícios do século XX, os Presidentes das Juntas da Paróquia – criadas por Decreto de 26 de Junho de 1830, em substituição da antiga Irmandade da Confraria Paroquial do Sub-sino, para administração dos rendimentos das igrejas e propriedades paroquiais, competências que posteriormente, a partir de 1910, seriam acrescidas da administração civil). Funções aquelas antepassadas que, mais tarde, evoluíram com incidência no desenvolvimento cultural e fortalecimento religioso da população, ao passo que o pároco conhecia tudo e todos, como acorria ao que fosse quando necessário, de portas abertas até ao toque das Trindades (tal como mesmo depois, conforme texto sobre “Antigos Usos e Costumes Paroquiais”), sem nunca desperdiçar nem poupar palavras e actos previdentes de acompanhamento à comunidade, fazendo-se enfim membro da freguesia.

Muitas transformações se operaram no decurso dos séculos, relativamente aos tempos assim descritos. Sucederam-se outras cambiantes às anteriores épocas das comissões do Sub-sino e às transmissões de abadiar as freguesias quase hereditárias (passando de tios a sobrinhos e por aí adiante, até que começou a haver nomeação dos abades, enviados como representantes do bispo), chegada que foi a partir de 1926 a era da Corporação da Fábrica da Paróquia, composta por representantes dos paroquianos e presidida pelo Pároco, por sua vez nomeado pelo bispo da diocese para exercer a respetiva paroquialidade.


Na chegada dos anos setenta, do século XX, sobretudo, fazendo-se já então notar falta de sacerdotes em número suficiente à renovação necessária, começaram as freguesias desta região a sentir os efeitos da falha de ordenandos e inexistência de sucessores, resultando envelhecimento sacerdotal na zona. Sucedeu aí, com a morte dos mais antigos abades, que se abateu frémito da sua ausência, sem continuidade sucessora. Desaparecidos assim alguns párocos residentes que eram os últimos como tais, deixando então de haver sacerdote da freguesia em que o povo via personalidade-mor e pastor. Substituídos que foram nalgumas freguesias os párocos próprios por administradores, padres estes com diversas paróquias ao seu encargo. Apesar do inicial desânimo, certo afastamento ou pelo menos distanciamento e desorientação, não desapareceu de todo, contudo, a atração suscitada pela personagem do pároco, notando-se como a sua voz e opinião arrastam consigo uma significativa parte das pessoas, sendo assim ainda força motriz de realizações que só a sua imagem de comando e chamariz consegue com respeito ao materializar de aderências tendentes a realizações, quando o povo sente interesse do pároco na terra que administra religiosamente, enfim havendo pontos comuns. Reacendendo-se a chama de fogo que ciclicamente possa estar mortiça, avivada quando é reforçada a velha afinidade de ligação ao culto religioso e fraternal. Acrescido do facto de, nos dias que correm, a nova vaga clerical estar a obter bons resultados na co-responsabilidade solicitada à comunidade, através de grupos de trabalho nomeadamente, para o empenhamento na vida comunitária. Como no caso da Comissão Fabriqueira (como é mais conhecida a Comissão da Fábrica da Paróquia, também chamada de Comissão Económica), responsável pela gestão das propriedades e defesa dos interesses paroquiais, cujo desempenho, nos dias de hoje, tem parceria consultiva no Conselho Paroquial da Pastoral.


Pesados os fastos, fica a ancestral ligação do povo ao seu Abade como simpática característica da identidade paroquial desde longos tempos enraizada, como centro da gravidade destes núcleos populacionais que ainda acorrem ao sentido do sineiro toque da freguesia.

(Junção de textos em tempos publicados no “Semanário de Felgueiras”, de material entretanto ainda guardado em espera, para um possível futuro livro.)

= Como ilustração, apenas, no sentido de puxar pela memória coletiva, juntam-se algumas imagens de fisionomias de sacerdotes de ligação felgueirense, uns mesmo naturais e outros de passagem ou fixação residencial nalgumas das freguesias do concelho, dos quais alguns entretanto desaparecidos e outros ainda bem presentes entre nós. Naturalmente mais ou menos conhecidos. Desde a cimeira imagem de dois antigos párocos, que estão devidamente identificados no livro “Memorial Histórico de Rande e Alfozes de Felgueiras”, até aos que ficam nas ilustrações distribuídas ao longo do artigo.

Armando Pinto
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