Espaço de atividade literária pública e memória cronista

domingo, 8 de novembro de 2015

História aniversária


Hoje faz anos o Tiago, meu neto, o segundo na linha de sucessão, dos dois que tenho sempre em meus pensamentos abraçados. Mais um dos meus descendentes que ficarão com ligações à Longra e a Rande, do avô.

Em vista disso, sob auspícios desta efeméride, deixamos agora aqui uma simples mas merecida lembrança à memória local, desta feita prestada como homenagem do autor às pessoas que se dedicaram à nossa terra e fizeram da Longra o que já foi.

A nossa memória comum é feita de pessoas que nos tocam de forma fantástica. A área da atual vila da Longra muito deve ao caráter interventivo de certas pessoas, como é feita menção no livro da história da região, e ao seu amor pelo rincão afetivo, podendo dizer-se, como antigamente diriam, que havia Longrinos e Longrenses - tal a respetiva categoria extra ou normal…!

Longra, 08 de Novembro de 2015

Armando Pinto

sábado, 7 de novembro de 2015

Desfolhadas e Culto dos Mortos nas Tradições de Outono


Passados os dias em que as abóboras foram rainhas da festa, como aconteceu na noite em que tiveram primazia as botefas esburacadas a fazer de caveiras, chega ocasião de se recordar algumas das antigas tradições relacionadas que antigamente eram uso da nossa região felgueirense.

Pois então, no tempo outonal do cair das primeiras folhas, após época das vindimas, assenhoreia-se a era das desfolhadas típicas da região, bem como derivadas curiosidades da memória local.

Em iniciativas que têm subjacente a preservação de antigos costumes, nos tempos que correm vão-se ainda realizando algumas desfolhadas tradicionais, agora normalmente no âmbito de atividades de Ranchos Folclóricos, mediante os quais elas são levadas a efeito em diversos locais. Tais recriações dessa antiga festa doméstica popular, além de servirem de convívio de grupos congéneres, têm o condão de juntar interesse da população, contando quase sempre com o calor da presença de muita gente curiosa e interessada, prestando-se ainda isso como jornada de trabalho das agremiações etnográficas, cujos elementos por norma trajam à maneira antepassada, servindo a preceito para fixação fotográfica de diversas fases dessa faina, em vista a recolha documental para acervo de memória arquivista.

No entanto, embora as desfolhadas tenham ganho estatuto saudosista nas cambiantes mais típicas, ora revivalistas, ainda existem trabalhos desses, contudo, através de serões passados nos beirais das quintas que restam de amanho doméstico, realizando-se assim desfolhadas caseiras ainda no início do século XXI (pelo menos em determinadas zonas), só que em menor escala e sem grande alarido nem demasiadas atenções, no sentido congregador de gente, como noutros tempos. Tal qual a maneira de lidar com o desfolhar das espigas, sem tanto esmero nem precaução de separação das folhas (pois que antigamente o folhelho tinha aplicações no enchimento de colchões, por exemplo), já que nos tempos atuais os restos rifados são apenas tidos como desperdícios.

=Desfolhada particular, no caso numa propriedade da região, em 2002, com gente do Rancho da Casa do Povo da Longra. =

Pois o caso traz a talhe um vislumbre recordatório. Com efeito, nas desfolhadas antigas, finda a labuta diária e amontoadas as espigas às cibanas na eira ou no beiral (conforme o aspeto meteorológico), juntavam-se aos da casa os casais vizinhos mais a filharada e amigos comuns, além da juventude da zona que ia no fito de namoriscar as beldades locais, através das danças preambulares, conversas de distração durante o trabalho, abraços da praxe se fosse ocasião (de quando aparecia uma espiga-rainha de milho-rei avermelhado) e, por fim, nas danças do encerramento, enquanto todos cantavam, sempre com preocupação de não deixar qualquer “pombo”, que era o folhelho em montão preso ao estrepe saído da espiga – devendo as folhas ficarem soltas, para que servissem ainda para encher colchões e travesseiros de camas, como para fabricação de mortalhas de enrolar cigarros, passado tempo, depois de secas e passadas a ferro...

Nesse trabalho de diversão amenizado, ao passo que se desfolhavam as espigas em conjunto, punham-se grupos à porfia a cantar, homens e mulheres, rapazes e raparigas, enquanto os cestos eram cheios quase por brincadeira. E, para além das cantigas, durante a desfolhada comia-se e bebia-se, pois que na “tira” o anfitrião mandava a mulher (esposa) e os filhos procederem à distribuição de pão e aguardente ou vinho, fruta e o que calhasse, após o que toda a gente só pensava na dança habitual. De permeio, na roda de dança, a roubar o par por costume, cantava-se sempre mais e mais. Na ocasião, por sistema, uma tocata costumava animar o ambiente, culminando tudo em danças de roda após preparo do local com habitual varredela da eira com canhos, seguindo-se então momentos agradáveis com danças de viras gerais, à conquista de corações. Paixões que, por vezes, quando acirradas em rivalidades, descambavam em zaragatas, quantas vezes por meio de lutas do jogo de pau.


Mas a quadra em apreço ainda transporta a outras recordações, pois que também, relacionado com estes hábitos populares, ocorriam nos idos tempos de antanho outros curiosos costumes no percurso desses trabalhos comunitários. Assim, na ida para as desfolhadas e no regresso das mesmas, havia a tradição de a brincar se lembrar as almas do outro mundo. Então, esse rito alongava-se à proximidade do inverno, quando as noites eram mais cerradas e frias. Por ocasião dos “Santos” cumpria-se, dessa forma, um ritual associado ao culto dos mortos. Nessas caminhadas, iluminadas por lampiões contra a escuridão da noite, indo as mulheres envoltas em xailes, vulgo malhões, os homens em espessas samarras, e a juventude de quente sangue na guelra, ciosa de que a noite não tinha cancelas, com suas cantigas acordava o ar gélido e dava largas à folia. Então os rapazes, para impressionar as raparigas e espairecerem o ambiente, seguindo os usos, exibiam “botefas” (abóboras) ocas e esburacadas com recortes a imitar olhos, nariz e boca em arremedo de caveiras, as quais eram iluminadas no interior com velas acesas – dando um efeito tétrico, desanuviado no entanto pela algazarra alegre dos conjuntos de ranchos de pessoas que entoavam bem alto cantigas de seu gosto.

= Conjunto de membros do Grupo de Teatro da Casa do Povo da Longra, em representação alusiva, como participantes no Desfile da Noite das Bruxas, pela Longra, na passagem de 31 de Outubro para 1 de Novembro – em 2002.=

Era pois a época dos Finados. Passado Outubro, “que recolhe tudo”, o calendário traz a evocação dos mortos no princípio de Novembro. O culto da saudade dos finados, porém, não tinha apenas afinidade religiosa, mas também relação com a etnografia e o folclore. Aspetos sociais que sempre respeitaram a memória dos antepassados, desde ereção popular de velhos cruzeiros colocados em sítios de antigas ocorrências funestas e painéis votivos de Alminhas em alusão e prece às penas do Purgatório, no sentido de permanente lembrança dos desaparecidos, até à afirmação patente no cuidado com os restos mortais dos ente queridos nos cemitérios, em tudo, enfim, evocando-se e sentindo o silêncio da morte.

Antigamente, em terras do concelho de Felgueiras, essa índole tinha anual comemoração popular, cujo ritual começava na noite dos Santos, como o povo aludia ao Dia de Todos os Santos e Fieis Defuntos (assim celebrados conjuntamente, apesar de distribuídos por dois dias seguidos, em datas dedicadas pela Igreja). Esses hábitos tradicionais reluziam com a colocação de luzes em pontos visíveis no exterior das habitações, por meio de candeias, lamparinas (com pavio a arder em azeite) ou velas, em louvor dos saudosos defuntos.
 
Costumes diferentes dos que agora, de finais do século XX aos princípios do XXI, começaram a ser importados do estrangeiro com a chamada noite das bruxas, alegando andar o diabo à solta – talvez enfurecido, sabe-se lá, com a lembrança dos defuntos santificados, mas não só, derivado a tudo o que anda associado ao espírito nas crenças remotas.

Havendo sobretudo um claro sentido da vida eterna, o facto espairecia contudo nas tradições próprias da época, pois que só tristezas não pagam dívidas, conforme se diz. E, com estas e outras formas, o povo sempre procurou fazer da morte uma razão saliente da própria vida.

Armando Pinto

(Crónica publicada no Semanário de Felgueiras há já alguns anos, com adaptações para trabalho guardado para um futuro livro, à espera de possibilidade de publicação).

A. P.
((( Clicar sobre as imagens, para ampliar )))

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Um livro antigo, sobre o famoso Zé do Telhado


Com a chegada invernosa do Outono e propício ambiente de serão caseiro, no calor envolvente das lembranças, como antigamente se contavam histórias à lareira em roda familiar, vem a calhar fazer uma referência a um personagem que noutros tempos fez parte do imaginário popular das gentes desta região – o famoso "Zé do Telhado", figura quase romanceada de verdadeiro chefe de um bando de homens, o tal que roubava aos ricos para dar aos pobres, como ficou na tradição popular. Inclusive merecedor da pena literária de Camilo Castelo Branco, que o descreveu nas suas "Memórias do Cárcere".

Ora, Zé do Telhado, é por estes dias tema de uma exposição na biblioteca municipal da vizinha vila de Lousada, sabendo-se que ele, José Teixeira da Silva, viveu em Caíde, S. Pedro de Caíde de Rei (nesse tempo ainda do antigo concelho de Santa Cruz de Riba-Tâmega, com sede em Vila Meã, mas hoje do concelho lousadense), onde casou, aqui próximo até, sendo natural de Castelões de Recezinhos, no concelho de Penafiel. Bem como teve uma casa no concelho de Paredes, que ainda resiste ao tempo com suas paredes sob cobertura de colmo. Tendo José do Telhado ficado associado a diversas histórias do povo desta nossa região do sul do concelho de Felgueiras, contando-se loas de suas andanças por aqui e vindas às feiras e romarias das redondezas. Além de terem ficado na transmissão popular os assaltos de seu bando a casas como a de Junfe, à do Padre Albino e à do reitor de Ermeiro, por exemplo.

Como tal, Zé do Telhado era muito admirado pelo povo, a pontos de nas feiras e festas populares se venderem “a pataco” livros a contarem suas façanhas, considerado como era um género de Robin dos Bosques à maneira portuguesa.


Pois um desses livros (esse destas imagens, acima), dos que meu avô materno comprou e guardou, chegou até ao autor, graças a minha mãe, que bem sabia como este seu filho gostava de ter coisas destas… No caso, a 4ª edição, de 1909, de tal obra de arte histórico-literária – um livrinho a narrar em verso a vida de José do Telhado, que temos bem guardado. Do qual aqui mostramos imagem da capa, com muito gosto em ter isto assim.

Esse era e é um exemplo da chamada literatura de cordel ao tempo em voga, mais acessível do povo comum e com laivos de estilo dos antigos autos populares tão ao gosto das pessoas mais dadas a isso, também. De cujo acervo, do que foi de meu avô, António da Costa, o senhor António da Quinta (que aqui já referi, a propósito dum artigo publicado no Semanário de Felgueiras, por ocasião da comemoração do Foral do Unhão), também tenho mais dois livrinhos, de “romances” populares...


Armando Pinto


((( Clicar sobre as imagens, para ampliar )))

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Imagens de outros tempos: Uma foto à porta da igreja de Rande…


Como é dos livros clássicos, no ciclo da vida tudo se transforma, ao longo dos tempos e consoante determinadas variantes. Não sendo de admirar que agora nem se façam certas cerimónias em horas e até dias tradicionais, tal como se valorize menos algumas memórias e conhecimentos de maneiras antigas de apreço.

Sem que venha tanto ao caso, mas na simbiose da memória, atendendo às coisas simples e banais que fazem sorrir a retina da recordação, desta feita damos à estampa uma foto de tempos que há muito já lá vão, tratando-se duma pose familiar em dia de comunhão (primeira ou solene, pois então tudo tinha o mesmo encantamento significativo), à porta da igreja de S. Tiago de Rande.

Armando Pinto


((( Clicar sobre a foto, para ampliar )))

domingo, 1 de novembro de 2015

Tempo de Saudade…


Transposta a passagem que transporta à imagem espiritual, com a chamada noite do Halloween vulgarizado, algo que antigamente servia para “alumiar” perante o breu da noite nas andanças por mor das desfolhadas… é chegado o primeiro dia do mês de Novembro com o sagrado culto de Todos os Santos e Fieis Defuntos, a voltar-nos intimamente para o sentimento da recordação e saudade pelos “Nossos” que já partiram deste mundo.


Como um antigo lampião nas caminhadas tradicionais por velhos barrocos da memória de nossos recônditos pensamentos, qual lanterna de alumiar de tempos antepassados, a iluminar a memória de nossos ente queridos, apertamos em nossas ternas memórias feições que sempre serão queridas ao correr de nosso sangue. Em homenagem de saudade viva!


Armando Pinto

sábado, 31 de outubro de 2015

“Halloween” caseiro…




Em dia de passagem do chamado “Halloween”, importado da América como outras “coisas” através do que se vai vendo nos filmes; e enquanto desde já há alguns anos vão havendo organizações alusivas também por estas bandas… há que ocupar o tempo com alguma coisa a nível particular, enquanto assim se mantém alguma tradição - pois as caveiras de "botefas" (abóboras) esventradas, ôcas, já eram costume por estes sítios (da Longra-Felgueiras) em dias de desfolhadas, no antigamente...!



Armando Pinto

((( Clicar sobre as imagens, para ampliar )))

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Lista de Pessoas e Entidades da região da Longra, reconhecidas como Sócios Beneméritos e Honorários dos Bombeiros de Felgueiras


É do entendimento público a benfazeja utilidade de certas instituições de âmbito coletivo, entre as quais se inclui à cabeça, naturalmente, como se pode dizer, a Corporação dos Bombeiros Voluntários de Felgueiras.

Em tal importância, detém certo interesse o reconhecimento que essa instituição carismática prestou na sua existência a pessoas e entidades que se distinguiram, entretanto, em apoio de índole diversa.

Assim, além de pessoas e instituições históricas da restante área do concelho, olhando a casos de entidades e personalidades da área da vila da Longra, anote-se os exemplos que dizem respeito a esta área do sul felgueirense, incluídas no livro de honra da nobre organização dos Bombeiros felgueirenses.

Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Felgueiras


Sócios Beneméritos 

Número - Data de Inscrição/Aprovação - Nome:

 1 - 03 de Abril de 1899 - José Joaquim Ribeiro Teles (irmão do antigo pároco de Rande e Sernande, Padre Joaquim Teles, que doou à diocese a quinta da Formiga);
6 - 30 de Julho de 1913 - Conselheiro António de Barbosa Mendonça (da Casa de Rande. Antigo Presidente da Câmara de Felgueiras, fundador do Sindicato Agrícola e do seu jornal Semana de Felgueiras);
11 - 10 de Outubro de 1922 - Cipriano Teixeira de Amorim Novais - da Casa da Sobreira-Pedreira;
16 - 27 de Julho de 1924 - D. Joaquina Dias Pereira (da Casa de Santiago-Rande);
29 - 31 de Maio de 1933 - D. Elvira Gonçalves de Barbosa Mendonça (da Casa de Rande. Esposa do Conselheiro Barbosa Mendonça);
39 - 06 de Novembro de 1970 - Metalúrgica da Longra, Lda.
42 - 02 de Abril de 1973 - Júlio Teixeira Martins (da Metalúrgica da Longra);
43 - 02 de Abril de 1973 - Avelino Peixoto Dias Pereira (da marca de vinho Casal de Santiago, da Casa de Santiago-Rande):
82 - 24 de Novembro de 1988 - Fabrica de Calçado Sozé & Cª, Lda.
87 - 24 de Novembro de 1988 - Carlos Alírio Pinto Martins da Fonseca – da Sorte-Pedreira;
90 - 24 de Novembro de 1988 - Mário Fernando Silva e Cunha (da empresa de Calçado Pedreira e Baía, residente em Cimo de Vila-Rande).

Sócios Honorários

Número - Data de Inscrição/Aprovação - Nome:

 1 - 03 de Abril de 1899 - Dr. João Machado Ferreira Brandão – da Casa de Cimo de Vila-Sernande. Antigo presidente da Câmara de Felgueiras, que lançou senhas-cédulas de dinheiro de papel, para restrita circulação local/concelhia);
2 - Dr. António Machado Ferreira Brandão (irmão do anterior);
4 - 03 de Abril de 1899 - Leopoldo Ferreira Sarmento Pimentel (da Casa da Torre-Rande);
5 - 03 de Abril de 1899 - Aurélio da Cunha Rola – da família da Casa da Mata-Lordelo e residente em Cimalhas, Alto da Longra. Sócio do Conselheiro Mendonça na exploração da fábrica de laticínios da Quinta de Rande);
6 - 03 de Abril de 1899 - Luiz Dias Xavier Pereira da Costa (da Casa do Outeiro-Rande);
8 - 03 de Abril de 1899 - Luiz Gonçalves (da Longra-Rande. Arquiteto da Casa das Torres, da então vila e hoje cidade de Felgueiras);
9 - 03 de Abril de 1899 - Dr. António de Barbosa Mendonça (acima referido),
(numa lista honrosa que, presentemente, vai até ao nº 66, inscrito/aprovado em 14 de Novembro de 2003: Sua Alteza Real D. Duarte de Bragança).
.
Armando Pinto