Espaço de atividade literária pública e memória cronista

domingo, 29 de março de 2026

Cadernos da memória...!

 

Pousando um voo de lembranças pela década dos anos 60, a percorrer essa carrada a somar anos… Chegado que era o tempo das férias escolares, no tempo de nossos tempos de escola, pousava-se num canto da casa a sacola de ganga mole, de andar a tiracolo com os livros, lousa, ponteiro e caderno, e durante dias nem se pensava em mais nada que não fosse as brincadeiras diárias com os amigos, entremeando com acontecimentos usuais conforme a quadra de ano. Tanto que na proximidade da Páscoa o sábado da véspera do dia de Ramos era normalmente de ver chegar muita gente nas camionetas de carreira, na paragem à beira do Largo da Longra. Sendo normal então chegarem raparigas que eram criadas de servir no Porto ou outra cidade próxima, serventes em casas de fidalgos da região mas que viviam na cidade. Jovens que vinham passar a Páscoa à terra. Chegando, perante a curiosidade dos rapazes assistentes de ocasião, que as viam com novos olhos, depois de tempos passados. E soldados a regressar de licença, voltando a ver a terra com olhos diferentes de reconhecimento e regozijo. Tal como estudantes que reviam a terra de seus maiores. Apeando-se todos à paragem da camioneta, diante da visão de conhecidos e amigos, que se voltavam a ver. Andando no ar certa aragem de imagens de amêndoas e folares, quão em certos lares também aroma e gosto de pão-de-ló. Se não para muitos, isso, pelo menos para todos uma sensação de casa mais cheia e ambiente mais alegre na freguesia. Nesse tempo de certo modo limitado, mas de bons sentimentos. Indo-se no dia seguinte à missa do Domingo de Ramos, com muita gente a mexer-se entre os ramos salientes e o cheiro a incenso. Mais, durante a semana quem podia também passava na igreja para as cerimónias da semana santa, que por norma enchia com a rapaziada da casa da Torre, rapazes e raparigas que em bandos alegres vinham passar as férias à casa-mãe da família Pimentel e durante o dia percorriam a freguesia acompanhados pelo Comandante Serafim de Morais (Coronel que foi Comandante dos Bombeiros Sapadores do Porto, Inspetor da Zona Norte dos Bombeiros e condecorado, etc.), cunhado dos célebres Sarmentos Pimenteis; sendo ele com sua postura militar a impor respeito à alegria juvenil dos descendentes do mesmo ajunto familiar. Até que no Dia de Páscoa, enquanto andava o Compasso Pascal, saído da igreja logo pela manhã cedo ao som de foguetes e do sino paroquial, havia ponto alto pelo meio-dia com a receção na casa da Torre, onde antes do Compasso eram atiradas moedas aos magotes de crianças que se juntavam no terreiro e se lançavam em busca dessa tradicional dádiva popular, ali no Paço de Rande. E o dia era passado pelas crianças a acompanhar o Compasso, com as roscas recebidas de padrinho ou madrinha metidas a tiracolo, grandes que eram, antes dessa regueifa enfeitada chegar à mesa de família. Passado o tempo depressa assim, a voar nos dias seguintes, e logo chegava altura de voltar à escola e pegar na sacola com as coisas que lá andavam… Tanto como o caderno voltava a ter de abrir para a escrita com as penas de tinta azul. Andando agora ainda na lembrança, como caderno de memórias.

Armando Pinto

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