Como não somos os únicos a olhar o céu, e lá em cima haverá
muita gente conhecida que faz parte das memórias aqui da terra, olhando cá de
baixo o infinito azul da abóbada celeste vem à ideia gente desaparecida, mas
não esquecida. Como desta vez se lembra por aqui mais alguém de nosso apreço,
entre pessoas merecedoras de serem lembradas, pelo menos na memória coletiva: - o senhor Manuel do Café, um amigo que foi também figura pública da
Longra. O mesmo também muito popular senhor Manuel das Mobílias, como inicialmente
foi conhecido quando veio para a Longra, e depois senhor Manuel do Café, assim chamado
desde que abriu o seu Café Longra. De nome completo Manuel António Marinho da
Silva, mas normalmente tratado na Longra por senhor Manuel, e entre amigos de
fora por Marinho da Silva, sobretudo por sua profissão posterior de vendedor de
carros, em que foi grande artista considerado o melhor do Vale do Sousa.
= Aspeto do interior do Café Longra, nos seus primeiros tempos - em imagem constante do livro "Memorial Histórico de Rande e Alfozes de Felgueiras".
Ora o senhor Manuel, quando veio para a Longra, era eu ainda
pequeno (daí não ter bem ideia de mais pormenores), estabeleceu-se com um
estabelecimento de mobílias de madeira, de venda e conservação de móveis,
incluindo o seu tratamento de acabamentos – pois ia buscar os móveis ainda por
acabar, que na loja da Longra eram depois envernizados e postos em exposição,
senão logo levados aos compradores. Loja essa sita ao lado do fontanário
central da Longra e que também era local de convívio da então povoação da
Longra, quão aí se juntavam amigos em conversas com ele e entre eles. De modo
que nessa convivência ele conseguia vender móveis de qualquer jeito ou feitio
mesmo a quem não precisasse. E ali se criaram bases de futuro até de famílias.
Mas isso são outras histórias. Tendo, contudo e sobretudo, com sua vinda para a
Longra, sendo ele presença diária ali do Largo, resultado que conhecesse a
mulher de sua vida e acabado por criar a sua família. Havendo de permeio
residido ainda nas redondezas, até que por fim veio habitar no Largo da Longra,
junto aos antigos jardins fronteiros às casas que foram do senhor Abel Faria do
carro e do senhor Camilo (onde antes houve um antigo café do senhor Adriano Castro).
Espaços ajardinados esses depois desaparecidos, com a criação de espaços mais
largos na berma da estrada.
Entretanto, como na Longra apenas havia um local de convívio
público, vulgo café ou bar, o chamado Bar da Casa do Povo, que funcionava mais
à noite, e nada mais entre Lousada e Felgueiras, o senhor Manuel resolveu
instalar um negócio de cafetaria no centro da Longra, abrindo então o Café
Longra. Aberto pela primeira vez e ainda durante alguns dias em dezembro de
1969 (com interrupção derivada porque pelo meio se meteu doença agravada e morte
de sua mãe) e depois em definitivo no princípio de 1970. De permeio com sua
função de vendedor de carros. Ficando o Café entregue à esposa, a Isaurinha do
café, por isso mesmo assim mais conhecida, enquanto ele corria tudo a vender
carros, os Toyotas então deveras em voga, que ele vendia quase com uma perna
às costas, como se dizia, chegando a ir ao meio dos campos de lavradores amigos
e conhecidos vender carros, conforme era dito. A pontos de ser então famoso
como maior vendedor da região do Vale do Sousa, através do Stand de Paredes.
Juntando o costume de se fazer acompanhar por amigos, a fazer-lhe companhia,
que levava e esperavam enquanto ele vendia carros, levasse o tempo que levasse.
Sendo à época assim um personagem da vida local, o senhor
Manuel envolveu-se também na vida social, a partir que, depois do 25 de Abril
de 1974, surgiram os partidos livres e então ele foi pioneiro a nível local na
divulgação de um partido político que havia sido formado por esse tempo, o PPD-Partido Popular Democrata, de Francisco Sá Carneiro (mais tarde
transformado em PSD-Partido Social Democrata). Em cujo envolvimento o
senhor Manuel chegou a fazer parte de listas concorrentes a eleições
autárquicas, derivando disso que em 1977 foi eleito para a Assembleia de Freguesia
de Rande, órgão de que fez parte no triénio de 1977 a 1979.
= Café Longra: um aspeto inicial, em 1970 - por imagem ampliada da gravura constante do livro "Memorial Histórico de Rande e Alfozes de Felgueiras", publicado em 1997.
Entremeando com toda essa vivência, o senhor Manuel era
pessoa de facilmente fazer amigos, de conhecidos de seu tempo e mesmo de outras
idades. Tendo sido um grande amigo de meu pai, que foi um dos primeiros clientes
dele na compra de uma cadeira articulada de madeira com assento de pano, para a
minha avozinha (que estava paralítica há muito tempo, como esteve durante mais
de 14 anos) e mais tarde ainda também uns sofás e uma pequena mesa central de sala
para nossa casa. Bem como foi amigo cá de toda a minha família e meu,
naturalmente. Chegando entre nós dois a estar combinada a publicação (em reedição,
por cópias) do antigo álbum de fotografias do comboio que passou na Longra. E
modo de o vender às pessoas, etc. e tal… Só que isso não chegou a passar de
conversas de café, misturadas com outros assuntos que depressa distraíam as
atenções.
Em suma, tendo o senhor Manuel sido um respeitado habitante
da Longra, está referenciado no livro historiador da região, "Memorial Histórico de Rande e Alfozes de Felgueiras", quer no capítulo
da Longra, por exemplo, como na parte da Junta e Assembleia de Freguesia. Além
de ter também sido referenciado, por exemplo, no livro escrito sobre o senhor
Sousa da IMO. E agora fica aqui com sua memória avivada, como amigo de seu
amigo.
Armando Pinto
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