terça-feira, 4 de agosto de 2026

Um Hino à Vida

 

Um destes dias soube que faleceu um antigo companheiro das andanças da vida. Que conheci jovem, era eu ainda um miúdo, como se diz de um catraio, um rapazinho e ele era já frade. Vindo o caso a puxar o fio da memória, por via de interessantes lembranças.

Andava eu nos Capuchinhos em Gondomar, talvez no 2.º ano, ou possivelmente no 3.º do curso de seminarista e do antigo ensino liceal da época, quando conheci uns colegas de Ordem religiosa mais velhos, já  estudantes do ensino superior, a cursar talvez Teologia, isso não sei, mas sei que vestiam hábito, a veste de frade de votos ainda de profissão simples. Andando eles então num Seminário da mesma Ordem mas de ensino mais adiantado. Por isso nem nos conhecíamos e eu fiquei a conhecê-los com os olhos de criança, ainda, e eles ficaram a conhecer um magote de rapazes que ao tempo andavam entre coisa dos 11 aos 13 anos, mais ou menos. Porque um belo dia, mas à noite, após o jantar, houve visita de estudantes mais velhos, da casa do Ameal do Porto, para fazerem um convívio com os mais novos, à base de um género de espetáculo com que eles brindaram o pessoal da casa de Gondomar. 

De vez em quando apareciam alguns alunos espigadotes que já andavam nalguma das casas de seminários maiores da mesma Ordem, mas sempre a horas fora das refeições, pois como já tinham andado ali no menor sabiam que a comida não prestava para os seminaristas, estando eles já melhor habituados ao seu novo estatuto. Sendo essas visitas sempre apreciadas, estando a malta do Seminário de Gondomar confinada ao ambiente interior, pois entre as idas a casa nas férias, estava-se sempre dentro dos muros da quinta da casa solarenga do Seminário e pouco se sabia do que se passava fora. Tanto que de Gondomar, fora os dias em que de vez em quando havia umas caminhadas pelas localidades das redondezas, em grupo e de tarde de tempos a tempos, praticamente só conhecíamos de vista o Monte Crasto, por o vermos de baixo.

Dessa vez foi então a seguir ao jantar, num sábado à noite. Aparecendo-nos aí um grupo de jovens vestidos de hábito Capuchinho Franciscano que diante de nós cantaram, declamaram poemas e contaram anedotas, do que me lembro. Fixando eu isso por uma das melodias que nos cantaram.

Coisa que recordei há tempos. Porque aqui há uns anos, tendo-me passado pelas mãos alguns dos papéis que guardei da minha passagem por Gondomar, deparei-me com a letra de uma canção que na época me tocou muito. Uma canção que eu pensava que era da autoria de um desses referidos, mas depois soube que era de outros. Tendo-me ficado ideia que era do Sério, como se chamava um desses jovens candidatos a frades. Por ter sido ele a cantá-la e o fez com grande sensibilidade. Mas soube mais tarde que era de dois outros, José Ramos e Bento Correia, que andavam mais adiantados ainda e inclusive o primeiro chegou a ser ordenado padre. Como tinha ouvido outra canção, anteriormente, que pensava que era de quem a ouvi, pela boca do Frei Nuno, mas que todos diziam ter sido feita pelo Sério, a qual (se não era o título, pelo menos era a frase mais forte) descrevia a singularidade duma Capelinha do Sertão, mas com o título "Capelinha da Missão" (que mais tarde, também, soube que era de outro, do Ilídio Novais).

Ora, antes então de recordar a que gostei muito, recordo esta última referida.  Melodia, esta (pois da outra falo a seguir) que marcou a viagem duma excursão de visita ao Minho, que fizemos no meu 1.º ano (1965/66) – em que, para surpresa nossa (apenas de véspera nos mandaram ter o fato novo em ordem), numa bela manhã, fomos metidos numa camioneta (autocarro) sem sabermos para onde íamos, pois só já em andamento nos apercebemos que era uma excursão… e, a nossos olhos, de petiz, o itinerário se nos deparou quando chegamos diante do castelo de Guimarães… Tendo-nos maravilhado, do que melhor fixamos, a visita ao Paço dos Duques e, depois, o almoço, com aquele refogado de batatas com carne que se comia em dias de festas, por lá em Gondomar, e que nesse dia nos foi servido mais longe, com todos abancados no parque de S. Bento da Porta Aberta, em pleno Gerês… Ora, durante essa viagem, o Frei Nuno muito nos encantou a cantar a tal canção da capelinha, com voz sentida, conforme a enternecedora música pedia e a respetiva letra puxava…

Ora, voltando ao tema, entretanto os tais companheiros do Sério, que eram já Freis experimentais, por assim dizer, também, ao que me apercebi depois, por já usarem hábito quando os vi, tinham andado em Gondomar pelo menos até ao antigo 5.º Ano. Mas na época da visita em apreço era diferente. Porque era já em tempo de transição dos Seminários, pois no meu primeiro ano, em Gondomar ainda frequentaram o Seminário Seráfico os alunos do 1.º ao 5.º ano, havendo alguma distância entre os mais novos e os mais velhos pelas diferenças de brincadeiras. Contudo recordo-me, por exemplo, havia alguns mais velhos que, como eram amigos colegas de ano do meu primo Rosário, me “davam bola”. Lembrando-me, ainda ao acaso, do “decano” que ia sempre à frente do ordenamento em fila, etc. etc. Depois, em anos seguintes, ficamos só os do 1.º até ao 2.º ano, em Gondomar, embora depois ainda continuasse novamente por anos seguintes a evolução, pelo que aos mais velhos só os víamos quando, em dias de passeio, alguns dos que estavam no Porto vinham visitar a antiga casa, ou então em ocasiões especiais, como aconteceu na ordenação episcopal de D. Francisco da Mata Mourisca, no Ameal, quando nós, os mais pequenos, fomos incorporar o coral da cerimónia, para fazermos a primeira voz… ou, mais, tarde, na inauguração da 1.ª pedra para a Cripta da igreja conventual de Gondomar, quando vieram todos (já que, mais tarde, na bênção da Cripta nós, os mais novos, ainda estávamos de férias grandes, no verão)…

Dos tais mais velhos que então não conhecia, naquela noite de fim de sábado fiquei com alguns deles bem familiares, por, mais uma vez sem ninguém nos ter dito nada, ter aparecido esse grupo deles para fazer um género de serão, deliciando-nos no refeitório, a servir de salão (que então havia sido mudado, tendo passado para o sítio da antiga capela) com uma atuação inesquecível… E, aí, vi(mos) os intérpretes das cantigas de mistura religiosa e social. Foi então que ouvi a tal canção, que me fez lembrar disto tudo, de modo até a ter decorado. Pensava que era intitulada A Montanha. Como a passei depois ao papel pelo que fixei, motivo por que não coloquei toda a devida pontuação, apenas a que mais se salientava.

Ora um destes dias, tendo falecido esse José Ramos, que entretanto havia saído da Ordem e foi um renomado professor catedrático em Lisboa, apareceu-me diante dos olhos um texto do respetivo co-autor da cantiga (sendo um da música e outro da letra), como homenagem póstuma ao falecido amigo, e assim pude rever a mesma canção, que afinal teve o título de “Montanha da minha Vida". Podendo eu rever e recordar essa mesma cantiga, de estilo balada, completa:

« MONTANHA DA MINHA VIDA

Música: Bento Correia

Letra: José Augusto Ramos

Refrão

Sobre a montanha da minha vida

Sinto a brisa fresca,

Vejo o céu azul a convidar a convidar,

Eu vou subir lá bem ao cimo,

Quero ver o mundo,

Quero ver a luz com outro olhar.

 

Estrofes

I

Sei que estes vales vão cantar

Ao ver o dia a despontar,

Tudo sorri ao olhar p’ra mim!

Sei que tu vais também viver

Ao ver o dia amanhecer,

Oh! Como é belo viver assim!

 

II

Nas brisas frescas a correr,

Nas folhas tenras a crescer

Sinto a presença do Criador.

Na tua vida a caminhar

Nas tuas dores a chorar,

Como não sentes o seu amor?

 

(Bento)»


E aí está a recordação, nesta memória, que serve também de homenagem aos autores dessa cantiga. Nenhum dos intervenientes chegou a frade em anos seguintes, tendo eu saído de lá ainda rapazinho sem barba na cara, sequer, e sem ter vestido qualquer hábito, entenda-se, enquanto alguns dos mais adultos também acabaram por seguir outras vidas. Como tantos mais. Lembrando-me eu disso, e eles nem sei. Mas ficou um Hino à Vida por essas e outras lembranças. 

Paz e Bem, à memória desses tempos.

E Descanse em Paz José Augusto Ramos.

Armando Pinto

Nota: Para rever alguns outros artigos referentes ao tema “Capuchinhos”, clicar em

http://longrahistorico.blogspot.com/2014/10/ecos-historicos-duma-missao.html

http://longrahistorico.blogspot.com/2022/10/faleceu-o-capuchinho-frei-vitor-arantes.html

http://longrahistorico.blogspot.com/2023/10/dia-de-lembrar-s-francisco-de-assis.html

http://longrahistorico.blogspot.com/2025/11/encontro-de-reencontro-de-amigos-e.html

http://longrahistorico.blogspot.com/2026/02/memorias-pessoais-do-historico-sismo-de.html

AP

6 comentários:

  1. Manuel António Monteiro de Jesus6 de agosto de 2026 às 11:50

    Gondomar....Seminário dos Padres Capuchinhos.....Frei Fulgêncio e a sua famosa raquete que nos fazia saltar o coração pela boca para apanhar e relançar-lhe a bolinha maciça que ele projectava de uma ponta para a outra do campo de futebol...Frei Agostinho com o seu hábito arregaçado para nos acompanhar nos jogos de futebol....Frei Vitor de Oleiros, director, verdadeiro pai,amigo,restaurador de almas inocentes angustiadas....entrei em 59, saí em 63; não realizei o meu sonho de ser missionário, demandar África, mas agradeço-te, Senhor, teres-me dado a oportunidade de conviver e aprender com homens Teus que marcaram a minha vida para sempre.
    Manuel António Monteiro de Jesus ( O "espanhol")

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  2. Carlos Morgado Portugal.6 de agosto de 2026 às 13:33

    Se bem que já não me lembro de ti,a historia que contas é veridica , também foi partilhada por mim e fizeste-me lembrar várias memorias,velhos tempos.

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    1. Viva, boa tarde. Se fores o Portugal que andou em Gondomar pelo menos em 1965/66, que foi o meu 1.º ano, embora andasses noutro ano mais adiantado, eu lembro-me de ti, pois tinhas fama de ser barra nos estudos e dizia-se que até decoravas as páginas onde estavam determinados temas que viessem à baila, como se diz. É natural que não te recordes de mim, pois eu fui sempre muito metido em meu mundo, por assim dizer. Sem me colocar nos primeiros lugares ou à frente das conversas. Embora nas filas do seminário, com o chamado decano à frente, eu tivessie de ser dos primeiros porque à minha frente só teria uns 4 ou 5, por ser dos mais pequenos nesses idos de 65/66. Mas muito amigo dos amigos. Abraço.

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  3. Visto se notar que há qum se não recorde de antigos colegas, desses tempos, o que se entende passados tantos anos, acrescentei a meio do texto uma fotogarfia do ano letivo de 1967/68. Naturalmente os que andaram em Gondomar em 1965/66 e depois foram para o Porto já não terão tanta lembança das fisionomias desse ano, mas os que continuaram terão, visto essa fotografia ser do 3. º ano dos que se mantiveram em Gondomar. nesses idos tempos..Eu estou na segunda fila dos alunos, a contar de baixo para cima (ou terceira contado com os padres e Freis), a meio, tendo a meu lado o meu irmão Fernando.

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  4. Olá Armando Pinto, se estás nesta foto, então as nossa vidas se cruzaram. Eu sou o 2º do lado esquerdo da 2ª fila a contar de cima. Recordo a Capelinha da Missão. Bons tempos. Grande abraço. António Brandão

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  5. Olá amigo e colega. Sim estou nessa foto. Eu (Armando Pinto) na foto estou ao lado de meu irmão Fernando Pinto e do outro lado do Zé Lopes (de Arrifama,de entre São João da Madeira e antiga Vila da Feira, hoje Santa Maria). Se estou a perceber na foto deves estar ao lado do Guerreiro. É natural já não nos recordsarmos de todos os nomes, passados cinquenta e tal anos.

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