sexta-feira, 24 de julho de 2026

Novenas a São Cristóvão de outrora e festa dos automobilistas ainda atual

 

Ainda ecoam nos ares da memória coletiva as antigas tradições das novenas a santos da região, a sítios, igrejas e capelas de santos de invocação popular, dos chamados advogados de causas. De cuja feição, nos dias que correm, resta a organização anual de recriação das novenas a Santa Quitéria, numa iniciativa tendente a recuperar essa ancestral manifestação de cunho religioso popular. Mas havia outras, com realce para as idas a São Cristóvão, como popularmente se dizia da freguesia de S. Cristóvão de Lordelo. Realidade com que outrora eram “pagas” promessas e que nos tempos de agora é trazida a público em revivalismo sadio, de reconhecimento devido ao interesse com que já vão sendo tidas lembranças de tempos idos, como integrantes da memória coletiva.

Essas práticas de exercício devoto seguiam pisadas das antigas peregrinações, de que ainda vão sucedendo algumas, provindas de gentes de paragens vizinhas e sítios distantes em demanda de Felgueiras, através de longas caminhadas comunitárias. Remanescentes como réstia de folclore religioso, que em tempos de antanho era exercido com danças e bailados litúrgicos, de culto externo durante a Idade Média, algo ocorrido nos templos religiosos nalgumas ocasiões de festividades, mas interditado entretanto. Essa influência religiosa cedeu assim parcelas sentimentais ao espírito popular, na senda de que a parte espiritual sempre atraiu a imaginação e a crença, refletindo na poesia singela a ambiência vivida. Antigamente, quando havia qualquer aflição, pestes e outras doenças, tal como para livrar um mancebo da tropa ou outro motivo de força maior, pedia-se o milagre ansiado a um santo ou santa da devoção particular, a quem se apegava a pessoa suplicante na sua fé, ao que em contrapartida, fundamentada em esperança de atendimento, era feita promessa de ação de graças. Entre essas promessas estavam caminhadas, desde a casa de quem tinha a promessa a cumprir até à ermida ou igreja onde se destinava, levando grupo de pessoas a cantarem clamores em agradecimento, conforme o prometido. Se o rancho de gente era de seis componentes chamava-se Serão, ao passo que de nove era Novena. Caso a prece fosse por uma menina normalmente a promessa era de levar nove meninas a cantarem, se fosse por um menino era costume um serão de meninos, e se fosse por pessoa adulta tanto iam só moças adultas como uma mistura de meninas e raparigas espigadas, até mulheres casadas por vezes. Acompanhadas atrás pelas pessoas pagadoras da graça: aquela por quem fora feito o voto, que por vezes ia amortalhada ou levava uma vela de cera do seu tamanho; e a que prometera, indo esta nesse cumprimento, levava então à cabeça cesta ou açafate com farnel para fortalecer o rancho durante o caminho. No fim, ao regressarem a casa, era dado a todo o conjunto de pessoas intervenientes um almoço de recompensa, que por norma consistia de arroz de feijão branco, servido em companhia de bolinhos de bacalhau.

Na região de Felgueiras esses destinos eram vários, percorridos com ajuda de cânticos entoados ao longo dos percursos da satisfação das promessas. Havia serões e novenas conforme as proximidades das terras dos santos mais invocados, mas também de mais distantes paragens, podendo ser a Santa Quitéria, ao monte de seu nome sobranceiro à antiga vila de Felgueiras (hoje cidade), como à Senhora da Saúde ou ao S. Cristóvão, a Lordelo, à Senhora do Alívio, na Serrinha, bem como a santos e santas de devoção mais local, como aos padroeiros das freguesias, ou ainda fora do concelho à Senhora da Livração, ao S. Bento das Pêras, à Senhora da Lapinha, entre diversos rumos.

Ora, um caso havia especial que era das promessas a S. Cristóvão. Santo atualmente mais lembrado como padroeiro dos motoristas, viajantes e peregrinos, mas em tempos recuados tido como advogado contra o fastio e a falta de apetite, na cultura popular e religiosa portuguesa, de maleitas de quem comia muito pouco. Sendo que então o povo era devoto dessa prece recorrendo a São Cristóvão para pedir a cura ou o alívio da falta de vontade de comer, visto que a perda de apetite era vista como sinal de doença grave. Em todos esses casos por o santo ser visto como forte, corpulento, pelo que teria de ser de bom comer, como se dizia. Tal como o seu nome Cristóvão se associa a "portador de Cristo", derivado da lenda em que como homem agigantado ajudou um menino (que era Cristo, na feição de Menino Jesus) a atravessar um rio caudaloso, levando o menino ao obro e como tal arcando com o peso do mundo. Enquanto na associação moderna o facto se reflete mais ao aspeto transportador, na proteção atribuída aos viajantes.

Entre essas ligações, ainda recentemente ocorreu a anual celebração da festa dos automobilistas de Felgueiras, juntando também aderentes de Lousada. Embora o dia litúrgico dedicado ao santo seja a 25 de julho, mas talvez por o mesmo ser também dia de S. Tiago e por exemplo nos arredores haver a festa grande de Lousada, ultimamente tem o festejo de S. Cristóvão de Lordelo-Felgueiras sido no domingo anterior, como aconteceu este ano, mais uma vez.  Mas sempre com grande entusiasmo de vários modos e feitios. Sendo dessa mesma festividade a lembrança antiga dos “santinhos” de tempos idos, as pagelas entregues na ocasião aos devotos. Como são os exemplos que se juntam, da imagem de ilustração, com pagelas de anos diferentes, uma que já pertencia à coleção aqui do autor destas lembranças e as outras duas pagelas recebidas agora, por gentil oferta de uma prima minha natural e residente em S. Cristóvão de Lordelo. Sendo desses "santinhos" os mais antigos de versões também diferentes e já raros, não havendo já disso, como se diz, e mesmo o mais recente também pouca gente já terá, visto esses exemplares físicos, em papel, serem lembranças de existências remotas, de tempos idos.

Armando Pinto

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